domingo, 22 de maio de 2016

Aos meus professores: a humildade do reconhecimento e da gratidão

Diz-nos a experiência que em momentos de fragilidade o ser humano torna-se mais vulnerável, frio e revoltado, menos agradecido e mais distante. É nestes momentos que sinto vestir a pele ao contrário. Ajoelho e dou graças por todos os bens e graças recebidas, e pelas pessoas “culpadas” pelo ser que hoje sou.
Sou o que sou, sei o que sei, devido em primeiro lugar aos meus pais, que me transmitiram os seus genes e a sua educação. Mas sou o que sou, sei o que sei, devido em segundo lugar aos meus professores, que me tem transmitido a cultura que a humanidade acumulou e a educação ligada a essa cultura.
Quanto eu gostaria de generalizar o que penso e sinto firmando que nunca estamos nem estaremos demasiado gratos aos nossos pais nem aos nossos professores. Eles acompanham-nos pela vida fora, mesmo quando estamos sozinhos.
Ontem estive a atualizar o meu Curriculum Vitae (CV) por questões profissionais e académicas e refleti sobre estas pequenas coisas a que chamo “pequenos nadas”, a que ninguém deve dar importância, mas que para mim têm um valor inestimável. O nome dos pais põe-se sempre no CV, porque de certa forma fazem parte da nossa identidade. O nome dos professores devia também fazer parte de todos os "curricula", porque a nossa formação se deve em grande parte a eles. Sei que em alguns países (como a Alemanha) é ou pelo menos era habitual colocar-se, numa página final das teses de doutoramento, o nome de todos os professores de licenciatura e de pós-graduação. Apesar do esmerado esforço de reconhecimento, admito que é injusto para todos quantos os antecederam. Quando falo em reconhecimento e gratidão, passam-me muito nomes pela memória, mas a figura que surge sempre em primeiríssimo lugar é a minha estimada professora do ensino primário que me acompanhou quatro difíceis anos (antes e na transição do abril de 74).
Falar do papel dos pais seria talvez redundante, toda a gente os tem e toda a gente sabe o que eles significam para eles. Talvez não seja tão redundante falar dos professores, antes devia ser privilégio de toda a humanidade, mas sabemos que há infelizmente no mundo quem não os tenha ou que não tenha os professores que precise; e há, também infelizmente, quem os tenha e não reconheça suficientemente o valor que eles tiveram, têm ou podem vir a ter nas suas vidas. As crianças e jovens (todos nós, afinal, porque já o fomos) têm alguma dificuldade em fazer imediata justiça aos professores com quem convivem diariamente. Mas à medida que crescem (que crescemos), vão descobrindo a dimensão da herança que lhes devem e construindo dentro de si, ainda que escondida, uma gratidão profunda.
Nem todos os professores que se cruzaram nas nossas vidas foram os melhores professores, é verdade, mas todos eles deixaram marcas indeléveis, ousaria até dizer que eles são co-construtores daquilo que hoje somos. Temos, de facto, um lugar especial dentro de nós onde guardamos com saudade alguns dos nossos professores. Para as pessoas que aí colocamos a nossa gratidão é maior. A escolha dos nossos melhores professores não é apenas racional. Escolhemos afetivamente alguns dos nossos mestres, porque sentimos que eles, além de educação e cultura, nos transmitiram um afeto enorme. Gostamos deles por várias razões, mas também porque eles gostaram de nós. E como o gostar é uma característica humana, muito humana, os melhores professores são imensa e intensamente humanos.
Não ousaria nomeá-los, pois sei que seria injusta, mas o meu pensamento está em vós e a minha gratidão é imensa. Todas as palavras ficariam aquém do bem que me têm feito. A alguns tenho ainda a agradecer a aliança, a confiança e a amizade, por isso, as palavras serão sempre poucas. O meu bem-haja, professor(a)!
22.05.2016

terça-feira, 3 de maio de 2016

Revista da UIIPS, v.4, nº 2 (2016)

v. 4, n. 2 (2016)

Número Especial do Congresso

CONGRESSO “Investigação em Qualidade de Vida, Inovação e Tecnologia”, 
11 e 12 de Fevereiro de 2016, Rio Maior, Portugal

Como na escola se aprende que a pobreza se pode reduzir a um jogo

Por Doutora Helena Damião,
      Professora Auxiliar da Universidade de Coimbra (FPCE)

Neste século a pobreza continua a desgraçar, sem dó nem piedade, milhões e milhões de vidas. Por isso, devia ser sentida como uma vergonha por parte daqueles que a provocam e por parte de quem a tolera, praticamente todos nós.

A pobreza não é "uma questão", "um assunto" "complexo": é uma vergonha social que deve também ser sentida como pessoal. E, como tal, não se resolve, com "debates", nem com "sensibilizações", resolve-se (ou, pelo menos, menoriza-se) com justiça.

Pouco importa que assim seja, porque encontrámos um modo infalível de resolver este ou outro qualquer problema de consciência que nos possa assombrar: chutar "as questões", "os assuntos" "complexos", para a escola. E se pusermos nas mãos dos alunos um jogo de computador com o argumento de que estamos a preparar as novas gerações, ficamos livres de qualquer embargo na voz quando nos justificamos.

Estas considerações são a propósito de um jogo online "sério" que se designa por PING - Poverty is not a game - desenvolvido e distribuído por fundações europeias em parceria com empresas, e que, li nos jornais, já está nas nossas "escolas do futuro".

É destinado a alunos entre os 14 e os 18 anos e "funciona como um ponto de partida para discutir o tema da «Pobreza» e o que significa ser pobre". Na apresentação pode ler-se mais:

"Os alunos tornam-se os protagonistas (...) podem escolher entre o Jim e a Sofia que, devido a certas circunstâncias da vida, acabaram na rua e precisam de encontrar o seu próprio caminho. PING demonstra que os jogos podem ajudar a introduzir a discussão sobre assuntos sociais complexos como a pobreza na sala de aula. Os parceiros do projecto PING querem contribuir para o debate social promovendo o uso de jogos em contexto escolar como ferramenta para a abrir a difícil discussão sobre a pobreza." No manual para professores essa intenção benemérita parece esbate-se (preâmbulo):

"Os jogos digitais são um negócio em expansão, ocupando a Europa uma parte importante neste mercado, sobretudo no que diz respeito aos jogos com objectivos mais sérios (...). Através do jogo “A Pobreza não é um Jogo”, a Fundação (...) e o (...) pretendem contribuir para o debate social sobre a utilização de jogos de computador nas escolas. Com o desenvolvimento deste jogo para fins pedagógicos, os parceiros PING (Poverty is not a Game) procuram promover o debate social na Europa sobre a utilização dos jogos de vídeo pelos mais jovens e, em particular, as possibilidades de usar jogos de vídeo (sérios) para fins de aprendizagem".E o que dizer da validação do jogo, feita junto dos destinatário e de... pobres! Pobres usados duplamente - para mostrar a qualidade do jogo e como objecto de jogo - e que continuam na pobreza, Isto enquanto nas escolas se joga em nome deles (preâmbulo):

"Era importante que o jogo “A Pobreza não é um Jogo” fosse o mais realista possível, por isso, durante o seu desenvolvimento, o jogo foi experimentado pelos grupos alvo (alunos e respectivos professores) e por grupos que vivem efectivamente em situação de pobreza. A fase de concepção do jogo, que ocorreu em parceria com a ... e a ..., foi dividida em três períodos, durante os quais os alunos, os professores e as pessoas que vivem na pobreza puderam verificar até que ponto o jogo reflecte a vida real. Este prático manual abre portas ao debate na sociedade sobre a utilização dos jogos nas escolas e permitirá aos jovens sentirem em primeira mão o que significa viver na pobreza".Como é possível que a insensibilidade seja introduzida assim, descaradamente, na educação escolar?

A página do jogo e a sua versão portuguesa encontram-se aqui.
O manual para professores encontra-se aqui.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O Valor do Silêncio

As três peneiras
O pequeno Raúl saiu da escola a correr, chegou a casa muito excitado e, depois de beijar a mãe, exclamou:
- Já sabes o que dizem do António?
- Espera um pouco, tem paciência. Antes de principiares, lembra-te das três peneiras…
- Mas quais peneiras, minha mãe?
- Sim; vais ouvir e saberás. A primeira chama-se verdade. Tens a certeza de que é certo o que me queres dizer?
- Não; se é certo, não sei.
- Vês?... E a segunda chama-se benevolência. Será benevolente, será boa, essa notícia?
- Não, minha mãe, não é boa.
- E a terceira chama-se necessidade. Será necessário repetires tudo isso que te contaram desse teu camarada e amigo?
- Não, minha mãe.
- Pois se não é necessário, nem benevolente, e talvez nem seja verdade, entendo que é preferível, meu filho, calares a tua boca.

In Os contos de António Botto (1942).

domingo, 24 de abril de 2016

Pedagogia e Psicologia Positiva

Pedagogia e Psicologia Positiva

Interações em Educação e Saúde
Coordenação de Sónia Alexandre Galinha
Edição/reimpressão:2011
Páginas: 168
Editor: LivPsic
ISBN: 9789898148827
Idioma: Português





Sinopse
Ao situar o sujeito humano no contexto social interativo, a abordagem psicossocial permite perspetivar a complexidade das interações em que está envolvido, e os processos de influência que as caracterizam. É o que constatamos quando estes autores de mérito internacional nos propõem que se revalorize a ética num mundo com falta de referências axiológicas, que se reclame o altruísmo organizado sob a forma de voluntariado, que se procure a co-construção do conhecimento em contextos de aprendizagem que favoreçam o desenvolvimento um Projeto de Homem, que se supere a vulnerabilidade com o fortalecimento e expressão auto-afirmativa do Ser, que se contrarie a insensibilidade transformada em abuso com a promoção da inclusão através de comportamentos de cidadania, capazes de devolver ao outro a dignidade e o lugar que lhe são devidos.


Prefácio 
A abordagem psicossocial ao focar-se na interação humana como unidade de análise está cada vez mais na ordem do dia, dada a sua importância para a fundamentação das mais diversas intervenções. Ao situar o sujeito humano no contexto social interativo, permite perspetivar a complexidade das interações em que está envolvido, e os processos de influência que as caracterizam. 
Trata-se de uma abordagem incontornável para uma compreensão mais aprofundada do devir humano, e da expressão comportamental através da qual se manifesta. É disso exemplo a forma como são assumidas e tratadas as temáticas que compõem a presente obra, lançando um olhar novo sobre problemas antigos que reclamam respostas atuais. 
É o que constatamos quando os seus autores nos propõem que se revalorize a ética num mundo com falta de referências axiológicas, que se reclame o altruísmo organizado sob a forma de voluntariado, que se procure a co-construção do conhecimento em contextos de aprendizagem que favoreçam o desenvolvimento um Projeto de Homem, que se supere a vulnerabilidade com o fortalecimento e expressão autoafirmativa do Ser, que se contrarie a insensibilidade transformada em abuso com a promoção da inclusão através de comportamentos de cidadania, capazes de devolver ao outro (o idoso) a dignidade e o lugar que lhe são devidos. 
Esta obra, coordenada pela Professora Sónia Galinha, representa não apenas o produto do labor de investigação de um grupo de reputados investigadores que assinam os diferentes capítulos que a compõem, mas também o seu comprometimento com causas nobres ao serviço da dignidade humana. A reflexão que nos propõem, aplicada a diferentes âmbitos da educação e da saúde, caracteriza-se pela criatividade, profundidade de análise e competente fundamentação teórico-metodológica. 
Enfim, uma obra enormemente sugestiva não só pelos horizontes que abre, mas também pela premência das prioridades e solidez das estratégias para todos aqueles que, através das abordagens e intervenções de corte psicossociológico, procuram contribuir para a melhoria do bem-estar humano. 

Manuel Joaquim Loureiro 
Professor Catedrático da Universidade da Beira Interior