É uma organização sem fins lucrativos, que tem como objectivo levar o empreendedorismo, o espírito de iniciativa e a inovação às próximas gerações de portugueses. O vídeo infra explica os objectivos do projecto, o percurso e os resultados pretendidos. Vale a pena ver e ouvir.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
"Aprender a Empreender"
É uma organização sem fins lucrativos, que tem como objectivo levar o empreendedorismo, o espírito de iniciativa e a inovação às próximas gerações de portugueses. O vídeo infra explica os objectivos do projecto, o percurso e os resultados pretendidos. Vale a pena ver e ouvir.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Entrevista com o Escritor Richard Zimler
Zimler: «Custou escrever ´Os Anagramas de Varsóvia´»
Texto: Pedro Justino Alves
«Os Anagramas de Varsóvia», de Richard Zimler, editado pela Oceanos, é a última obra do autor, lançado em Setembro de 2009. O norte-americano que veio para Portugal em 1980 e vive no Porto desde 1990, confessa que este foi um dos livros mais difíceis de escrever da sua carreira preenchida de êxitos. Tudo porque perdeu familiares no gueto de Varsóvia, local onde decorre a obra.
O Holocausto sempre foi uma pedra no sapato na vida de Richard Zimler, que confessa que sempre sentiu necessidade de pesquisar sobre o assunto. Numa altura em que o Mundo assinala os 70 anos do início da II Guerra Mundial, o norte-americano decidiu enfrentar os seus fantasmas com «Os Anagramas de Varsóvia», uma obra que demonstra na perfeição o que foi viver nos guetos polacos durante o conflito bélico.
Um drama que nem sequer o autor conseguiu ficar indiferente, confessando que o «humor negro e o heroísmo» das duas personagens principais foram fundamentais para a conclusão da obra. «Foram essenciais para ultrapassar os períodos mais complicados durante a escrita», admite. Para contar a história, Zimler refugiou-se no género policial devido a «atmosfera sombria e tensa do gueto», que possuía «todos os elementos de um thriller comovente e arrepiante sem eu ter que inventar alguma circunstâncias».
Evidentemente que este livro significa muito para você em termos pessoais, já que, se não estou em erro, perdeu familiares no gueto de Varsóvia. Este foi o livro mais complicado de escrever da sua carreira?
É verdade, todo o lado europeu da minha família morreu nos campos de concentração, excepto um dos filhos de uma irmã da minha avó materna. Talvez por isso sempre senti a obrigação de pesquisar sobre o Holocausto. Um aspecto do período nazi sobre o qual sabia pouco antes de começar a escrever «Os Anagramas de Varsóvia» era os guetos na Polónia, onde os judeus foram colocados antes de transportados para os campos de concentração. Li muito sobre o assunto para saber como era a vida quotidiana. E só depois comecei a escrever. Quando escrevo, mantenho uma certa distância da acção do livro, algo essencial porque um romancista não se pode deixar sobrecarregar de emoção durante o processo de criação. Fiquei transtornado apenas três ou quatro vezes – por exemplo, quando o narrador, Erik, descreve o corpo esquelético de uma senhora que morreu de fome. O humor negro e o heroísmo que Erik evidencia ao longo do livro, e também o amigo Izzy, foram essenciais para ultrapassar os períodos mais complicados durante a escrita.
Mais uma vez a descrição dos ambientes é muito rico, como é aliás habitual nas suas obras. Como foi o trabalho de pesquisa?
Li vários livros sobre os guetos de Varsóvia, Lodz e outras cidades polacas para ter uma ideia clara da vida quotidiana dos judeus. O livro mais importante do meu ponto de vista - e que recomendaria vivamente – é um de Emmanuel Ringelblum, «Crónicas do Gueto de Varsóvia». Ringelblum era um historiador e escritor e, juntamente com outros voluntários, formou um grupo que escreveu apontamentos pormenorizados sobre todos os aspectos da vida no gueto, acumulando cerca de 50.000 documentos. Por exemplo, jornais ilegais, trabalhos escolares, posters, bilhetes de teatro.... Quando Ringelblum e o seu grupo souberam que provavelmente não iriam sobreviver, colocaram os textos e os documentos em latas de leite e caixas metálicas, enterrando as mesmas em caves. No fim da guerra, a maioria das latas e caixas foram descobertas. Este arquivo oferece-nos uma riquíssima fonte de informações sobre todos os aspectos sociais e políticos do gueto. Em relação ao processo de pesquisa, creio que durou cerca de seis meses. Durante este período fui a Varsóvia, embora 99% do gueto já não exista, já que foi destruído primeiro pelos alemães durante a revolta judaica de 1943 e, depois, pelos russos no fim da guerra. Mesmo assim, foi importante – e comovente – estar em Varsóvia, a cidade dos meus avós paternos, passear nas ruas em que eles passeavam há 70 anos.
E teve alguma coisa que o surpreendeu em concreto durante a pesquisa?
Surpreenderam-me principalmente as diferenças entre os guetos. Além da falta de comida e de medicamentos, cada gueto tinha as suas próprias características. Por exemplo, no gueto de Lodz, os centenas de milhares de internados não tinham acesso à moedas e notas polacas ou alemães, mas foram forçadas pelos nazis a usar dinheiro impresso apenas para o gueto. Pode não parecer uma medida importante, mas limitou quase por completo o desenvolvimento de um mercado negro porque os judeus não podiam pagar pela comida ou roupa ou qualquer outro produto fora do gueto. Uma consequência dessa medida foi que os judeus de Lodz foram quase totalmente dependente dos nazis – uma situação absolutamente abominável. A crueldade e a miséria do gueto de Lodz marcaram para sempre os poucos que conseguiram sobreviver. Em Varsóvia, os nazis permitiram aos judeus a utilização do dinheiro polaco e consequentemente um mercado negro floresceu. Isto foi uma enorme ajuda para os residentes porque podiam sair clandestinamente do gueto e comprar produtos nas zonas polacas da cidade.
O que diferencia «Os Anagramas de Varsóvia» do restante das suas obras?
«Os Anagramas de Varsóvia» tem o ritmo de um policial, é um livro mais rápido do que, por exemplo, «A Sétima Porta», o meu anterior romance. Esta rapidez deu-me a possibilidade de criar um romance mais acessível e também obrigou a focar a escrita quase exclusivamente em Erik, o narrador, e no seu amigo de infância, Izzy. Não foi uma desvantagem porque adoro ambos. Para mim, são duas pessoas magníficas.
«Os Anagramas de Varsóvia» é uma história de vingança e ressentimento ou há outros valores também expostos?
Em parte, é a vingança de Erik sobre as pessoas que mataram os seus familiares. Mas, para mim, é muito mais do que isso porque o livro explora como conseguimos encontrar forças e vontade para continuar depois de perder quase tudo. Como é que reconstruímos a nossa identidade depois de um trauma insuportável? Como é que conseguimos encontrar um novo significado para a vida? Através de Erik e de Izzy exploro estas questões e temas e, em consequência, exploro também a resistência e a coragem do ser humano. Para mim, é um livro sobre o heroísmo. Não é o heroísmo de um soldado com uma arma ou do protagonista de um filme de Steven Spielberg ou George Lucas. É o heroísmo quase silencioso de todos que lutam na sua vida quotidiana para encontrar a justiça e manter a sua dignidade.
Porque resolveu escolher o género policial para descrever o drama no gueto de Varsóvia?
Ao descobrir durante a minha pesquisa a atmosfera sombria e tensa do gueto – um sítio de carências terríveis mas também com um mercado negro muito dinâmico – decidi que era o sítio ideal para um policial noir. O gueto tinha todos os elementos de um thriller comovente e arrepiante sem eu ter que inventar alguma circunstâncias.
Como vê a criação do gueto de Varsóvia? É a loucura humana no seu expoente máximo? Foi uma das criações mais demoníacas do ser humano?
Os nazis precisavam de uma maneira muito eficiente de vigiar e controlar a população judaica e, de acordo com a tradição europeia milenar, optaram por colocar os judeus numa área limitada. A criação dos guetos na Polónia e outros países foi uma consequência lógica da ideia completamente ilógica de higiene racial, da necessidade de proteger a população cristã de uma raça inferior e contaminante. A loucura surge da ideia nazi de ser uma raça pura e da ideia subjacente das raças puras serem mais fortes. Não há raças puras! Somos todos mestiços. E sabemos através das leis genéticas que, em geral, quanto mais mistura tivermos mais resistente seremos.
Em determinado momento o gueto de Varsóvia transforma-se numa ilha. Pelo menos é essa a sensação que temos quando lemos o livro, que os judeus viviam numa ilha localizada precisamente no centro da Europa.
Sim, desenvolvi a imagem da ilha ao começar a fazer a minha pesquisa, de uma ilha delineada por um muro alto de tijolo e arame farpado em vez do mar. Fascinava-me essa imagem, de um pequeno território cortado do resto da Europa e do Mundo. Como é que as pessoas viviam? O que comiam? Havia escolas para as crianças? Surgiram imensas perguntas e li muito para conseguir respostas adequadas a todas elas. E depois comecei a escrever...
Um dos méritos do livro é demonstrar que também no horror há uma vida normal, a vida de todos os dias. Essa realidade é propícia do ser humano, a realidade da sobrevivência?
Penso que o ser humano é muito flexível e consegue adaptar-se a um leque enorme de circunstâncias. Os prisioneiros dos guetos tinham poucas opções: ou se adaptavam a nova condição ou tentavam fugir. E a fuga era uma opção muito arriscada. Os que tentaram foram frequentemente denunciados por cristãos e acabaram executados. No início, em Outubro de 1940, a grande maioria dos judeus nunca imaginou que iria ser transportada mais tarde para campos de morte. Por isso, optaram por ficar no gueto e construir uma nova vida. Conseguiram criar escolas para as crianças e uma vida cultural muito rica – teatros, produções musicais, dança... Fizeram de tudo por manter uma vida normal, pelo menos tentaram. Mais tarde, depois que os transportes começaram, depois de compreenderem que iriam ser mortos, os judeus montaram a famosa revolta do gueto de Varsóvia, um dos mais comoventes exemplos de coragem e heroísmo que conheço.
Demonstra também em muitos momentos o pior do ser humano, já que, mesmo enfiados no gueto, alguns judeus procuraram ter vantagens sobre os outros.
Uma situação limite de imenso sofrimento e degradação pode fazer nascer o melhor ou o pior dentro das pessoas. E não sabemos prever qual dos dois – ou qual a mistura dos dois – vai emergir num determinado indivíduo. É um grande e importante mistério psicológico. Quando se trata da sobrevivência dos nossos filhos e dos nossos pais não podemos prever o que faremos. E talvez seja demasiado fácil julgá-los com 70 anos de distância.
Acredita que ainda há guetos de Varsóvia espalhados pelo Mundo?
Sim, infelizmente não aprendemos muito com a história e há muita gente marginalizada em guetos no nosso mundo, vivendo em condições miseráveis e sem muita esperança de uma vida melhor.
In Diário Digital, 7/10/2009
Texto: Pedro Justino Alves
«Os Anagramas de Varsóvia», de Richard Zimler, editado pela Oceanos, é a última obra do autor, lançado em Setembro de 2009. O norte-americano que veio para Portugal em 1980 e vive no Porto desde 1990, confessa que este foi um dos livros mais difíceis de escrever da sua carreira preenchida de êxitos. Tudo porque perdeu familiares no gueto de Varsóvia, local onde decorre a obra.O Holocausto sempre foi uma pedra no sapato na vida de Richard Zimler, que confessa que sempre sentiu necessidade de pesquisar sobre o assunto. Numa altura em que o Mundo assinala os 70 anos do início da II Guerra Mundial, o norte-americano decidiu enfrentar os seus fantasmas com «Os Anagramas de Varsóvia», uma obra que demonstra na perfeição o que foi viver nos guetos polacos durante o conflito bélico.
Um drama que nem sequer o autor conseguiu ficar indiferente, confessando que o «humor negro e o heroísmo» das duas personagens principais foram fundamentais para a conclusão da obra. «Foram essenciais para ultrapassar os períodos mais complicados durante a escrita», admite. Para contar a história, Zimler refugiou-se no género policial devido a «atmosfera sombria e tensa do gueto», que possuía «todos os elementos de um thriller comovente e arrepiante sem eu ter que inventar alguma circunstâncias».
Evidentemente que este livro significa muito para você em termos pessoais, já que, se não estou em erro, perdeu familiares no gueto de Varsóvia. Este foi o livro mais complicado de escrever da sua carreira?
É verdade, todo o lado europeu da minha família morreu nos campos de concentração, excepto um dos filhos de uma irmã da minha avó materna. Talvez por isso sempre senti a obrigação de pesquisar sobre o Holocausto. Um aspecto do período nazi sobre o qual sabia pouco antes de começar a escrever «Os Anagramas de Varsóvia» era os guetos na Polónia, onde os judeus foram colocados antes de transportados para os campos de concentração. Li muito sobre o assunto para saber como era a vida quotidiana. E só depois comecei a escrever. Quando escrevo, mantenho uma certa distância da acção do livro, algo essencial porque um romancista não se pode deixar sobrecarregar de emoção durante o processo de criação. Fiquei transtornado apenas três ou quatro vezes – por exemplo, quando o narrador, Erik, descreve o corpo esquelético de uma senhora que morreu de fome. O humor negro e o heroísmo que Erik evidencia ao longo do livro, e também o amigo Izzy, foram essenciais para ultrapassar os períodos mais complicados durante a escrita.
Mais uma vez a descrição dos ambientes é muito rico, como é aliás habitual nas suas obras. Como foi o trabalho de pesquisa?
Li vários livros sobre os guetos de Varsóvia, Lodz e outras cidades polacas para ter uma ideia clara da vida quotidiana dos judeus. O livro mais importante do meu ponto de vista - e que recomendaria vivamente – é um de Emmanuel Ringelblum, «Crónicas do Gueto de Varsóvia». Ringelblum era um historiador e escritor e, juntamente com outros voluntários, formou um grupo que escreveu apontamentos pormenorizados sobre todos os aspectos da vida no gueto, acumulando cerca de 50.000 documentos. Por exemplo, jornais ilegais, trabalhos escolares, posters, bilhetes de teatro.... Quando Ringelblum e o seu grupo souberam que provavelmente não iriam sobreviver, colocaram os textos e os documentos em latas de leite e caixas metálicas, enterrando as mesmas em caves. No fim da guerra, a maioria das latas e caixas foram descobertas. Este arquivo oferece-nos uma riquíssima fonte de informações sobre todos os aspectos sociais e políticos do gueto. Em relação ao processo de pesquisa, creio que durou cerca de seis meses. Durante este período fui a Varsóvia, embora 99% do gueto já não exista, já que foi destruído primeiro pelos alemães durante a revolta judaica de 1943 e, depois, pelos russos no fim da guerra. Mesmo assim, foi importante – e comovente – estar em Varsóvia, a cidade dos meus avós paternos, passear nas ruas em que eles passeavam há 70 anos.
E teve alguma coisa que o surpreendeu em concreto durante a pesquisa?
Surpreenderam-me principalmente as diferenças entre os guetos. Além da falta de comida e de medicamentos, cada gueto tinha as suas próprias características. Por exemplo, no gueto de Lodz, os centenas de milhares de internados não tinham acesso à moedas e notas polacas ou alemães, mas foram forçadas pelos nazis a usar dinheiro impresso apenas para o gueto. Pode não parecer uma medida importante, mas limitou quase por completo o desenvolvimento de um mercado negro porque os judeus não podiam pagar pela comida ou roupa ou qualquer outro produto fora do gueto. Uma consequência dessa medida foi que os judeus de Lodz foram quase totalmente dependente dos nazis – uma situação absolutamente abominável. A crueldade e a miséria do gueto de Lodz marcaram para sempre os poucos que conseguiram sobreviver. Em Varsóvia, os nazis permitiram aos judeus a utilização do dinheiro polaco e consequentemente um mercado negro floresceu. Isto foi uma enorme ajuda para os residentes porque podiam sair clandestinamente do gueto e comprar produtos nas zonas polacas da cidade.
O que diferencia «Os Anagramas de Varsóvia» do restante das suas obras?
«Os Anagramas de Varsóvia» tem o ritmo de um policial, é um livro mais rápido do que, por exemplo, «A Sétima Porta», o meu anterior romance. Esta rapidez deu-me a possibilidade de criar um romance mais acessível e também obrigou a focar a escrita quase exclusivamente em Erik, o narrador, e no seu amigo de infância, Izzy. Não foi uma desvantagem porque adoro ambos. Para mim, são duas pessoas magníficas.
«Os Anagramas de Varsóvia» é uma história de vingança e ressentimento ou há outros valores também expostos?
Em parte, é a vingança de Erik sobre as pessoas que mataram os seus familiares. Mas, para mim, é muito mais do que isso porque o livro explora como conseguimos encontrar forças e vontade para continuar depois de perder quase tudo. Como é que reconstruímos a nossa identidade depois de um trauma insuportável? Como é que conseguimos encontrar um novo significado para a vida? Através de Erik e de Izzy exploro estas questões e temas e, em consequência, exploro também a resistência e a coragem do ser humano. Para mim, é um livro sobre o heroísmo. Não é o heroísmo de um soldado com uma arma ou do protagonista de um filme de Steven Spielberg ou George Lucas. É o heroísmo quase silencioso de todos que lutam na sua vida quotidiana para encontrar a justiça e manter a sua dignidade.
Porque resolveu escolher o género policial para descrever o drama no gueto de Varsóvia?
Ao descobrir durante a minha pesquisa a atmosfera sombria e tensa do gueto – um sítio de carências terríveis mas também com um mercado negro muito dinâmico – decidi que era o sítio ideal para um policial noir. O gueto tinha todos os elementos de um thriller comovente e arrepiante sem eu ter que inventar alguma circunstâncias.
Como vê a criação do gueto de Varsóvia? É a loucura humana no seu expoente máximo? Foi uma das criações mais demoníacas do ser humano?
Os nazis precisavam de uma maneira muito eficiente de vigiar e controlar a população judaica e, de acordo com a tradição europeia milenar, optaram por colocar os judeus numa área limitada. A criação dos guetos na Polónia e outros países foi uma consequência lógica da ideia completamente ilógica de higiene racial, da necessidade de proteger a população cristã de uma raça inferior e contaminante. A loucura surge da ideia nazi de ser uma raça pura e da ideia subjacente das raças puras serem mais fortes. Não há raças puras! Somos todos mestiços. E sabemos através das leis genéticas que, em geral, quanto mais mistura tivermos mais resistente seremos.
Em determinado momento o gueto de Varsóvia transforma-se numa ilha. Pelo menos é essa a sensação que temos quando lemos o livro, que os judeus viviam numa ilha localizada precisamente no centro da Europa.
Sim, desenvolvi a imagem da ilha ao começar a fazer a minha pesquisa, de uma ilha delineada por um muro alto de tijolo e arame farpado em vez do mar. Fascinava-me essa imagem, de um pequeno território cortado do resto da Europa e do Mundo. Como é que as pessoas viviam? O que comiam? Havia escolas para as crianças? Surgiram imensas perguntas e li muito para conseguir respostas adequadas a todas elas. E depois comecei a escrever...
Um dos méritos do livro é demonstrar que também no horror há uma vida normal, a vida de todos os dias. Essa realidade é propícia do ser humano, a realidade da sobrevivência?
Penso que o ser humano é muito flexível e consegue adaptar-se a um leque enorme de circunstâncias. Os prisioneiros dos guetos tinham poucas opções: ou se adaptavam a nova condição ou tentavam fugir. E a fuga era uma opção muito arriscada. Os que tentaram foram frequentemente denunciados por cristãos e acabaram executados. No início, em Outubro de 1940, a grande maioria dos judeus nunca imaginou que iria ser transportada mais tarde para campos de morte. Por isso, optaram por ficar no gueto e construir uma nova vida. Conseguiram criar escolas para as crianças e uma vida cultural muito rica – teatros, produções musicais, dança... Fizeram de tudo por manter uma vida normal, pelo menos tentaram. Mais tarde, depois que os transportes começaram, depois de compreenderem que iriam ser mortos, os judeus montaram a famosa revolta do gueto de Varsóvia, um dos mais comoventes exemplos de coragem e heroísmo que conheço.
Demonstra também em muitos momentos o pior do ser humano, já que, mesmo enfiados no gueto, alguns judeus procuraram ter vantagens sobre os outros.
Uma situação limite de imenso sofrimento e degradação pode fazer nascer o melhor ou o pior dentro das pessoas. E não sabemos prever qual dos dois – ou qual a mistura dos dois – vai emergir num determinado indivíduo. É um grande e importante mistério psicológico. Quando se trata da sobrevivência dos nossos filhos e dos nossos pais não podemos prever o que faremos. E talvez seja demasiado fácil julgá-los com 70 anos de distância.
Acredita que ainda há guetos de Varsóvia espalhados pelo Mundo?
Sim, infelizmente não aprendemos muito com a história e há muita gente marginalizada em guetos no nosso mundo, vivendo em condições miseráveis e sem muita esperança de uma vida melhor.
In Diário Digital, 7/10/2009
domingo, 15 de novembro de 2009
Valorizar a Língua Gestual
Imagem: daqui
As mãos
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Manuel Alegre
sábado, 14 de novembro de 2009
O sonho de aprender
Mais um excelente artigo semanal de Miguel Santos Guerra (14.11.2009). Uma história verdadeiramente emocionante. Testemunho de uma estrondosa vontade de aprender, mesmo quando as condições sociais e familiares não são favoráveis.
Los niños del cable
Hace tiempo que circula por la red un pequeño y emocionante reportaje sobre un grupo de escolares de Colombia que, para acudir a su escuela, tienen que atravesar cada día un profundo precipicio de más de doscientos metros. Con un frágil arnés se cuelgan de una oxidada polea que discurre por un cable de más de ochocientos metros. Para amortiguar el golpe que causaría la inercia de la caída utilizan una pequeña orquilla que cruzan con la polea. La misma aventura cada día para ir a la escuela y para volver a sus casas. Resulta emocionante ver a esas criaturas (algunas veces hacen esa arriesgada travesía dos niños juntos, uno cogido a la espalda del otro) poniendo en juego sus vidas para poder aprender.
Me pregunto por lo que les pasa a nuestros niños y jóvenes cuando desprecian la oportunidad de acudir a la escuela y, llegado un momento, consideran que aprender es una tortura o un castigo. Fracaso, absentismo y conflictividad en las aulas contrastan con el ejemplo admirable de los “niños del cable”.
(continua)
A reportagem supramencionada:
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
CONVITE
(Recebido da Gradiva Publicações, S.A.)
A FUNDAÇÃO PROFESSOR FRANCISCO PULIDO VALENTE, a FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN e a GRADIVA, têm o prazer de convidar V. Exa. a estar presente na sessão de lançamento da obra
O Património Genético Português
A história humana preservada nos genes
de
Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro
A sessão terá lugar na próxima terça-feira, 17 de Novembro, pelas 18.30 horas, no auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, Av. de Berna, nº 45, em Lisboa.
A obra será apresentada por Ana Gerschenfeld, jornalista de Ciência do jornal Público.
Educação dos Afectos
Em tempos que se adivinham difíceis pela obrigatoriedade de implementar nas escolas Projectos de Educação Sexual, sem que tenha havido a preparação do terreno com formação especializada na área dos profissionais da educação... deixo um livro de referência e um convite à leitura para os interessados (para os professores que vão estar directamente implicados nesses projectos, mas também para todo o público que se interesse por esta temática).
A Arte de Amar, Erich Fromm
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Passatempo Cultural em Dia de S. Martinho
Tendo como base alguns provérbios alusivos ao S. Martinho e ao Outono, o Paulo Freixinho criou um passatempo onde as palavras que vão preenchendo a grelha completam os respectivos provérbios.
Para ajudar, o Paulo fornece as palavras pretendidas ordenadas por ordem alfabética.
Um passatempo acessível a todas as idades... para resolver pelos mais novos na escola ou em casa, quiçá para fazer em família ao serão enquanto comem umas castanhas quentinhas e boas.
;-)
Clique na imagem para ampliar e imprima:
Em dia de S. Martinho

Era uma castanha que estava como as outras, pendurada de um castanheiro.
Chegando o tempo, as castanhas amadurecem e caem por si. Só que esta não caiu.
- Estou bem onde estou e não quero aventuras - dizia.
Uma a uma, as outras dos ramos iam caindo e rebolando pelo chão, protegidas pelo cobertor ouriçado que as cobria até ao nariz. Nariz é modo de dizer?
Vinham os garotos, estalavam-lhe os ouriços e metiam-nos nos bolsos. A tímida e teimosa castanha desta história a tudo assistia do seu mirante e não gostava.
- A mim não me levam eles - dizia.
Era a única que sobrava em todo o castanheiro. As folhas a fugirem da árvore, sopradas pelo vento, e ela a afincar-se ao ramo, com unhas e dentes. Unhas e dentes é um modo de dizer?
Sozinha, desabrigada, não estava feliz. Nem infeliz. Sentia até uma ponta de orgulho por ter conseguido resistir tanto tempo. Um sabor de vitória que a ouriçou toda.
- Ai que vou cair - gritou.
Mas, no último instante, conseguiu agarrar-se. Ainda não era daquela.
Entardecia. Um grupo de gente acendera uma fogueira, junto ao castanheiro. Os garotos, que tinham andado às castanhas, e os pais dos garotos e os amigos dos garotos riam e cantavam. Estavam a preparar o magusto da noite de São Martinho.
A castanha solitária, no alto do castanheiro nu, estranhou a vizinhança. E intrigou-se. Que estaria a passar-se.
Debruçou-se do ramo mais e mais. A madeira a arder estalava, mesmo por baixo da castanha, a última. O fumo entontecia-a. E se fosse ver de perto o que se passava?
Foi. Caiu. E a história acaba aqui. Paciência. É o destino das castanhas. Destino é um modo de dizer?
Chegando o tempo, as castanhas amadurecem e caem por si. Só que esta não caiu.
- Estou bem onde estou e não quero aventuras - dizia.
Uma a uma, as outras dos ramos iam caindo e rebolando pelo chão, protegidas pelo cobertor ouriçado que as cobria até ao nariz. Nariz é modo de dizer?
Vinham os garotos, estalavam-lhe os ouriços e metiam-nos nos bolsos. A tímida e teimosa castanha desta história a tudo assistia do seu mirante e não gostava.
- A mim não me levam eles - dizia.
Era a única que sobrava em todo o castanheiro. As folhas a fugirem da árvore, sopradas pelo vento, e ela a afincar-se ao ramo, com unhas e dentes. Unhas e dentes é um modo de dizer?
Sozinha, desabrigada, não estava feliz. Nem infeliz. Sentia até uma ponta de orgulho por ter conseguido resistir tanto tempo. Um sabor de vitória que a ouriçou toda.
- Ai que vou cair - gritou.
Mas, no último instante, conseguiu agarrar-se. Ainda não era daquela.
Entardecia. Um grupo de gente acendera uma fogueira, junto ao castanheiro. Os garotos, que tinham andado às castanhas, e os pais dos garotos e os amigos dos garotos riam e cantavam. Estavam a preparar o magusto da noite de São Martinho.
A castanha solitária, no alto do castanheiro nu, estranhou a vizinhança. E intrigou-se. Que estaria a passar-se.
Debruçou-se do ramo mais e mais. A madeira a arder estalava, mesmo por baixo da castanha, a última. O fumo entontecia-a. E se fosse ver de perto o que se passava?
Foi. Caiu. E a história acaba aqui. Paciência. É o destino das castanhas. Destino é um modo de dizer?
História: António Torrado
Imagem: Cristina Malaquias
terça-feira, 10 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Passatempo Cultural - "A Prenda"
A Estante de Livros em conjunto com a Editorial Presença, oferece 3 packs que incluem exemplares do livro "A Prenda", de Cecelia Ahern, um saco de pano e um postal.
Sinopse: Todos os dias Lou Suffern, um arquitecto bem-sucedido de Dublin, travava uma batalha inglória com o relógio, na tentativa vã de responder às múltiplas solicitações profissionais, familiares e sociais. Vivia a um ritmo vertiginoso. O seu desejo de sucesso afastou-o do que era realmente importante na sua vida. E assim foram correndo os dias até àquela gelada manhã de terça-feira em que resolveu oferecer um café a Gabe, o sem-abrigo que costumava sentar-se perto da entrada do seu escritório. À medida que o Natal se aproxima e que Lou vai privando mais de perto com Gabe, a sua perspectiva do tempo vai-se alterando... Emocionante e divertida, esta narrativa onde está sempre presente o espírito de Natal, faz-nos reflectir sobre a importância do tempo e rever as prioridades na nossa própria vida.
Sobre a Autora: Cecelia Ahern é formada em Jornalismo e Comunicação. Aos vinte e um anos escreveu o seu primeiro romance, P. S. – Eu Amo-te, um imediato e estrondoso sucesso publicado em mais de 40 países, que liderou as listas de bestsellers na Irlanda, Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e Holanda, e deu origem ao filme com o mesmo nome. Todos os seus romances seguintes – Para Sempre, Talvez, Se Me Pudesses Ver Agora e Um Lugar Chamado Aqui - receberam um acolhimento entusiástico e alcançaram o estatuto de bestsellers. Alguns foram também adaptados ao cinema e valeram-lhe a atribuição de diversos prémios literários.
Para se habilitarem a um dos packs a concurso, basta que leiam o excerto do livro respondam acertadamente às 3 perguntas no formulário, até às 23h59 de 17 de Novembro (terça-feira).
O passatempo decorre na Estante de Livros onde poderá encontrar o formulário e outras condições de participação no passatempo "A Prenda".
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