sábado, 22 de agosto de 2009

Simplex 3 (ADD)*


Decreto Regulamentar n.º 14/2009, de 21 de Agosto
Ministério da Educação
Prorroga a vigência do Decreto Regulamentar n.º 1-A/2009, de 5 de Janeiro, que estabelece o regime transitório de avaliação de desempenho do pessoal docente da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário.


* (ADD) - Avaliação do Desempenho Docente

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Leituras que vale a pena



O Menino de Cabul

Khaled Hosseini


Edição/reimpressão: 2005
Páginas: 336
Editor: Relógio D` Água
Ref. ISBN 972-708-861-9
Colecção: Ficção


Este livro conta a história de amizade entre dois rapazes afegãos, Amir e Hassan e, narra também a história do Afeganistão, um país que já foi pacífico e onde se realizavam festas na rua e campeonatos de papagaios.
O Menino de Cabul
cujo seu o autor é o escritor afegão Khaled Hosseini é uma leitura essencial para quem quer compreender melhor o percurso trágico de um país que hoje aparece nas notícias pelos piores motivos. Desde à invasão soviética até à ascensão do regime Talibã, o livro consegue cruzar factos históricos com uma narrativa rápida, de cortar à respiração e de querer ler sempre mais uma página.


Críticas de imprensa

"Com um enredo em que as peripécias e coincidências nos fazem lembrar romances do Século XIX, Hosseini apresenta-nos um livro sobre as fraquezas humanas, os horrores de uma guerra que nos chega sempre filtrada pela imagem televisiva e o sofrimento de um Médio Oriente mergulhado em quezílias tribais/religiosas. Um romance empolgante e um autor que promete.""
Luís Robalo de Campos, Fevereiro de 2006
"Este poderoso primeiro romance conta uma história de crueldade e de amor - feroz, mas redentor. Ambos tranformam a vida de Amir, o jovem narrador de Khaled Hosseini, que desperta para o mundo adulto durante os últimos dias de paz da monarquia, logo antes da revolução e da invasão do seu país pelas forças russas. Mas os acontecimentos narrados em O Menino de Cabul, são apenas parte desta história. Em O Menino de Cabul, Khaled Hosseini oferece-nos uma narrativa intensa e envolvente que nos mostra há quanto tempo o seu povo luta para triunfar sobre as forças da violência - forças essas que continuam a ameaçá-lo todos os dias."
The New York Times Book Review

"Um livro poderoso...sem grandes floreados, apenas prosa, dura e simples...um relato íntimo sobre a família, a amizade, a traição e a salvação[...] Alguns excertos de O Menino de Cabul são crus e até difíceis de ler, no entanto, no seu todo, está dedicadamente bem escrito."
The Washington Post Book World

"É tão poderoso que durante muito tempo tudo o que li me pareceu vazio."
Isabel Allende

"É, de facto, raro que um livro consiga reunir tal actualidade e tão grande qualidade literária."
Publisher's Weekly

TOP 100 Classificados


Começou ontem a ser divulgada a lista dos 100 blogs melhor classificados em cada categoria no Concurso TOP BLOG. Relembro que o "Revisitar a Educação" participou neste concurso na categoria CULTURA. A lista integral pode ser consultada aqui.


Normas para a elaboração do trabalho de canditadura à categoria de professor titular


Requisitos formais do trabalho a apresentar na realização da prova pública de acesso à categoria de professor titular

Os requisitos formais exigíveis para o trabalho que os professores devem apresentar quando requeiram a realização da prova pública para admissão a concurso de acesso para lugares de categoria de professor titular estão definidos num despacho publicado no Diário da República.

O trabalho, a ser entregue em formato electrónico através da aplicação informática disponibilizada na página da Direcção-Geral Dos Recursos Humanos da Educação, deve versar sobre a experiência do quotidiano escolar no exercício de funções docentes e obedecer às seguintes regras:

. Ter o máximo de 40 páginas em formato A4, incluindo anexos;
. Conter o espaçamento entre linhas de um espaço e meio;
. Ser redigido no tamanho do tipo de letra 12;
. Configuração das páginas: cabeçalho - 4,5 cm, margens - 3 cm e rodapé - 3 cm.

Para mais informações, consultar:

Despacho n.º 19255/2009 [PDF]

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Inquietações II


Palavras de "gigante" ao fadista e amigo José Gonçalez. Uma reflexão para a vida.


“Escolhe sempre o caminho mais difícil, só esse nos leva a algum lado, o fácil, qualquer um percorre, o difícil, só os únicos, mas sobretudo os humildes, que têm a coragem de se por à estrada, escondidos, sem alaridos, sem dar nas vistas, ao abrigo da lua, à procura do sol. E depois, de encontrado o sol, e de saber o que custou o caminho, voltar para trás, e ir buscar mais e mais, e quantos mais melhor, para dividir a luz, que o sol só é bonito quando é dividido. Porque a nossa sombra só é bonita se houver alguém, ao nosso lado, a saborear o mesmo sol e a apreciar a nossa sombra. Nunca te esqueças, Uma sombra é triste, duas têm algum brilho, um milhão, é lindo, e impedem que o chão queime. Amortecem o impacto e impedem que as almas se queimem ao cair”.

Raul Solnado

Inquietações...



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Inscrições para candidatura à Prova Pública de acesso à Categoria de Professor Titular



NOTA INFORMATIVA N.º 1

Prova Pública de acesso à categoria de professor titular
A admissão a concurso para acesso à categoria de professor titular depende de prévia aprovação em prova pública, nos termos do previsto no Decreto-Lei n.º 104/2008, de 24 de Junho, que incide sobre a actividade profissional desenvolvida pelo docente.

1. A partir de hoje, estará disponível a aplicação electrónica para Candidatura, upload do trabalho e Validação de candidaturas à prova pública, na página da DGRHE em http://www.dgrhe.min-edu.pt/.

2. A candidatura destina-se a docentes dos quadros do Ministério da Educação que tenham completado 15 anos de serviço docente, até à inscrição, com avaliação de desempenho igual ou superior a Bom e que preencham os demais requisitos.

3. O processo é realizado integralmente em suporte electrónico, pelo que quer a formalização da candidatura com upload do trabalho, bem como todas a informações e comunicações, são efectuadas com o recurso a aplicações electrónicas.

4. O trabalho ficará acessível para visualização apenas para os membros do Júri.

5. A apresentação do trabalho deverá obedecer aos requisitos formais estipulados no despacho disponibilizado na página da DGRHE, e baseia-se na experiência do quotidiano escolar, do docente, devendo incidir sobre dois dos seguintes domínios:
a. Preparação e organização das actividades lectivas, relação pedagógica com os alunos e avaliação das respectivas aprendizagens.
b. Projectos inovadores desenvolvidos ou a desenvolver que contribuam para a melhoria dos resultados escolares dos alunos.
c. Área de gestão e organização escolar.

6. O processo de candidatura electrónica para realização da prova pública desenvolve-se nas seguintes etapas:

CANDIDATO
· Inscrição obrigatória
· Candidatura e upload do trabalho
· Reclamação para o presidente do júri
· Recurso hierárquico para o director regional

ESCOLA
Validação da candidatura:
a. A validação é efectuada na aplicação electrónica, mediante a documentação apresentada pelo candidato ou a existente no respectivo processo individual, e consiste na confirmação da veracidade dos dados da candidatura.
b. Sempre que a escola tiver candidaturas para validar recebe um alerta através do e-mail da escola.
c. Deve ser dado cumprimento integral aos prazos de validação das candidaturas submetidas pelos candidatos – cinco dias úteis.

DGRHE, 17 de Agosto de 2009



Nota: Convém elucidar os mais distraídos que a abertura destas candidaturas não corresponde à abertura de novas vagas para a carreira de titular. Corresponde apenas a uma prévia inscrição destinada aos interessados a concorrer futuramente... ou seja, quem se inscrever agora, habilita-se a aceder a uma prova (em futuro incerto), que permitirá, em caso de aprovação, depois ir a concurso para titular. Logo, a aprovação não significa o acesso a titular.

Como afirma o Paulo G., "o lançamento desta prova prévia pode ser apenas mais um rastilho para incendiar o arranque do ano lectivo".


Aqui ficam os links para os interessados:

APLICAÇÕES
Candidatura e upload do trabalho - 17/08/2009
Teste recomendado - Verificação da palavra-chave e do nº de candidato
Inscrição Obrigatória (1ª vez a usar aplicações electrónicas DGRHE)

DOCUMENTAÇÃO
Manual de instruções da candidatura electrónica - 17/08/2009
Despacho sobre os requisitos formais do trabalho - 17/08/2009
Nota Informativa n.º 1 - 17/08/2009
Decreto-Lei n.º 104/2008, 24 de Junho - 17/08/2009

Tempo para o essencial ou para o supérfluo?


(clique na imagem para ler)

Cartoon de Mário César

Nota: Mesmo em tempo de férias, de lazer, de descanso, de coisas novas e diferentes,... aqui está um cartoon que dá muito que pensar sobre a forma como gerimos o nosso tempo, as nossas prioridades...

Congresso Aprendizagem/Desenvolvimento...



Informação recebida do Instituto Piaget:

No âmbito das comemorações do seu 30º aniversário, o Instituto Piaget organiza o congresso Aprendizagem/Desenvolvimento: Linhas de Fundo, Novas Tendências e Perspectivas que decorrerá nos dias 21, 22 e 23 de Setembro de 2009 no Campus Universitário do Instituto Piaget de Almada.

No congresso estarão presentes importantes especialistas de algumas das mais prestigiadas instituições de ensino portuguesas e internacionais.

Anne-Nelly Perret-Clermont, Alan Slater, Christine Howe, Jacques Vauclair, Ludmila Obukhova, Conceição Couvaneiro, Marlene Vale da Silva, entre outros, debruçar-se-ão sobre o desenvolvimento cognitivo, afectivo e emocional ao longo da vida.

George Siemens e Conceição Taborda Simões apresentarão algumas das comunicações dedicadas ao impacto das novas tecnologias sobre o desenvolvimento e os paradigmas de ensino e aprendizagem.

Os desafios da criação do Espaço Europeu de Ensino Superior, nomeadamente quanto a uma relação de ensino/aprendizagem verdadeiramente centrado no aluno serão temas tratados, entre outros, por Jean-François Perret, Felipe Trillo, Isidoro González ou Estela Lamas.

O envolvimento social do processo de desenvolvimento e aprendizagem será o tema de comunicações como as de Margarida César, Guida de Abreu ou Francesco Arcidiacono.

A educação artística e da criatividade estará presente pelas vozes de Lucília valente, Ana Bela Mendes ou Elisa Dias.

Estes são apenas alguns destaques de um congresso em que o Instituto Piaget espera apresentar e proporcionar o debate de professores, educadores, psicólogos e estudantes sobre temas e problemas centrais na educação do presente e do futuro.

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Para mais informações e inscrições:
http://www.ipiaget.org/

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Justiça distributiva



O habitual artigo de opinião semanal de Miguel Santos Guerra. Uma grande lição de vida! Vale a pena ler.


Hace cierto tiempo me contaron una historia que tiene su miga. Ocurrió en una Facultad universitaria. Tiene que ver con la justicia distributiva. Dos profesores compartían el mismo despacho y atendían en él a sus alumnos y alumnas en las horas de tutoría. Movidos por la situación de otros colegas que disponían de un despacho unipersonal, decidieron solicitar del Departamento el correspondiente permiso para construir un tabique y dividir el despacho en dos partes. La excusa era que se estorbaban. La verdad era que no se llevaban bien. Podían organizar sus horas de atención a los alumnos y alumnas combinando mañanas y tardes o días alternaos de la semana. Pero, no. Pidieron la separación. El Departamento dijo que sí.

En ausencia de su colega, el interesado (nunca mejor dicho) llamó a los servicios de la Universidad, mostró el permiso e indicó a los albañiles por dónde deberían construir el tabique y por dónde tendría acceso el nuevo despacho. Hizo una división muy original. Dejó una parte más amplia e iluminada y la otra más pequeña y oscura. Él eligió de manera descarada la mejor parte y en ella colocó sus libros, su ordenador y sus pertenencias. En el despacho contiguo colocó las cosas de su… compañero.

Cuando regresó el profesor ausente y se encontró con el desaguisado dijo que no estaba dispuesto a aceptar el arbitrario reparto. Y llevó al Departamento la solicitud de que se hiciera una nueva división de común acuerdo o a cargo de una persona independiente. Hubo una discusión. Algunos decían que no se podía dilapidar el dinero haciendo, quitando y volviendo a poner. Otro dijo que si eran tan diferentes los despachos podrían sortearlos: Alguien propuso que alternasen por años la posesión de los despachos.

Intervino entonces el Director del Departamento y propuso una solución al conflicto del reparto. Pidió que se votase.

- Antes de decir en qué consiste mi propuesta, dijo, quiero contar algo que me paso siendo niño . Un día mi padre me dijo: Divide ese pastel para tu hermano y para ti. Hice una división tan escandalosa que, cuando me disponía a coger el trozo visiblemente más grande, mi padre me dijo: Espera, no te precipites. Tú ya has hecho una tarea muy importante que es la tarea de dividir. Ya que has dividido `para dos hermanos, quiero suponer que lo has hecho con justicia. Pues bien, tu hermano va a realizar ahora otra tarea no menos importante que la tuya, va a elegir la parte del pastel que más le interese. Ya suponéis lo que eligió mi hermano y el ridícujlo trozo de pastel que me tocó a mí.

Lo que sigue se puede imaginar fácilmente. El Director, ante los miembros del Departamento que escuchaban entre atónitos y divertidos, concluyó.

- Pues bien, fulanito ha hecho una tarea importante, que es dividir el despacho en ausencia de su colega. Ha dividido para dos compañeros que tienen los mismos derechos por lo que quiero pensar que ha procedido rectamente. Mi propuesta es que ahora su compañero realice la otra tarea complementaria, que es elegir la parte del despacho que más le interese.

Se votó con el resultado que se supone. Sólo un voto en contra. El compañero que inicialmente fue agraviado con el reparto injusto está disfrutando del egoísmo de su colega en la parte más amplia e iluminada del espacio.

Sabia decisión. Coherente decisión. Merecido castigo. En las instituciones hay quien trata de sacar siempre tajada de aquello que dice o hace. Hay quien no da puntada sin hilo. Resulta desesperante ver cómo todo lo pretenden transformar en beneficio aunque causen daño a los demás.

Pocas veces se encuentran con la ingeniosa decisión que cierra este relato y que hizo exclamar a quien conocía bien a los actores: “Merecido se lo tenían los dos. Uno el premio, el otro el castigo”.

Siendo niño, tenía un profesor que escribía sentencias en el encerado. Permanecían una semana expuestas a la consideración de todos. En una ocasión, el profesor escribió lo siguiente: “Lo mejor y lo primero, para mi compañero”. Un avispado escolar quiso hacer una gracia, cambió la coma de lugar (aunque olvidó el acento en el posesivo). Lo que quedó escrito fue lo siguiente: “Lo mejor y lo primero para mí, compañero”..

Conté la historia de los despachos en una reunión de amigos. Años después supe que una familia que estaba allí me llamaba “el pacificador”. Dijeron que aquella solución había terminado con las peleas de sus dos hijos cuando iban a repartir alguna cosa fraccionable. Loa padres les preguntaban:

- ¿Quién quiere dividir?

El que se encargaba de hacerlo ponía el mayor empeño en que hubiese dos partes exactas. Sabía que él se iba a quedar con la que no eligiese su hermano. Aunque la envidia es muy mala consejera. No me extraña que en algún caso, cuando le llegase al segundo protagonista la hora de elegir, acabase diciendo:

- Yo quiero el de mi hermano.

Comprenderá fácilmente el lector (o lectora) lo que sucedería en el mundo si todos nos hiciésemos firmantes de la segunda sentencia del encerado de aquella clase de. mi juventud. Cada uno a lo suyo, cada uno contra todos en su propio beneficio. Qué horrible mundo. Qué mundo tan poco ético y tan antiestético.

Afortunadamente hay personas que se empeñan en vivir según el primer lema. Que se desviven, literalmente, por conseguir el bienestar del prójimo, sin tener en cuenta que quien las observa pueda tacharlas de tontas en el marco de esta cultura neoliberal, de individualismos exacerbados.. Porque no existe una frontera nítida entre la bondad y la ingenuidad, entre la generosidad absoluta y la plena estupidez.

In El Adarve (8.8.2009)

Blogonovela sobre Educação


Adaptação livre da Ilíada de Homero de Antero Valério
(clique nas imagens para ler)






(Continua aqui)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Mia Couto - a relação com os livros e os personagens


Exerto da Entrevista de Laurinda Alves ao escritor Mia Couto. In Ionline (5.8.2009)

Foto: Pedro Azevedo

(...)

"As histórias deram-te casa", eis uma expressão belíssima...
Deram-me aconchego, deram-me família e, de repente, eles eram a minha casa e a minha família e eu adormeci. A malária fez-me perceber o valor da história. Se alguém conta uma boa história, que te encanta, tu tens ali uma casa.

É isso que te faz escrever?
Eu acho que sim. Fiquei com uma espécie de vício de infância porque tive uma infância muito feliz, uma infância encantada, e tentei que essa casa, esse terreiro onde brinquei, fosse sempre o meu mundo. Tentei nunca sair daí.

Isso não é um síndroma de Peter Pan?
Não, não quero ficar criança e infantilizado nesse sentido. O que eu quero é ter essa relação mágica com o mundo. Acho que por crescermos não temos que abandonar esse pensamento mágico. Agora vejo os meus netos brincarem e percebo que eles ficam fascinados num mundo utópico. Há ali quase uma relação divina porque, de repente, o meu neto é tudo e é todos. Aos dois anos podemos ser tudo: actor de teatro, autor de ficção, astronauta, bombeiro. É aí que começa a ficção?

Interessa-te essa possibilidade de seres tudo em todos?
Sim, poder ser o outro e ser o mundo inteiro. Acho que nunca perdi isso.

Vives nos teus personagens?
Eu não vivo, eu sou os meus personagens.

És todos os teus personagens?
Sem dúvida. Gostava de contar uma história a propósito de "Jesusalém". Eu já tinha escrito este livro e até já me tinham mandado um exemplar para eu ver se havia alguma coisa que não funcionasse bem, quando me contaram que havia um velho caçador que sonhava com o espírito dos animais quando lhe diziam, por exemplo, que era preciso matar um elefante. Aí eu disse: eu quero conhecer esse velho!

Os animais também têm espírito?
Sim, não somos só nós que temos alma, os animais também têm alma e espírito. Este homem era chamado sempre que era preciso matar um elefante porque ele é brindado, tem esse dom. Fui ter com ele, atravessei um longo caminho para chegar a um lugar no fim do mundo. Andei horas e horas para chegar a casa dele.

Como é que ele era?
Quando cheguei encontrei um homem com brincos e muitos colares e perguntei-lhe porque é que se vestia assim mas ele respondeu-me: não sou eu que mando no que eu visto. E logo a seguir disse: eu não falo português, não dou entrevistas, não sei quem você é! E eu, de repente, percebi que o homem tinha razão, não posso entrar em casa de quem não me conhece para receber uma história sua.

O que é que fizeste?
Pedi aos que iam comigo para lhe pedir desculpa. Ele quis saber quem eu era e os outros disseram: este é um homem que conta histórias. E o curioso é que ele olhou para mim de dedo apontado e declarou: amanhã eu vou-lhe mostrar uma coisa que é uma história, só eu conheço a gruta onde nascem as hienas e vou levá-lo lá.

Ficaste contente?
Claro. Ah! Em toda esta conversa o homem teve na mão um facão com que fazia uma cesta de vime e há umas páginas do "Jesusalém" em que o velho Silvestre está sentado numa esteira com uma catana na mão? No dia seguinte fui ter com ele de carro e ele disse-me que não podia entrar no carro porque todo o homem que, como ele, incorpora o espírito dos animais não pode ficar fechado num espaço tão pequeno.

Como é que o convenceste?
Foi preciso abrir todas as janelas e mesmo assim mais de meia hora de argumentos para o convencer a entrar no carro, mas lá conseguimos que entrasse.

O que é que lhe disseste exactamente?
Olhe, as janelas estão todas abertas e, portanto, os espíritos podem entrar e sair quando quiserem (risos). Então ele sentou-se, apoiado na catana, e foi de olhos fechados até chegarmos. Sempre de olhos fechados, estremeceu quando chegámos a um sítio e declarou: é aqui. E começou a mostrar-me pegadas e conduziu-me por ali fora sempre com a catana nas mãos. Nesse dia eu levei-o para jantar comigo no acampamento e quando lhe estava a pedir para me mostrar outras coisas ele disse: você ainda não percebeu mas eu sou cego.

Não tinhas percebido nada?
Não. E perguntei-lhe: cego como? Então o senhor andou por aí a mostrar-me as pegadas e os lugares?E ele: não sou eu que vejo, nessas alturas é alguém que está a ver pelos meus olhos. Aquilo foi impressionante para mim. Esse velho, que eu só conheci depois de escrever o livro, já estava no meu livro. É incrível, não achas?

Acho. Este livro é um conjunto de textos escritos pelo Mwanito que, no fim, os entrega ao irmão. Inventaste tudo isto?
Sim. E só no fim é que se percebem coisas essenciais sobre cada personagem.

Sim, eu sei, mas é melhor não as contarmos para não desfazer o mistério?
Vou só dizer uma coisa: no meu livro, quando o irmão recebe os textos, pergunta como é que é possível ele ter escrito tudo aquilo sem ver, e o Mwanito responde que deixa de ser cego quando escreve. Foi isso mesmo que o velho me disse. Ele não escrevia mas tinha essa relação com a terra que via mesmo sendo cego. O mais impressionante de tudo é que eu já tinha escrito o livro quando conheci este velho.

Ou seja: é como se tivesse havido uma convocação cósmica para conheceres um homem que, mesmo sem saberes que existia, te inspirou para escrever.
É, foi qualquer coisa assim.

Se calhar ele sonhou o teu espírito antes de começares a escrever?
Sim, se calhar eu sou um bicho também e ele sonhou com o meu espírito (risos). Foi uma coincidência extraordinária.

É fantástico. Nos teus livros existe muito este lado fantástico, este pensamento mágico.
Eu não tenho crença nestas coisas, sabes?! Não sei bem em que é que tenho crença mas não sou supersticioso. A verdade é que, neste caso, este homem existe no meu livro e isso é curioso. Eu agora até trago a fotografia dele no meu computador.

Tu moras nestes personagens todos. Mas como é que eles te habitam?
Eles nascem-me do encontro com pessoas que fazem soltar outras pessoas que têm escondidas dentro de si. Desde pequeno que atribuo histórias a pessoas que me despertam e me parecem dizer que há ali qualquer coisa que é preciso revelar.

São coisas que tu intuis ou inventas para aquela pessoa?
Tenho que fazer essa confissão de arrogância: são coisas que estão dentro de mim e eu projecto nessas pessoas. Mas todas nascem de uma sombra, de uma coisa qualquer que me desperta e me faz soltar.

(...)