domingo, 21 de junho de 2009

Hora da Poesia


O Novo Homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objecto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
«Nove meses, eu?
Nem nove minutos.»
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exacto,
medido, bem posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afecto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia secula,
livre, papagaio, sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Versiprosa'

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Peritos recomendam ao ME que teste e avalie mudanças na avaliação


O Conselho Científico para a Avaliação de Professores (CCAP) recomenda ao Ministério da Educação que teste e avalie todas as medidas que venha a tomar relativamente ao processo de avaliação de desempenho docente, antes de as generalizar. Essa é a condição para "garantir a qualidade, compreensão e apropriação" do modelo, lê-se nas últimas recomendações deste órgão consultivo, hoje divulgadas.

A apreciação pode ser lida como uma crítica à forma como o processo foi conduzido desde o início. Isto porque o Ministério da Educação decidiu aplicar de uma só vez todo um novo modelo de avaliação, que implicou grandes alterações na cultura das escolas e no papel dos professores.

O CCAP sugere também que os ciclos de avaliação, actualmente de dois anos, sejam alargados, articulando-se com os momentos de progressão na carreira. De igual forma, devem ser evitadas alterações constantes no modelo, de forma a "transmitir segurança às escolas e aos professores e a permitir um desenvolvimento do processo com serenidade".

A falta de formação especializada é outra das falhas que este órgão consultivo, que reúne professores, associações científicas e outros peritos, entende que deve ser colmatada. Através de formações de "média ou longa duração", feitas em parceria com instituições de ensino superior.

Sem entrar em pormenores, o CCAP diz também que é preciso "ponderar no quadro do sistema educativo" os efeitos da aplicação de quotas na atribuição de notas. De acordo com o decreto da avaliação, as classificações de Excelente e Muito Bom estão condicionadas a percentagens máximas em cada agrupamento de escolas.

Na sequência destas recomendações, a ministra da Educação já admitiu adiar o modelo de avaliação tal como foi inicialmente concebido por mais dois anos*. Ou seja, o "simplex" da avaliação pode manter-se até 2011, fazendo com que factores como a observação de aulas e os resultados dos alunos não contem para a apreciação do desempenho dos docentes. A decisão está agora nas mãos do CCAP, a quem compete emitir um parecer sobre esta possibilidade.


* Transcrevo parte do Despacho da ministra da Educação ao CCAP:
4 – No início do próximo ano lectivo, começará o segundo ciclo de aplicação do modelo de avaliação de desempenho docente e neste contexto solicito ao CCAP ponderação e parecer sobre a pertinência de, no próximo ciclo avaliativo, ser adoptada, em alternativa, uma das seguinte medidas:

A – Aplicar o modelo de avaliação de desempenho docente tal como previsto no Decreto Regulamentar nº 2 de 10 de Janeiro 2008, com as alterações eventualmente consideradas necessárias, designadamente a respeitante à duração dos ciclos de avaliação. Esta decisão implicaria retomar o carácter obrigatório da componente científico-pedagógica da avaliação, bem como considerar eventualmente, na componente funcional, os parâmetros que avaliam o contributo dos docentes para a melhoria dos resultados dos alunos e para a diminuição do abandono escolar.

ou, em alternativa,

B – Manter, por mais um ciclo avaliativo, o normativo actualmente em vigor (Decreto Regulamentar 1-A/2009 de 5 de Janeiro que introduziu medidas de simplificação da aplicação da avaliação no ano lectivo de 2008/2009), de forma a permitir às escolas e aos docentes o desenvolvimento e a consolidação das competências avaliativas, bem como um período de maior estabilidade, antes de proceder a novas alterações.

Novidades sobre Avaliação de Docentes


O ME acaba de divulgar um despacho da ministra da educação dirigido ao Conselho Científico para Avaliação de Professores com a informação de que o Governo está disposto a manter o "simplex" da avaliação de professores por mais dois anos.

Fonte: Expresso


Notas: Escusado seria dizer que o despacho da ministra surge na sequência da entrega, pelo CCAP, do seu relatório sobre o acompanhamento e a monitorização da avaliação de desempenho docente.
O CCAP entregou também uma série de recomendações (a que farei alusão em post seguinte) de modo a “contribuir para o processo de tomada de decisão relativamente à configuração que a avaliação de desempenho docente assumirá no próximo ciclo avaliativo”, precisamente a questão que a ministra resolveu devolver agora a este Conselho.
... e passa a bola...

No encerramento das actividades lectivas sabe bem (re)ver...


Novidades


A Comissão Episcopal da Educação Cristã (CEEC) e o Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC) tiveram ontem (18.6.2009) uma reunião com o Senhor Secretário de Estado da Educação, Dr. Valter Lemos. Apesar da tensão inicial, segundo informou o Coordenador do Departamento de EMRC do SNEC, Dr. Jorge Paulo, a reunião correu bem. Ficou decidido que a Secretaria de Estado iria enviar brevemente um documento clarificador às Direcções Regionais de Educação, as quais farão seguir o documento para as escolas. O documento vai clarificar que os professores de EMRC gozam dos mesmos direitos dos outros professores, nomeadamente no que se refere à distribuição do serviço docente (atribuição de cargos, funções, áreas curriculares não disciplinares, outras disciplinas para as quais tenham habilitação). Quanto ao 1.º ciclo, ficará claro que a disciplina é de oferta obrigatória e que terá de ocorrer em continuidade com as outras actividades curriculares e não depois das áreas de enriquecimento curricular. Os docentes de EMRC do 2.º, 3.º ciclos e ensino secundário poderão leccionar as aulas de EMRC do 1.º ciclo nas escolas do mesmo agrupamento, até por aplicação do que se diz no despacho de organização do ano escolar.

O texto, antes de ser enviado às Direcções Regionais, será encaminhado para o SNEC de forma a que a mesma entidade verifique se tudo está claro; mas tudo isto terá de acontecer em tempo útil para a sua aplicação no ano lectivo próximo.

Informação de última hora In SDER


Esperemos que se cumpra o prometido! Assim como esperamos também que esta abertura ou recuo da tutela não seja apenas uma manobra para travar a acção dos professores na inframencionada Petição.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Novo apelo da Agência Ecclesia


Petição pede igualdade dos professores de EMRC
E exige a suspensão do despacho assinado pelo Secretário de Estado da Educação



Está a decorrer na Internet uma petição que pede a igualdade dos professores de Educação Moral e Religiosa Católica.

Dirigida à Assembleia da República e ao Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, a petição lamenta o despacho assinado pelo citado secretário que prevê "que os professores de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) só possam participar na vida da escola ou ensinar outras disciplinas, para as quais têm habilitações, se não tiverem o horário completo".

A petição afirma que a Comissão Episcopal da Educação Cristã foi "surpreendida" com o conteúdo do despacho.

"Os professores de EMRC continuam a ser discriminados perante todos os outros profissionais que tal como estes fizeram a sua formação académica", afirma a petição que pretende "mostrar a força dos professores, nomeadamente os de EMRC, perante a arrogância deste governo".

A petição exige a suspensão do despacho e pretende "um diálogo equilibrado de ambas as partes".

Em cinco dias a petição online foi assinada por 1000 signatários*.
In Agência Ecclesia, 18.6.2009

Eu já assinei:


Já enviei a todos os meus contactos de e-mail e já divulguei a mesma no friendfeed, no facebook e no twitter.

* Actualização:
Às 16h00 (hoje), já ultrapassa os 1600 signatários. Em excassas horas, o número quase duplicou.

Continuamos a contar com a sua colaboração na divulgação desta petição. E desde já, obrigada pelo empenho de todos os que assinam e ajudam a divulgar mais esta injustiça da Tutela da Educação.

Livros que vale a pena ler




Culturas de Liderança e Lógicas de Responsabilidade

Autor: Giovanna Barzanò
Editor: Fundação Manuel Leão
Colecção: DPP; 5
Número de edição: 1
Ano de Edição: 2009
N.º de páginas: 364
ISBN:
978-989-8151-07-0
Dimensões: 21,5 x 14 cm




Sinopse
Esta obra analisa a relação entre a direcção de escolas e os mecanismos de “accountability” - responsabilização/ prestação de contas em escolas de três países europeus cujos sistemas educativos enquadram, de forma muito diversa, a profissão dos líderes das escolas: Inglaterra, Itália e Portugal. A “accountability”, entendida como um conjunto de práticas formais e informais que fazem com que as escolas respondam perante vários públicos e parceiros educativos, é considerada uma questão crucial para os directores das escolas em todo o mundo. A eficácia dos mecanismos de prestação de contas, por relação com as finalidades declaradas de melhoria das escolas, é objecto de intenso debate, quer em contextos onde tais mecanismos têm uma tradição mais forte, quer naqueles onde têm vindo a ganhar cada vez mais espaço, em resultado das tendências geradas globalmente pelas políticas de descentralização e de mercado. Assumindo como principal enfoque de análise a perspectiva dos directores das escolas, investiga-se os aspectos culturais que dão forma à conceptualização e percepções da “accountability” em educação em diferentes contextos sociais, e a influência dos mesmos sobre a função dos dirigentes das escolas.Com base na comparação da informação recolhida através da análise de documentos de política educativa, e de entrevistas em profundidade com informadores-chave em três sistemas educativos europeus, apresenta-se um retrato da forma como os mecanismos de prestação de contas variam e são explicitados, no quadro de diferentes tradições sociais e culturais, tanto ao nível da política como da prática. Os resultados deste estudo exploratório têm duas implicações principais. Primeiro, confirmam a importância, defendida de forma cada vez mais veemente pelos estudiosos da liderança, de se considerar os macro-níveis da cultura no estudo das questões da liderança e da forma como esta é concretizada. Segundo, apresentam uma contribuição para o desenvolvimento de uma nova conceptualização da prestação de contas em educação, que coloca mais ênfase nos valores profissionais e pessoais partilhados pela comunidade.


Leia um pouco deste livro
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Humor Educacional


Verdades ditas a brincar e com alguma ironia.


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Ensino e Tecnologia


"Professores devem aproveitar tecnologia para prática pedagógica" - Roberto Carneiro


Os professores devem abrir-se às novas tecnologias e introduzi-las nas suas práticas pedagógicas, para evitar um hiato entre a escola e os alunos, alertou Roberto Carneiro, ex-ministro da Educação, à Agência Lusa.

Roberto Carneiro falava a propósito do Foro de Lisboa sobre Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) e Inovação na Educação, que se realiza hoje e sexta-feira no Centro de Congressos da capital e no qual participará como moderador.


"É preciso que os professores se abram às novas tecnologias, que não tenham medo delas e as introduzam plenamente nas suas práticas pedagógicas, para que não haja um hiato, como se verifica muitas vezes, entre uma escola analógica, do século XX, e os alunos do século XXI",
sublinhou.

Lisboa, 18 Jun (Lusa)

Nota: E eu acrescento: Não se esqueçam os responsáveis da Tutela da Educação de investir a sério na formação de professores nesta área... e que sejam todos os professores a fazer e não só alguns, a minoria, os interessados. Pelo que tenho contactado no terreno, e apesar de ser considerada uma área prioritária de formação do Ministério da Educação, são muito poucos os docentes que têm alguma formação especializada em Tecnologias da Informação e Comunicação, pelo menos no que toca à sua aplicação na sua prática pedagógica. Isto, para evitar que em próximos estudos TALIS se conclua que em questões de formação contínua de professores, os professores portugueses (p. 65) são dos que menos apoio recebem para a sua formação. E apesar de se gastar algum tempo significativo em formação, os professores portugueses são dos que mais se queixam da qualidade e adequação dessa formação (p.63). Pudera, o critério de inscrição na formação sempre foi totalmente independente da área científica do docente, daí as aberrações que conhecemos, por ex. docentes de matemática a fazer formação em artes decorativas ou docentes de Educação Física a fazer formação em história da arte. São apenas alguns exemplos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Relatório TALIS


A OCDE divulgou ontem, o relatório TALIS (Teaching and Learning International Survey), um estudo comparativo das condições de trabalho e do ambiente de ensino e aprendizagem em escolas de 23 países. Como ainda não tive tempo de lhe deitar o olho para análise, deixo aqui o link para os interessados (Relatório TALIS).

Petição pela igualdade dos professores de EMRC


Sobre medidas discriminatórias da Tutela da Educação a que aludi em posts anteriores aqui, aqui e aqui.



Para ler e assinar, clique em cima da imagem.


Pela Escola Pública



terça-feira, 16 de junho de 2009

Livros que vale a pena ler



Assimetrias de género: Ensino e liderança educativa

Autor: Ana Maria Correia
Editor: Fundação Manuel Leão
Colecção: DPP; 4
Número de edição: 1
Ano de Edição: 2009
N.º de páginas: 352
ISBN: 978-989-8151-07-0
Dimensões: 21,5 x 14 cm


Um livro que levanta questões em torno das relações de género, das relações de poder, do feminismo, da liderança, da educação e dos papéis sociais numa cultura profundamente marcada pelas diferenças de género...


Leia um pouco deste livro
Para mudar de página, coloque o cursor do rato no canto inferior ou superior da página e folhei.


(clique no link ou em cima da imagem para aceder à Sala de Leitura)