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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Vale a pena ler







Mágoas da Escola

de Daniel Pennac

Código: 04501
Editora: Porto Editora
ISBN-13: 978-972-0-04501-0
Edição (1ª ed.): Março de 2009
N.º de Páginas: 256
Preço de Capa: EUR 15,50
Preço da Editora on-line: EUR 12,40





Sinopse

A escola dos maus alunos
Sara R. Oliveira, 2009-04-22, In Notícias do Educar.pt


Regressa ao passado de estudante para reviver os dias difíceis do cábula que não queria aprender e passar despercebido. Cresceu, foi professor, tornou-se escritor. O francês Daniel Pennac escreveu Mágoas da Escola para pôr o dedo em algumas feridas - suas e da comunidade educativa.

A metáfora sobre o amor no ensino surge no final do livro. Com um aviso no cimo da página. "É verdade, entre nós, é malvisto falar de amor em matéria de ensino. Experimentem e verão. É o mesmo que falar de cordas em casa de um enforcado." A seguir, centra-se nas andorinhas que entram no quarto e procuram a saída. Há as que encontram o céu à primeira tentativa e as que esbarram contra os vidros das janelas. "Nem sempre se é bem-sucedido, às vezes enganamo-nos no traçado do caminho, há quem não acorde, fique caído no tapete ou parta o pescoço contra o vidro seguinte; esses permanecem na nossa consciência como zonas de remorso onde repousam as andorinhas mortas no nosso jardim, mas pelo menos tentamos, teremos tentado. São os nossos alunos." "Uma andorinha aturdida é uma andorinha a reanimar." Ponto final.

Daniel Pennac, autor do livro Mágoas da Escola, foi um mau aluno. E é exactamente deste ponto de vista que remexe nas questões educativas, misturando recordações e reflexões sobre pedagogia. A frustração dos péssimos alunos, a exclusão e o que não resulta no sistema de ensino. O seu livro ganhou o Prémio Renaudot em 2007, está traduzido em 24 países, mais de 800 mil exemplares foram vendidos em França, e acaba de chegar a Portugal numa edição da Porto Editora.

Sentia-se um aluno perdido num mundo que só os outros compreendiam. "Na minha infância, chegava todos os dias a casa perseguido pela escola. As minhas cadernetas reflectiam a censura dos professores." Lições por estudar, trabalhos por fazer. A contracapa do livro recupera as observações dessa fase. "Não fez nada e rendeu ainda menos", "fala muito, mas nem uma palavra em inglês", "deve esforçar-se mais", "demasiadas ausências". E a típica frase: "O terceiro período será decisivo." "As palavras do professor são toros flutuantes aos quais o mau aluno se agarra num rio cuja corrente o arrasta para as grandes quedas. Repete o que o professor disse. Não para encontrar algum sentido, não para que a regra tome forma; mas sim para resolver o assunto, momentaneamente, para que me ?deixem em paz'", escreve.

Há várias recordações. "Basta um professor - um único - para nos salvar e nos levar a esquecer todos os outros." Pennac não esquece os quatro "salvadores". O primeiro, um professor de Francês, encomendou-lhe um romance no 9.º ano. "(...) pela primeira vez na minha vida escolar, um professor atribuía-me um estatuto; eu existia escolarmente aos olhos de alguém, como um indivíduo que tinha uma linha a seguir, que mantinha o ritmo." Seguiram-se mais três que transbordavam vontade de ensinar e estimulavam o desejo de saber. Um professor de Matemática, uma professora de História e outro de Filosofia. "Não por se interessarem mais por mim do que pelos outros, não, demonstravam a mesma consideração pelos bons e maus alunos, e sabiam reanimar nos segundos o desejo de compreender". "Os professores que me salvaram - e que fizeram de mim um professor - não tinham recebido nenhuma formação para esse fim. Não se preocuparam com as origens da minha incapacidade escolar. Não perderam tempo a procurar as causas nem tão pouco a ralhar comigo. Eram adultos confrontados com adolescentes em perigo", acrescenta.

Nadador-salvador
Um mau aluno que em Setembro de 1969 entrou numa sala de aula como professor. "Mas, já professor, soube instintivamente que seria inútil agitar o futuro debaixo do nariz dos meus piores alunos." Um docente que viveu a escola como aluno interno e constantemente debaixo da sombra dos zeros das classificações. "Uma parte do meu trabalho consistia em persuadir os meus alunos mais desleixados de que a cortesia predispõe à reflexão mais do que um tabefe, de que a vida em comunidade compromete, de que o dia e a hora de entrega de um trabalho não são negociáveis, de que um trabalho medíocre tem de ser refeito para o dia seguinte, de que isto, e mais aquilo, mas de que nunca, mesmo nunca, eu e os meus colegas os abandonaríamos a meio do caminho". Com outra regra: não deixar que as três palavras "falta de bases" entrassem no vocabulário educativo.

Conhecia-os bem. Detectava-os com facilidade. Mais uma metáfora. "Os nossos ?maus alunos' (alunos considerados sem futuro) nunca vão sozinhos para a escola. O que entra na sala de aula é uma cebola: algumas camadas de tristeza, de medo, de inquietação, de rancor, de raiva, de desejos insatisfeitos, de renúncias furiosas, acumuladas sobre um fundo de passado humilhante, de presente ameaçador, de futuro condenado. Reparem, vejam-nos chegar, o corpo em transformação e a família dentro da mochila. A aula só poderá começar realmente depois de pousarem o fardo no chão e descascarem a cebola."

Pennac lembra as dúvidas dos professores. "Afinal, não é por minha culpa que este rapaz ainda se encontra no oitavo ano! Que lhe ensinaram, então, os meus predecessores? Só a escola deve ser posta em causa? Que pensam os pais? Imaginarão que com as turmas que tenho a meu cargo e o meu horário posso recuperar tamanho atraso?" Passa-se a batata quente. "Quente, a batata é-o sobretudo para os pais. Não se cansam de a passar de uma mão para a outra. As mentiras quotidianas do filho esgotam-nos: mentiras por omissão, efabulações, explicações exageradamente pormenorizadas, justificações antecipadas."

Na sua opinião, os professores não estão preparados para a colisão entre o saber e a ignorância. Há uma explicação, dada por uma professora, que não esquece. Uma boa turma não é um regimento que acerta o passo e a marcha, mas sim uma orquestra que se dedica a estudar a mesma sinfonia. Pennac tentou incutir o gosto pela leitura de textos nas suas aulas. E estendia as mãos aos alunos. "Eu parecia um nadador-salvador. Os mais fracos avançavam a custo, com a cabeça fora da água, segmento por segmento, agarrados à prancha das minhas explicações, depois nadavam sozinhos, começando por algumas preposições, até se aventurarem rapidamente num parágrafo inteiro, sem ler, de cabeça". Um cábula que quis ser professor, que deixou a escola há 12 anos e que hoje é um escritor de respeito. "(...) sempre encorajei os meus amigos e os meus alunos mais espertos a tornarem-se professores. Sempre pensei que a escola é feita, em primeiro lugar, de professores. Quem me salvou na escola, senão três ou quatro professores?"
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Notas: Este é um livro que recomendo vivamente. Um excelente testemunho vivo daquilo que é, e pode ser feito na e da escola -, do insucesso ao sucesso, da desmotivação ao entusiasmo, interesse e motivação... O espelho de milhares e milhares de crianças, adolescentes e jovens que não se identificam com a escola...
Em tempos idos publiquei aqui uma entrevista com Daniel Pennac sobre "O Poder dos Livros" e que valerá a pena (re)ler. Fica o convite.

domingo, 11 de maio de 2008

"O poder dos livros"

É o título de uma entrevista com Daniel Pennac à Label France em 2000. Um agradecimento à HD (pedagoga), colega e amiga destas e de outras danças, que me enviou esta entrevista em 2006. [Obrigada por me transmitires o lado bonito da Pedagogia.] Li, gostei e guardei “religiosamente”. Reencontrei-a hoje. Reli o seu conteúdo. Tão actual. Vou partilhá-la com os meus leitores. É extensa, mas vale a pena ler. Acho que o leitor vai gostar. Espero que goste! (palavras que um dia o escritor Richard Zimler me dirigiu em dedicatória num dos seus livros). Falarei dele aqui noutra viagem pelos livros.


Entrevista com Daniel Pennac
Label France - Abril de 2000, n.º39


Romancista, professor de francês e leitor apaixonado, autor de sucesso de uma saga policial com personagens tão singulares quanto simpáticos - a já mítica família Malaussène - Daniel Pennac é um dos autores franceses mais traduzidos e lidos no mundo. Através de Label France, ele nos fala de sua experiência como professor, de seu amor pelos livros e alunos e de sua relação com a ficção e o imaginário.


Label France: Como o senhor se define?

Daniel Pennac: Se, ao me entrevistar, você imagina estar entrevistando um intelectual, está muito enganada, eu sou um romancista. Ou seja quase o contrário de um intelectual. A primeira obrigação do romancista é, de fato, abandonar os conceitos e fazer com que qualquer idéia possa ser encarnada. Se você pode resumir um romance pela idéia que o fez nascer, ele é um romance fracassado. É um ensaio dissimulado em romance, o que é uma especialidade francesa. Céline, que não perdia a oportunidade de uma provocação, disse assim mesmo uma coisa muito justa: "Em matéria de romance, nada é mais vulgar do que uma idéia." Eu me definiria portanto como um contador de histórias metaforizador.

Como o senhor vê o futuro?

Quando Benjamin Malaussène declara a sua Julie: "Julie, vou sempre amar você", ela responde com uma certa sabedoria: "Contente-se de me amar todos os dias". É assim que vejo o futuro: a consciência apaixonada por um cotidiano que se abre para o amanhã. O futuro "em si" não tem sentido.

O que o senhor pensa do futuro da escrita, do livro, na era das novas tecnologias da comunicação?

O computador teria vencido a resistência de Gutenberg? Não, eu não acho que o livro, e de uma maneira mais geral a escrita, ou seja essa viagem intersideral que fizemos para passar do sinal para o sentido no momento em que aprendemos a ler, esteja ameaçado por outras formas de expressão. Acho que a escrita tem um grande poder. Tenho a fraqueza de pensar que a descoberta de uma palavra como "mamãe", ou seja a passagem intelectual de uma sucessão dos sinais mais arbitrários para a significação mais íntima, cria um choque do qual nunca nos recuperamos, e que esse choque nos liga definitivamente à escrita.


"A escrita cria um choque do qual nunca nos recuperamos"


As novas tecnologias, a Internet, etc? Não é a primeira vez que a escrita é desvirtuada por práticas minimalistas ou utilitaristas. Mas, afinal de contas, a escrita é desvirtuada até mesmo por um mau romance. Em suma, a escrita e o livro sempre tiveram na França um lugar à parte. Nossa cultura do romance é tão importante para nós quanto a nossa cultura alimentar.

Em sua obra sobre a leitura Como um Romance, o senhor promulga os dez direitos imprescindíveis do leitor, um dos quais é não ler, como meio de reconciliar alguns jovens com os livros?

Regra número um: não envergonhar os iletrados. Durante toda a minha vida trabalhei em ritmo de urgência nessa área. Tive contato constantemente com crianças que estavam não apenas aborrecidas com a escrita, mas também socialmente ameaçadas. A leitura, além disso, é para elas algumas vezes ameaçada pela maneira como a escola a apresenta, que é puramente "médico-legal" e que funciona muito bem com "os que sabem ler", mas não com as crianças em dificuldade escolar.
É urgente portanto reconciliar essas crianças com a leitura. Eu, pessoalmente, faço isso nas aulas, lendo em voz alta, falando-lhes de literatura, "contando-lhes histórias". Como um Romance tinha a função de apresentar a minha prática nessa área, sem a pretensão de transformá-la em "método".
O problema das crianças que vivem nos inumeráveis círculos da periferia não é mais o fato de serem iletrados, nem é o de perderem o gosto pela leitura, mas o fato de nem mesmo dominarem mais a linguagem oral, por não terem a quem falar. A oralidade é a primeira coisa que se perde na periferia, onde os garotos são “encerrados” em blocos, onde organizam-se necessariamente em bandos, onde a linguagem está reduzida a códigos de reconhecimento próprios ao bando, portanto a sua mais simples expressão. O único lugar aonde os jovens podem ir é o supermercado, e no final do supermercado está o caixa, que só fala de números.

A escola preenche então o seu papel de promover uma abertura?

Antes de mais nada, ela é obrigada a fazer o papel de promotora da reinserção social. O professor que chega até essas crianças deve, antes de ensinar-lhes a ler e escrever, ensinar-lhes primeiro a se comportar, em segundo lugar a falar, ou seja a se comunicar, a levar em conta a presença de um interlocutor... Esse já é, por si só, um trabalho enorme que precede a simples transmissão de um saber.

A seu ver, o que seria necessário modificar em matéria de pedagogia e educação?

Não tenho uma posição teórica sobre essas questões, porque estou bem situado para saber que, seja qual for a opinião que tenhamos, existe sempre um momento, no dia 6 ou 7 de setembro, no reinício do ano escolar, em que nos vemos sós diante de 35 indivíduos que vão constituir uma entidade realmente particular, diferente da classe ao lado e de todas as que tivemos antes. E dentro dessa entidade existem 35 individualidades que eu preciso obrigatoriamente levar em consideração individualmente, se quiser fazê-las progredir seja em que área for.
A ginástica intelectual do professor consiste em criar uma dinâmica no interior desse grupo sem jamais negar qualquer das individualidades que a compõem; o que não faz parte do que se ensina aos professores, mas é a realidade cotidiana de seu trabalho. Porque, se eu nego um aluno como indivíduo, ou se, ao contrário, dou atenção demais a ele, o ambiente da turma irá se desestabilizar.
O professor deve portanto "administrar", como se diz hoje, e de maneira instintiva, esse tipo de problema que não é, para falar a verdade, problema de ordem pedagógica, mas comportamental e afetivo. Se essas dimensões não forem levadas em consideração, se não nos ocuparmos dos "bons" alunos, a pedagogia vai se tornar uma espécie de mecânica cega que alcança apenas 10% das crianças escolarizadas. Nós, professores, deveríamos poder dar provas de atenção real, de paciência, e também de uma certa gratuidade em nossas relações com os alunos. Talvez seja isso que eles chamam de "respeito".

Mas a transmissão dos conhecimentos na escola é cada vez menos desinteressada.

É verdade. Nós, professores, temos tendência, para nosso próprio conforto metodológico e para atingir os objetivos "rentáveis" que nos são determinados, a nos comportar como usurários: é preciso que haja rendimento, e o mais rápido possível! Eu lhe ensino uma lição hoje à tarde e você tem que recitá-la amanhã. Isto, evidentemente, é necessário para criar nas crianças o hábito da regularidade no trabalho, mas é perfeitamente insuficiente para me dar a garantia de que essa lição será assimilada e que restará alguma coisa dela em dez anos.
Da mesma forma, para fabricar verdadeiros leitores é preciso de vez em quando recorrer à informalidade. Por exemplo: na minha turma de 1º ano do 2º Grau, das seis horas de francês por semana, eu reservava sistematicamente duas horas para falar da literatura por ela mesma, para ler romances com o entusiasmo de leitor. Fora do programa e sem qualquer exigência de restituição. De tanto ler, de relatar romances, de propor livros aos alunos e fazê-los circular na classe, no final do ano os 35 alunos tinham necessariamente encontrado um romance, um autor e, conseqüentemente, outros romances do mesmo autor, outros autores da mesma família literária, etc.
Se raciocinarmos em termos objetivos, como professor de letras meu objetivo é duplo: preparar os alunos para o baccalauréat (N.T.: espécie de exame vestibular) e, se conseguir me organizar, dedicar meu tempo a fabricar leitores a longo prazo. Esperando, com isso, fabricar ao mesmo tempo homens e mulheres dignos de uma boa conversa e que saibam aproveitar para pensar um pouco por eles mesmos. Mas esse ensino só pode passar através do exemplo e da valorização de uma certa gratuidade.

[…] (leitura integral aqui)

Entrevista concedida a Anne Rapin