terça-feira, 3 de maio de 2016

Como na escola se aprende que a pobreza se pode reduzir a um jogo

Por Doutora Helena Damião,
      Professora Auxiliar da Universidade de Coimbra (FPCE)

Neste século a pobreza continua a desgraçar, sem dó nem piedade, milhões e milhões de vidas. Por isso, devia ser sentida como uma vergonha por parte daqueles que a provocam e por parte de quem a tolera, praticamente todos nós.

A pobreza não é "uma questão", "um assunto" "complexo": é uma vergonha social que deve também ser sentida como pessoal. E, como tal, não se resolve, com "debates", nem com "sensibilizações", resolve-se (ou, pelo menos, menoriza-se) com justiça.

Pouco importa que assim seja, porque encontrámos um modo infalível de resolver este ou outro qualquer problema de consciência que nos possa assombrar: chutar "as questões", "os assuntos" "complexos", para a escola. E se pusermos nas mãos dos alunos um jogo de computador com o argumento de que estamos a preparar as novas gerações, ficamos livres de qualquer embargo na voz quando nos justificamos.

Estas considerações são a propósito de um jogo online "sério" que se designa por PING - Poverty is not a game - desenvolvido e distribuído por fundações europeias em parceria com empresas, e que, li nos jornais, já está nas nossas "escolas do futuro".

É destinado a alunos entre os 14 e os 18 anos e "funciona como um ponto de partida para discutir o tema da «Pobreza» e o que significa ser pobre". Na apresentação pode ler-se mais:

"Os alunos tornam-se os protagonistas (...) podem escolher entre o Jim e a Sofia que, devido a certas circunstâncias da vida, acabaram na rua e precisam de encontrar o seu próprio caminho. PING demonstra que os jogos podem ajudar a introduzir a discussão sobre assuntos sociais complexos como a pobreza na sala de aula. Os parceiros do projecto PING querem contribuir para o debate social promovendo o uso de jogos em contexto escolar como ferramenta para a abrir a difícil discussão sobre a pobreza." No manual para professores essa intenção benemérita parece esbate-se (preâmbulo):

"Os jogos digitais são um negócio em expansão, ocupando a Europa uma parte importante neste mercado, sobretudo no que diz respeito aos jogos com objectivos mais sérios (...). Através do jogo “A Pobreza não é um Jogo”, a Fundação (...) e o (...) pretendem contribuir para o debate social sobre a utilização de jogos de computador nas escolas. Com o desenvolvimento deste jogo para fins pedagógicos, os parceiros PING (Poverty is not a Game) procuram promover o debate social na Europa sobre a utilização dos jogos de vídeo pelos mais jovens e, em particular, as possibilidades de usar jogos de vídeo (sérios) para fins de aprendizagem".E o que dizer da validação do jogo, feita junto dos destinatário e de... pobres! Pobres usados duplamente - para mostrar a qualidade do jogo e como objecto de jogo - e que continuam na pobreza, Isto enquanto nas escolas se joga em nome deles (preâmbulo):

"Era importante que o jogo “A Pobreza não é um Jogo” fosse o mais realista possível, por isso, durante o seu desenvolvimento, o jogo foi experimentado pelos grupos alvo (alunos e respectivos professores) e por grupos que vivem efectivamente em situação de pobreza. A fase de concepção do jogo, que ocorreu em parceria com a ... e a ..., foi dividida em três períodos, durante os quais os alunos, os professores e as pessoas que vivem na pobreza puderam verificar até que ponto o jogo reflecte a vida real. Este prático manual abre portas ao debate na sociedade sobre a utilização dos jogos nas escolas e permitirá aos jovens sentirem em primeira mão o que significa viver na pobreza".Como é possível que a insensibilidade seja introduzida assim, descaradamente, na educação escolar?

A página do jogo e a sua versão portuguesa encontram-se aqui.
O manual para professores encontra-se aqui.

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