sábado, 27 de junho de 2015

Lançamento do primeiro livro sobre processamento auditivo em Portugal

Cristiane Nunes autora do primeiro livro da área em Portugal. 

Distúrbio atinge 5% das crianças, tendo consequências no sucesso académico, na socialização e, em alguns casos, na gaguez e dislexia, diz Cristiane Nunes, do CIEC.

A perturbação de processamento auditivo (PPA) atinge 5% das crianças portuguesas, tendo consequências no sucesso académico, na socialização, na realização das tarefas do dia-a-dia e, em alguns casos, na gaguez e na dislexia. O Serviço Nacional de Saúde ainda não financia os exames e o tratamento deste distúrbio, caracterizado pela incapacidade em interpretar sons. A área de estudo chegou a Portugal em 2008 através da fonoaudióloga Cristiane Nunes, que acaba de publicar o primeiro livro dedicado ao tema no país. A obra é baseada no doutoramento feito no Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) da UMinho.

Esta publicação vem preencher uma lacuna científica e literária existente num país onde “nem sequer existiam testes de avaliação e profissionais a trabalharem na área”. A tese de doutoramento começou pela elaboração de testes padronizados para a população portuguesa, recorrendo a uma amostra de 60 crianças dos 10 aos 13 anos – a base de dados contém hoje mais de 500 pacientes. A seleção dos participantes foi “demorada”, principalmente devido à confusão generalizada entre PPA e surdez. A investigadora Cristiane Nunes realça a diferença: “Enquanto uma pessoa surda nem sempre consegue detetar os sons, a que tem PPA apresenta dificuldade em interpretar o que ouviu e perceber mudanças acústicas rápidas. Além disso, costuma demorar mais tempo para processar a informação que passa pelo nervo auditivo”.

Hein? Pode repetir?

Os resultados obtidos a partir dos testes padrão desenvolvidos no CIEC mostram que as crianças com problemas de audição apresentam maior dificuldade no desempenho escolar, na comunicação, na leitura, na escrita e na articulação. Mais especificamente, 83% dos participantes com baixo desempenho nos testes de PPA tinham notas inferiores aos restantes colegas. “Alguns não conseguiram repetir, por exemplo, um conjunto de números depois de os ter ouvido ou distinguir entre sons curtos, longos, agudos e graves. Isso tem implicações na leitura, escrita, fala e na forma como a informação é interpretada”, afirma.

Os sintomas associados variam em função da idade e da intensidade da perturbação. Em crianças com menos de 5 anos, verifica-se um atraso na aquisição da fala e, especialmente, dos sons “r” e “l”. Daí trocarem muitas vezes “prato” por “plato”, por exemplo. A partir dos 7 anos, recorrem a expressões como hein? e quê?, são mais distraídos e não percebem de imediato o que dizem o professor e os colegas em contexto de trabalho de grupo. Sem tratamento, o problema arrasta-se para a vida adulta, tendo repercussões no sucesso profissional, social e amoroso. 

Consultas resolvem quase todos os casos

Os diagnósticos podem ser obtidos a partir dos 6 anos. A quase totalidade das crianças normaliza após a realização de exercícios e técnicas que estimulam a formação de novas conexões no nervo auditivo. O segredo está no tratamento precoce da perturbação, diz a especialista, que no seu livro recomenda o envolvimento dos educadores no processo de deteção. “Há testes do CIEC capazes de detetar os casos mais graves. Se fossem aplicados no início do 1º ciclo, poder-se-ia eliminar pelo menos metade das ocorrências. O objetivo é identificar os alunos mais afetados e reencaminhá-los para um audiologista ou terapeuta da fala”, realça. O tratamento personalizado pode, por exemplo, ajudar em caso de gaguez e atraso na linguagem, além de munir as crianças disléxicas de estratégias para melhorar a sua leitura e escrita. 

A PPA é discutida desde a década de 1950 nos EUA e, pelo menos, desde 1980 no Brasil. Por cá, o tema é pouco abordado. “O Estado não comparticipa os exames e o tratamento, serviços que também só estão disponíveis em cinco ou dez locais. Ainda há um longo caminho a fazer”, reforça. “É preciso sensibilizar os pais, os educadores, os psicólogos e a sociedade civil para a gravidade desta perturbação na vida das pessoas afetadas”, conclui.

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