domingo, 14 de junho de 2015

Criar, Comunicar, Participar... o papel da escola na transmissão dos valores universais - um contributo para o diálogo intergeracional


Do Prefácio 

(...) Os idosos deverão ser tidos como uma mais valia das nossas sociedades. O seu saber acumulado ao longo de toda a vida, as suas experiências, com todos os fracassos e sucessos que elas contêm, as suas advertências, as suas reflexões, as suas perspetivas sobre a vida devem constantemente ser tidas em consideração. As suas memórias são repositórios de vivências que não devem ser esquecidas (...). Uma sociedade sem memória é uma sociedade perdida por falta de raízes. Temos o dever de respeitar e valorizar todos aqueles que contribuíram, à sua maneira, para o desenvolvimento das nossas sociedades e cujo legado foi deixado às gerações mais novas. Temos o dever de continuar a inseri-los nos nossos projetos, individuais, familiares e sociais e fazê-los sentir parte ativa e participante do nosso desenvolvimento.

A educação, enquanto processo de formação, deve ser o motor principal desta mudança, quer no âmbito da educação para a cidadania quer no quadro da formação de profissionais, nos mais diversos domínios. (...) Numa Europa cuja tendência demográfica é para um progressivo envelhecimento, esta revalorização dos idosos como uma mais valia comum tornou-se um imperativo. Foi exatamente partindo de um leque de experiências em projetos europeus que a autora apresenta um conjunto de fundamentos interdisciplinares e de propostas de intervenção nesta matéria (...).

George Camacho

Acrescento algumas notas para a reflexão e discussão:

Em educação, particularmente no que concerne ao papel das escolas, a Formação Cívica, ou a Educação para a Cidadania, são áreas totalmente desprotegidas pela atual tutela. A crescente desvalorização das mesmas conduziu à recente extinção destas áreas do currículo dos alunos, remetendo-as para um plano transversal. No entanto, ninguém sabe qual é o seu papel no âmbito disciplinar, não há conteúdos, não há indicadores de referência... onde, como, quem, quando, de que forma? Os professores andam mais preocupados com o cumprimento dos programas e das metas que são às centenas, como preocupar-se ainda com a formação cívica e moral dos alunos? Em abono da verdade, e em boa parte têm alguma razão, isto de educar os meninos, de transmitir-lhes valores, é mais da competência da família. É habitual ouvirmos na sala de professores, nas reuniões, e em tantos outros espaços... "a educação vem de casa"... mas sabemos que as coisas não são assim tão lineares. E os que não têm bons modelos em casa, esses não merecem que a escola faça alguma coisa por eles?

Em pleno século XXI, o relativismo dos valores é um assunto muito sério, uma realidade bem atuante. É preciso ser trazido para o debate em matéria de educação. É preciso debater o problema e assumir o papel da educação na transmissão de valores. Instruir, ensinar valores e incutir nas gerações mais novas um profundo respeito pelos direitos da humanidade, não os ridicularizando ao ponto de lhes roubar a essência e a dignidade do ser pessoa que levou tantos séculos a conquistar e à custa de muitas vidas chacinadas… O valores têm que ser ensinados, uma vez que não os trazemos no código genético. Não podemos esperar que os alunos os descubram por si próprios. Esta tarefa, embora seja mais da competência familiar, a escola tem também neste campo, um papel complementar e muitas vezes crucial a desempenhar na formação integral dos alunos.

O que me preocupa no meio dos "braços de ferro" entre teóricos, as pseudo-teorias relativistas e do «destrambelhado edifício do sistema educativo» (Urbano, 2006), é que há crianças para educar, que são apanhados nesta confusão, ora por uma pseudo-pedagogia, ora por outra... e quais são as que se salvam... é como sempre foi, salvam-se as que são de condições sociais e culturais médias e superiores e algumas, poucas, de condições inferiores, que têm pais excepcionais. As outras, infelizmente, continuam a perder-se nos caminhos sinuosos do sistema. A escola, infelizmente, reproduz e consolida as clivagens sociais. Vejamos:

Numa leitura atenta a alguns documentos curriculares que nos orientaram dos quais destaco aqui a Lei de Bases do Sistema Eduativo (LBSE) no seu artº 2, nº 4 apela para o «desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos incentivando a formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários e valorizando a dimensão humana do trabalho». Mas logo de seguida, no mesmo artigo, nº 3 alínea a) pode ler-se «O estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas».

Que ideias são aqui repassadas? (1) todos os valores são relativos, construídos, subjectivos, equivalentes; (2) os alunos possuem capacidade de auto-orientação no plano axiológico; (3) a escola não pode impor valores particulares, deve respeitar a liberdade de escolha. (Cf. LBSE-Lei 49/2005).

Levanta-se de imediato uma interpelação: se o estado se demite de apresentar um referencial de valores, a quem cabe essa tarefa? À escola? À família? Ou a ambas? Caberá à escola definir esses valores que considera (com valor) como metas educacionais do seu Projecto educativo?

Estão aqui subjacentes uma série de ideais falaciosas que é preciso trazer à discussão pública, porque o que está em causa é a educação dos nossos alunos, dos nossos filhos... e, consequentemente, o seu futuro, o futura da nação.

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