Entrevista concedida pela Doutora Maria Helena Damião* ao Jornal "Fénix Digital", Edição da universidade Católica do Porto, julho de 2011 (pp. 11-12).
1. Na sua opinião, qual o investimento que temos
ainda de fazer, e em que áreas, para conseguir que todas as crianças possam
ter “sucesso escolar”?
Garantir o sucesso escolar a todos os alunos
constitui um propósito que, nas décadas mais recentes, as sociedades ocidentais
têm perseguido. Em simultâneo, passaram a questionar abertamente a concepção
de sucesso que havia guiado a escola iluminista: aquisição daqueles conhecimentos
que, por princípio, não se poderiam adquirir fora da escola ou que não se
poderiam adquirir com a extensão e a profundidade que esta instituição
proporciona. Esse questionamento fez emergir uma multiplicidade de concepções
de sucesso, que passou a constar nos discursos e, também, nas práticas
pedagógicas.
Assim, quando lemos nos documentos
normativo-legais, curriculares, programáticos e outros que o “sucesso”
constitui um direito de todas as crianças e jovens, não podemos deixar de nos
questionar acerca do significado concreto desta expressão e de como podermos
agir para fazer valer o sucesso como direito. Ao tentar responder percebemos a
confusão – que entendo que se tem feito e se faz – entre qualidade e quantidade
do sucesso. De facto, atribuir classificações positivas aos alunos ou decidir a
sua transição de ano não significa necessariamente que eles dominem as
aprendizagens que estão estabelecidas para um certo nível de escolaridade. Aqui
devo notar que também nem sempre é claro nos documentos oficiais que aprendizagens
devem os alunos fazer em cada nível de escolaridade.
Voltando à pergunta, procurarei responder-lhe de
modo mais concreto. Em primeiro lugar, penso que deveríamos parar para pensar
e, naturalmente, para explicitar qual a responsabilidade da escola na educação
das crianças e dos jovens. Isso facilitaria muito a definição de sucesso escolar,
o que me parece ser da máxima urgência. Em segundo lugar, entendo que essa
definição, por mais operacional que fosse, não permitiria concretizar
totalmente o propósito em causa, pois, a verdade é que, apesar de termos uma
ideia mais ou menos precisa acerca de como se deve ensinar para que os alunos
aprendam, não sabemos, com toda a certeza, como isso se faz em relação a todos
os sujeitos que estão na escola. Em terceiro lugar, entendo que a definição a
que chegássemos teria de ser plural, pois, apesar das óbvias semelhanças entre
as crianças e os jovens, temos de contar com aquilo que os distingue e a que é
preciso dar alguma resposta sólida. Em quarto lugar, para que a grande maioria
das crianças e jovens possa ter sucesso, ainda que com alguma diferenciação,
teremos – políticos, professores e outros técnicos de educação – de nos
concentrar mais nos processos de aprendizagem e teremos de ensinar de acordo
com o que sabemos acerca desses processos.
2. Reforçar as aprendizagens das duas
disciplinas estruturantes “Português” e “Matemática” passará por um maior
investimento no l.º Ciclo do Ensino Básico?
As aprendizagens que se fazem no 1.º ciclo de
escolaridade são fundamentais. A tendência da investigação pedagógica leva-nos
ainda mais longe, leva-nos a afirmar que são determinantes. Daí que os países
com melhores resultados em estudos de avaliação internacional sejam aqueles
que mais investem nesse patamar. Os programas são pensados com critério, os
manuais escolares, no caso de os haver, também, e os professores são de
excelência. E existe a preocupação de garantir que os alunos não saltam etapas,
avançam para a seguinte depois da anterior ou das anteriores estarem consolidadas.
Indo ao cerne da pergunta que me foi posta, a
Língua Portuguesa e a Matemática são, de facto, estruturantes, mas também o são
as Ciências, a História, a Música e a Expressão Corporal, entre outras. A todas
estas áreas é preciso atribuir igual dignidade porque, cada uma à sua maneira,
contribuem para o desenvolvimento cognitivo, afectivo e motor das crianças e
jovens, possibilitando-lhes, em conjunto, uma educação formal abrangente,
afigurando-se como garantia da aquisição de um leque basilar de conhecimentos
que facultarão uma compreensão sofisticada do mundo e a expressão consciente
nele. Mas esta ideia já era a dos Gregos, nada tem, portanto, de inovador. Há
ideias tradicionais sobre educação que estão certas e que devemos perseguir.
Por último: se “reforçar as aprendizagens de
Língua Portuguesa e de Matemática” significar que lhes devem ser destinadas
mais horas lectivas, como é a tendência das orientações mais recentes da
tutela, mas ainda da anterior legislatura, eu diria que não se deve fazer ou
manter essa opção, que se deve fazer uma outra, que é escolher criteriosamente
o que as crianças e os jovens devem aprender em cada área curricular e determinar
com precisão o percurso metodológico mais eficaz para ensinar.
Se, por exemplo, na Língua Portuguesa a opção
incidisse sobretudo em textos de reconhecida qualidade literária (em vez de
incidir em textos pobres ou empobrecidos, com supressões e adaptações), se o
método de exploração assentasse em modelos seguros de desenvolvimento da compreensão
se a natureza, o número de rubricas e o seu grau de aprofundamento fossem
seriamente dimensionados, o tempo lectivo poderia manter-se, mas certamente o
nível de aprendizagem subiria. De nada adianta aumentar este tempo se o objecto
de aprendizagem for inconsistente ou inadequado e o método erróneo.
3. Considerando
“competência como uma noção fundamental nas actividades de ensino e de
aprendizagem “ de que falamos quando falamos de competência?
Não lhe sei responder de modo inequívoco. A
noção de competência tem assumido muitos significados. Destaco muito
sumariamente apenas dois, talvez os mais abrangentes.
Um sentido está ligado às teorias pedagógicas
predominantes nos anos de quarenta, cinquenta aos anos de setenta, oitenta, e
reporta-se a destrezas adquiridas pelos alunos, fruto de um ensino
estruturado, pois, sem este tipo de ensino, tais destrezas não seriam possíveis
de adquirir ou, pelo menos, não seriam possíveis de adquirir num tempo de vida
razoável. Por princípio, como humanos todos temos determinadas capacidades,
que, quando devidamente estimuladas através de um processo instrutivo
esclarecido, se manifestam com alguma rapidez na forma de competência.
Exemplificando, reconhece-se a nossa capacidade para reter dados na memória,
mas, se a nossa memória for sujeita a treino específico, pode “guardar” dados e
procedimentos de uma determinada área de saber que serão úteis no imediato ou
no futuro mais próximo ou mais distante. Isso é uma competência que não
tínhamos antes do ensino e da aprendizagem escolar e que passámos a ter.
Mais recentemente, sobretudo depois dos anos
oitenta, a noção de competência ganhou um sentido diferente, sendo encarada
sobretudo como um saber ou um conjunto de saberes instrumentais que se afiguram
relevantes para a resolução de problemas do quotidiano. Numa certa
interpretação, sobrepõem-se aos conhecimentos, sobretudo aos de carácter mais
erudito, que não parecem ter aplicação no imediato vivencial dos alunos. Mais
do que saber, é importante saber fazer, sobretudo saber fazer o que está
implicado em tarefas pessoais e sociais para as quais somos convocados.
Devo dizer que o confronto entre estes dois
entendimentos de competência tem levantado polémica bastante entre académicos
e decisões de políticas e medidas educativas ao ponto de ter criado cisões
muito marcadas entre os que são a favor de uma ou de outra. Não me parece,
porém, que esse seja um terreno de discussão que beneficie o desenvolvimento
dos alunos, nem a transmissão e ampliação da herança da humanidade, que a
escola, de algum modo, está mandatada pela sociedade para assumir. Na verdade,
para que este duplo desígnio da escola possa ser concretizado é preciso
convocar conhecimentos relevantes, dignos de serem ensinados, e, em simultâneo,
estimular as capacidades que temos em potência.
4 . Que mensagem deixaria aos leitores do Jornal
“Fénix Digital”?
Que todos, sem excepção, temos de encarar a
aprendizagem como uma tarefa séria, talvez a mais séria de todas, pois é ela
que nos permite afirmarmo-nos como pessoas. E ser pessoa é ser capaz de pensar
e de decidir em liberdade. Talvez, por isso, a aprendizagem seja também a
tarefa mais difícil com que a sociedade se confronta. E é uma tarefa sem fim…
* Professora Auxiliar da FPCE-UC -
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra
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