sábado, 27 de julho de 2013

A criança como espelho do funcionamento familiar

A CRIANÇA COMO ESPELHO DO FUNCIONAMENTO FAMILIAR
Por Catarina Castro (1 de julho de 2013)

A família é responsável pelas principais relações, cuidados e estímulos necessários ao crescimento e desenvolvimento saudável de cada criança, principalmente durante a primeira infância.
A família, enquanto primeiro contacto da criança com o seu contexto (afetivo, cultural e social), é o modelo das suas aprendizagens e das normas e valores necessários à sua formação como pessoa. É na família que a criança encontra os primeiros “outros” e é através da relação que estabelece com eles e da observação do seu comportamento que vai aprendendo a agir e a interagir com o mundo à sua volta – são as dinâmicas familiares das quais a criança faz parte que lhe permitem construir o seu esquema conceptual, isto é, a forma como compreende e atribui significado aos pequenos pormenores do seu dia-a-dia.
Ao longo do seu desenvolvimento, é com base no que observa no seio familiar, que vai aprendendo a descortinar o mundo e a interagir com ele, imitando reações, comportamentos e expressões dos vários elementos da sua família em situações idênticas às que se encontra – cada um dos elementos da família funciona para a criança como um modelo a seguir ou um exemplo a copiar.
As interações que estabelecem com a família alargada desde tenra idade são fundamentais na construção da sua visão sobre o mundo e sobre si própria, permitindo-lhe interiorizar noções de autoestima e autoconceito necessárias para descobrir o seu meio com confiança. Desde que nasce, demonstra uma capacidade inata para aprender e apreender o mundo a sua volta e quanto mais estimulante for o contexto no qual está inserida, mais estável e construtiva será a sua formação. É fundamental que os vários familiares, principalmente os pais, disponham de um tempo afetivo e efetivo, que lhes permita estabelecer o vinculo emocional, transmitir parâmetros de comportamento e ajudar a criança a desenvolver a sua autoconfiança e a sua autoestima uma vez que a sua capacidade de aprender está intimamente ligada às experiências que vão vivenciando e aos laços de afeto que vão estabelecendo com os seus adultos de referência (mãe, pai, avós, tios …) bem como às expectativas que estes detêm sobre a criança.
As normas e valores que vão sendo demonstrados à criança pelos seus adultos cuidadores durante a infância serão a base da sua formação enquanto pessoa e estarão latentes até à vida adulta, dirigindo e modelando o seu comportamento ao longo da vida. Desta forma, cada família é responsável pelo desenvolvimento global da criança (comportamental, emocional e cognitivo) e deve estimular o seu crescimento e a sua maturação e dando-lhe ferramentas que permitam que se desenvolva de forma adaptativa e saudável.
São as relações que estabelece no seio da família que permitem à criança sentir-se amada e protegida de modo a que cresça emocionalmente equilibrada. Estes valores e afetos influenciam a forma como se entende com os outros, os amigos que escolhe, o tipo de pessoas com que se relaciona e a sua produtividade na vida escolar, acadêmica e profissional. A construção da autoconfiança desde pequena interfere diretamente na auto perceção das suas aptidões e habilidades e a impulsiona a batalhar pelo êxito na vida escolar e, posteriormente, na vida adulta. Se a relação familiar for harmoniosa, há maior probabilidade de a criança construir uma autoestima positiva e procurar caminhos de sucesso do que se a relação for conturbada ou deficiente. Neste ultimo caso, algumas crianças aprendem muito cedo a não aprender ao serem pouco estimuladas ou desvalorizadas no seu processo criativo e curioso de exploração do mundo.
A família desempenha ainda o papel de mediadora entre a criança e a sociedade, possibilitando a sua socialização, elemento essencial para o desenvolvimento cognitivo infantil. A experiência familiar permite ou não que a criança desenvolva um processo de aprendizagem e adquira um conjunto de competências que vai utilizar no exterior, em situações que exigem que assuma um papel e estatutos semelhantes.


Estilos e práticas parentais
As crianças são o reflexo da educação que lhe vai sendo transmitida ao longo dos seus anos de formação e dos estilos parentais levados a cabo pelo seu circulo familiar durante todo esse processo. De entre os vários estilos parentais é possível salientar o permissivo, o autoritário, o negligente e o autoritativo.
O estilo permissivo pode ser caracterizado por padrões pouco exigentes, com limites escassos e com baixos níveis de controlo e de exigência e pais muito presentes, afetuosos e que procuram dar resposta às necessidades da criança. Frequentemente, dada a ausência de regras bem definidas, estas crianças tornam-se jovens pouco estruturados e muito dependentes dos pais.
O estilo autoritário carateriza pais rígidos e controladores que educam com base no medo e na punição. Frequentemente este estilo forma jovens depressivos e submissos, com pouca iniciativa ou jovens agressivos e com dificuldade em estabelecer relações construtivas com os outros.

O estilo negligente é caracterizado pela ausência de promoção da independência e responsabilização, em que os pais apresentam, de modo geral, comportamentos frios, desligados, indiferentes e pouco acessíveis, que não investem, nem estimulam os filhos. As crianças fruto de um ambiente negligente são, habitualmente, pouco estruturadas e demonstram dificuldades em compreender e seguir as normas sociais, bem como em lidar com outras pessoas.
O estilo autoritativo é tido como aquele que promove os melhores níveis de ajustamento nas crianças, quer a nível emocional/psicológico como a nível comportamental. Este estilo é caracterizado por comportamentos parentais firmes e racionais, que estimulam a autonomia, a confiança e a competência de forma consistente através da explicação e reflexão conjunta (que favorece a internalização de normas) como por comportamentos responsivos e afetuosos.
Não existe no entanto um manual que ensine como se funciona em família ou como se é pai e mãe. É fundamental que a família se consciencialize que é responsável pelo desenvolvimento daquele ser e pela construção dos seus alicerces. Um desenvolvimento saudável pressupõe um conjunto de laços vinculativos muito fortes a partir dos quais as crianças retiram as bases de que vão necessitar para todas as demais aprendizagens. Qualquer que seja a sua estrutura, a família mantém-se como o meio relacional básico para as relações da criança com o mundo.
Estratégias para potenciar relações construtivas
-           Procure programas em família. Passeios, picnics, idas ao cinema e a museus são ótimas oportunidades de quebrar com a rotina e passar algum tempo em família.
-           Valorize o tempo de qualidade (vs de quantidade). É fundamental que tire algum tempo da sua rotina para estar mesmo com a sua criança, brincar com ela, responder às suas questões ou contar-lhe uma história (desligue a televisão, afaste jornais e revistas e tire o som do telefone se for necessário).
-           Introduza pequenos jogos nas rotinas, que sejam estimulantes e divertidos. Os jogos, para além de melhorarem as habilidades cognitivas e sociais das crianças, favorecem o sentimento de família e a relação entre os vários elementos.
-           Fomente os valores familiares. Procure, nos pequenos momentos do dia-a-dia, valorizar as relações familiares envolvendo a criança nessas interações – escreva cartas ou emails aos familiares mais distantes (a criança poderá fazer um desenho para enviar), telefone ou tire algum tempo para um almoço em família alargada ao fim de semana.
-           Demonstre os princípios e valores que quer que a sua criança adquira. As crianças aprendem pelo exemplo e a melhor forma de a ensinar é demonstrando-lhe o que quer que ela aprenda.
Uma criança fruto de um ambiente tranquilo, cercada de carinho e amor e balizada por regras e limites bem estruturados, terá uma maior probabilidade de vir a ser, no futuro, um ser humano mais seguro e confiante.

In, Clinica da Educação

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