terça-feira, 22 de junho de 2010

Testemunho de uma jornalista sobre a má educação dos alunos


Eu, pecadora, me confesso

Pergunto-me muitas vezes como é que é possível um professor não ter o controlo da sala de aula. Como é que é possível? Se fosse eu... A minha experiência com crianças e na qualidade de "professora" é diminuta e feita em circunstâncias muito especiais, de maneira que me parece que se eu consigo, qualquer pessoa consegue!
Muito enganada. Há dias lia sobre uma professora de uma determinada escola de Lisboa que desistiu de dar aulas quando um aluno se dirigiu a ela e espetou um murro com imensa força contra o quadro, mesmo ao lado da sua cabeça. Nem de propósito, nesse mesmo dia passei à porta dessa escola e vivi uma situação que me recordou a docente, a diferença é que os murros foram dados no meu carro e eu estava dentro dele.
Os miúdos vinham descontraidamente no meio da estrada, com dois passeios vazios, de um lado e do outro e eles calmamente, vagarosamente, e eu, de frente para eles, cautelosa não fosse atropelar algum porque nenhum se desviava. Com o desafio nos olhos e a boca num meio sorriso lá vinham eles na minha direcção e eu já com o carro completamente parado, à espera que passassem de uma vez. Eram uma dezena, todos rapazes, alguns pequenotes, mas a maioria enormes.
Eis que, quando passam começam a bater no capot e nos vidros, imediatamente apito-lhes e começo a andar, com cautela para não os atropelar, mas o meu cérebro envia-me mensagens diferentes: de um lado diz-me "calma, Bárbara, calma, eles são maiores do que tu mas são menores, não atropeles nenhum"; do outro a indignação verbalizada com uns "estúpidos, não têm educação, não merecem nada, não percebem nada, não se ajudam a si próprios e depois espantam-se quando tomamos a parte pelo todo e chamam-nos racistas e sentem-se vítimas da sociedade, idiotas", ok, mentalmente também os mandei para uns sítios impróprios.
Mais à frente, um grupo de miúdas, com o mesmo desafio no rosto. Há uma que dança no meio da estrada, virada de costas para o carro, rodopiando e rindo, outra que espeta a perna em direcção ao veículo, desvio-me como posso, não lhes toco. "Anormais", murmuro entre dentes, com as janelas fechadas e um calor de morrer.
E voltei a lembrar-me da professora daquela escola, dos professores que aturam estes miúdos diariamente. Dos que têm sorte ou jeito e conseguem estabelecer pontes com eles; dos que passam mais de metade da aula a tentar sentá-los e acalmá-los, dos que têm esperança de contribuir para a diferença, dos que já entregaram as armas e só querem que o dia acabe, dos que também se passam e agridem os alunos. Tento pôr-me no lugar destes professores, não consigo.
Em muitos destes casos, os professores perderam, a escola perdeu, a sociedade perdeu. Os miúdos são os que mais perderam mas não sabem, nem querem saber. O que fazer com eles?

Bárbara Wong, jornalista do Público in Revista do Sol (14 de Maio de 2010)

2 comentários:

efilipe disse...

Olá. Comecei agora a seguir este blogue e deparei-me logo com um tema bastante interessante que é o da violência nas escolas. Isto acontece muito em todo o país e estamos a falar de crianças que, porventura sozinhas nada de mal fariam, mas que em grupo e inseridas num meio mais indisciplinado e de desafio, são capazes das mais atrozes formas de humilhação dos mais velhos. Estão ali porque não podem estar noutro lado. Não estão integradas no meio escolar embora pareçam donas e senhoras dele. Ao crescerem são jovens rebeldes e, mais tarde adultos desempregados, sem futuro...
Nem entro na questão das etnias ou das minorias, porque não é isso que está em causa. O meio está lá, as oportunidades também, só não se integram porque se recusam por algum motivo que nos ultrapassa. Aos professores cabe ir à escola, porque ali é o seu local de trabalho e, quando isto acontece, muitos já não se lembram qual o sonho que os levou a querer ingressar nesta área, deixaram de ver a educação com o mesmo brilho nos olhos que tinham anteriormente. E o que podem fazer para contrariar tudo isto? Exigir respeito. Nada mais...

doiscontigo.blogspot.com

Anabela Magalhães disse...

Olá Fátima!
Como estás na recta final deste ano lectivo?

Quanto ao texto, é simplesmente excelente e também o publiquei hoje no meu blogue.
Para pensar...

Beijinho