quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Linguistas usam tecnologia para salvar idiomas da extinção


Jogue, yipe, simoi são três palavras curtas para alimentos em kim, uma língua de Serra Leoa que o doutor Tucker Childs tem tentado, nos últimos três anos, escrever, gravar e entender.
Kim é uma língua que está morrendo e Childs é linguista de campo. De sua base em Tei, uma pequena vila de pescadores no rio Waanje, ele percorre em uma canoa os canais estreitos através da planície aluvial do rio e caminha alguns quilômetros em direção ao interior, onde as últimas comunidades falantes de kim persistem. Com base em gravações no local, ele desenvolveu um alfabeto, compilou um dicionário e está terminando um livro sobre a gramática.
Das seis mil línguas do mundo, duas mil são faladas na África. Muitas não têm forma escrita, algumas ainda não têm nome e várias outras provavelmente desaparecerão. Durante séculos, incentivos sociais e econômicos atuaram contra o kim e em favor do mende, uma língua usada amplamente na região, levando o kim à beira da extinção, especula Childs.
Já se foi a época em que linguistas de campo como Childs, um grupo espalhado que trabalha contra o tempo para salvar as línguas em risco de extinção do mundo - mais de três mil na última contagem -, anotavam dados em cadernos manchados e armazenavam sons em fitas cassete, destinadas a apodrecer em caixas. Hoje, os linguistas aderiram à tecnologia digital. Childs agora usa um gravador compacto e tem aplicativos que analisam os elementos de uma vogal em segundos ou comparam sons entre línguas.
Usando sistemas de informação geográfica, softwares que traduzem dados em mapas, ele e seus assistentes de pesquisa, Hannah Sarvasy e Ali Turay, localizam as vilas que não são encontradas em nenhum mapa oficial. "Existem várias razões para os linguistas desejarem preservar essas línguas", Childs disse, "mas para mim é mais uma coisa emocional. Não tem a ver com nobreza, é uma dívida do capitalismo. Essas pessoas estão em situação totalmente periférica."
Em sua nova forma digital, esse tipo de pesquisa fica mais acessível. Ela permite que projetos maiores compartilhem a herança linguística do mundo com um público mais amplo de professores e aprendizes, inclusive, quando possível, com os falantes originais.
O objetivo não é apenas salvar, mas reviver as línguas. Financiado pelo Hans Rausing Endangered Languages Project e o National Endowment for the Humanities, as gravações de Childs serão encaminhadas assim que seu estudo terminar e ele retornar ao seu posto de professor na Universidade Estadual de Portland, Oregon para um imenso banco de dados da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres (SOAS).
O diretor do arquivo de línguas em risco de extinção da SOAS, David Nathan, disse que o website da escola, elar.soas.ac.uk, deverá começar a compartilhar dados no final do verão da região. "O que estamos devolvendo à sociedade com a documentação de línguas é um novo gênero de material que não tem nenhum canal de publicação", ele disse.
Ou não tinha até agora. O novo gênero é realmente uma caixa de surpresas, contendo gravações de áudio de conversas e lendas populares, vídeos de músicas e danças e transcrições em texto. Mas como acontece com a maioria dos novos gêneros, este está vindo ao mundo com dores do parto.
A simples obtenção de gravações de qualidade pode ser difícil. As vilas de Nyandehun e Mosenten, por exemplo, não têm estradas nem infraestrutura. Com equipamentos mais avançados, baterias descarregam inesperadamente, a quilômetros de uma fonte elétrica. A umidade e a poeira se acumulam nas máquinas.
Além disso, alguns linguistas têm dificuldade para aprender a usar as novas máquinas. Para a maioria deles, áudio é apenas uma inconveniência no caminho da transcrição, Nathan disse. No passado, ele acrescentou, "a qualidade era tão ruim que o áudio era apenas uma evidência de que eles haviam ido ao local, um talismã mostrando que eles haviam ido a campo."
A relação entre linguistas e a tecnologia vai além do formato no qual os sons são gravados. Childs, que se lembra de quando trabalhava com computadores do tamanho de uma sala na época em que fazia doutorado, disse que teorias da linguagem muitas vezes se moldaram à semelhança dos instrumentos disponíveis.
No começo, contou, os linguistas imaginavam que a mente processava a linguagem com muitas regras e pouca armazenagem. "O que aconteceu com o tempo foi que mais e mais coisas foram introduzidas e registradas ao léxico, e isso meio que ocorreu em paralelo ao desenvolvimento da indústria de computadores que barateou a armazenagem de dados", ele disse.
A SOAS não está sozinha em sua tentativa de documentar línguas em risco de extinção. O Instituto Max Planck em Nijmegen, Países Baixos, tem operado um arquivo há 10 anos. O doutor Dagmar Jung, linguista de Colônia, Alemanha, está trabalhando com anciões da tribo Castor, ou Dane-Zaa, nas províncias canadenses da Colúmbia Britânica e Alberta para reunir material e torná-lo acessível através do portal da comunidade. "Ele está lá para as gerações futuras¿, Jung disse. "Mas no momento não é de fácil utilização."
Falantes de castor têm acesso online a gravações de suas músicas e histórias. Gary Oker, 49, ex-chefe da tribo Dane-Zaa, disse que colocar as gravações de anciões online era parte de um projeto para capturar visões do mundo tradicionais e torná-las parte do presente. Os jovens dane-zaa se envolveram no processo, desde a produção das gravações dos anciões que foram colocadas online ao uso das mesmas como material de referência na escola.
Embora tenha visto sua língua desaparecer, ele disse que como os jovens "haviam capturado sua tradição oral e a documentado de muitas formas", o contato os tornou "mais orgulhosos de sua história e de quem eles eram." As histórias, ele disse, ajudaram os jovens a descobrir sua identidade e como eles se relacionam com a terra.
Devido à exploração do petróleo e do gás, Oker disse, "nosso ambiente está mudando tão rapidamente que precisamos absorver o máximo possível." Mesmo se a língua for perdida, ele disse, "a sabedoria pode ser transmitida."
Obviamente, recursos online são úteis apenas para comunidades com acesso à Internet. Mas comunidades sem tal acesso, como a dos falantes de kim, ainda exigem livros impressos e gravações copiadas em CDs ou fitas. Também são promissores programas que colocam dicionários eletrônicos em celulares.
James McElvenny, um linguista da Universidade de Sydney, liderou o desenvolvimento de um software para ajudar a revitalizar línguas em risco de desaparecer. McElvenny tem trabalhado com grupos aborígenes como os Darug de Sydney para dar aos aprendizes, muitos com apenas 16 anos, uma referência portátil que fornece a definição e o som de palavras que não são mais faladas, visto que o darug é uma língua morta. "Muitos membros mais velhos têm aversão à tecnologia", ele disse, "mas os jovens estão realmente interessados." Quanto ao kim, tais esforços podem vir tarde demais. Uma língua, como uma pessoa, geralmente envelhece e morre. Quatro pessoas da comunidade morreram desde que o projeto de Childs começou e todos os 20 falantes fluentes de kim têm mais de 60 anos.
"As pessoas hoje não sabem falar kim porque seus pais não falavam a língua com elas", disse Fasia Kohlia, uma das melhores falantes de kim. "Os pais costumavam chamar seus filhos para dar de mamar em kim ¿ 'kun moga, kun moga, kun moga'", ela disse. Mas quando ela teve filhos, ela os chamava em mende.

Tradução: Amy Traduções
Imagem: Getty Images
Fonte: The New York Times
Notícia retirada daqui

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