quinta-feira, 4 de junho de 2009

Educação - A arte de atear o fogo I




A propósito do pensamento de Montaigne «A criança não é uma garrafa que há que encher, mas um fogo que é necessário atear.», lembrei-me de alguns autores que ao longo da história das ideias e da educação se aproximam desta necessidade de “atear o fogo” para que nas nossas crianças desperte e floresça o interesse e a motivação pelo conhecimento e pela aprendizagem desse conhecimento. Para desalento dos que lutam pela qualidade do ensino, olhando no horizonte, verificamos que a arte de atear o fogo nem sempre tem sido bem conduzida ao longo da História da Educação. Ora vejamos:

Desde a antiguidade que as preocupações com a Educação, nomeadamente, como se aprende, estiveram nas preocupações dos grandes pensadores. Por exemplo Platão na República diz-nos: “Quem é livre não deve aprender ciência alguma como uma escravatura. E que os esforços físicos, praticados à força, não causam mal alguma ao corpo, ao passo que na alma não permanece nada que tenha entrado pela violência. (…) Por conseguinte, meu excelente amigo, não eduques as crianças no estudo pela violência, mas a brincar, a fim de ficares mais habilitado a descobrir as tendências naturais de cada um.” (536e-537a).

Esta ilustre sentença foi reiterada ao longo de séculos e entronizada com especial insistência na nossa época. Nos últimos anos, na escola pública foram-se infiltrando teorias e modelos que valorizavam a instrução com a contrapartida da gratificação. Expressões como “aprender brincado” ou “aprendizagem lúdica” preencheram as preocupações das escolas e dos professores. Transformar o conhecimento em aprendizagens que proporcionem prazer tem sido uma preocupação levada ao exagero (1).

A formação dos professores e as medidas educativas dos últimos tempos estão impregnadas destes modelos e métodos pedagógicos que integram o lúdico e o prazer das crianças (2) que, em muito, têm conduzido o ensino pelo caminho do facilitismo, do prazer, da relativização das aprendizagens, de que tudo tem o mesmo valor, o que não é verdade. Uma das bandeiras do ensino na actualidade é também a contextualização das aprendizagens. Se a contextualização pode fazer algum sentido como ponto de partida para ver o que sabe o aluno de um determinado conteúdo, por seu lado, não faz qualquer sentido como ponto de chegada. Quero dizer com isto e corroborando com outros autores, os alunos vão à escola para aprender o que não os ensinam noutros lugares (Damião & Festas, 2006, Savater, 2006). Como alude Savater “o propósito do ensino escolar é preparar as crianças para a vida adulta, e não confirmá-las em regozijos infantis. E os adultos não se limitam a jogar, mas, sobretudo, esforçam-se e trabalham.” (Savater, 2006, 108).

Quero apenas acrescentar à ideia anterior que não há métodos ou modelos de excelência a tal ponto de adoptarmos um em exclusividade, em detrimento de outros, de experiências válidas e comprovadas científicamente. Harmonizar, talvez seja uma boa opção. No próximo post veremos outros caminhos que alvitram essa arte de atear o fogo nas nossas crianças.

(1) Explicarei em outro post porque considero que se levou ao exagero a aplicação destas medidas e métodos pedagógicos que apontam para a perspectiva lúdica do ensino. Em grande parte foram eles que conduziram ao estado actual do ensino aprendizagem. Basta recordar a sondagem publicada na passada 5ª feira (28.5.2009) na Revista Visão de onde ressalta um dos factores que mais tem contribuído para a menor qualidade da educação «os alunos não querem estudar» - 40,2%. Se eles não querem estudar, não dá que pensar? O que os conduziu até aqui a este estado de desprezo pelo estudo, pelo esforço, pelo conhecimento?

(2) Montaigne, um acérrimo defensor de que era inadmissível estímulo em matéria de ensino que não fosse o prazer do neófito. Entre muitos outros, Freinet e Maria Montessori também integram a perspectiva lúdica nos seus métodos pedagógicos.


Bibliografia consultada:
DAMIÃO, M. H. & FESTAS, M. I. (2006). Contextualização e relativização das opções curriculares: impacto nas (des)igualdades de oportunidades. Comunicação ao VII Colóquio sobre Questões Curriculares, Universidade do Minho – Braga.

SAVATER, F. (2006). O valor de Educar. Lisboa: Dom Quixote.

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