terça-feira, 9 de junho de 2009

"Da necessidade de receber"




Tenho conhecido muitas pessoas que se preocupam com os outros, que são extremamente generosas na hora de dar, e que encontram um profundo prazer quando alguém lhes pede um conselho ou apoio.

Até aí tudo bem – é ótimo poder fazer o bem ao nosso próximo.

Entretanto, tenho conhecido muito poucas pessoas que são capazes de receber algo – mesmo quando lhes é dado com amor e generosidade.

Parece que o ato de receber faz com que se sintam numa posição inferior, como se depender de alguém fosse algo indigno. Pensam: “se alguém está nos dando algo, é porque somos incompetentes para consegui-lo com o próprio esforço”. Ou então: “A pessoa que me dá agora, um dia irá cobrar com juros”. Ou ainda, o que é pior: “Eu não mereço o bem que me querem fazer”.

Por que agimos assim?

Porque nos custa entender que este universo é feito de dois movimentos. O primeiro é a expansão, rigor, disciplina, conquista; o segundo é a concentração, meditação, entrega.

Basta olhar o nosso coração (e não é a toa que o coração sempre foi identificado como o símbolo da vida) para compreender que são estas duas energias que o fazem bater, contrair-se e expandir-se no mesmo ritmo.

As muitas estrelas do céu estão emitindo luz, mas ao mesmo tempo estão sugando tudo a sua volta, naquilo que é conhecido pelos físicos como força de gravidade.

Assim, os atos de dar e de receber, embora sejam aparentemente opostos, fazem parte do mesmo e contínuo movimento.

Não é melhor quem dá com generosidade, nem é pior quem recebe com alegria. O amor é, justamente, fruto destas duas coisas.

In Paulo Coelho

1 comentário:

Carlos Pires disse...

Eu não sou religioso. Desconfio que, mesmo que fosse religioso (suponhamos que católico,) não gostaria de imensas coisas na religião (católica): os santos, as beatificações a martelo, a criminosa recusa dos anticonceptivos, as perseguições religiosas, a disciplina de Educação Moral e Religiosa (Católica), etc.
Mas, no mundo complicado em que vivemos, isso não me impediria de praticar essa religião. O que se relaciona facilmente com a minha prática actual de ateu: tenho - por exemplo - muito respeito pessoal e intelectual por pessoas que consideram imoral usar anticonceptivos,apesar de discordar completamente delas.

Mas, o que escapa completamente a todo e qualquer esforço de racionalização, é o facto de alguém se dar ao meritório trabalho de manter "aberto" um espaço como este blogue e depois citar alguém tão medíocre, superficial, supersticioso, charlatão, estúpido e irracional como Paulo Coelho.

Eu não não sou religioso, mas se fosse tentaria aproximar a religião do pensamento racional (filosofia, ciência...).