quinta-feira, 21 de maio de 2009

Da Leitura


"Interiorizada em prazer, a musicalidade da palavra ouvida não mais se perderá, ainda que se altere a situação de contacto com o texto. No acto de ler, com efeito, recolhemo-nos para não sermos importunados e estamos fisicamente sós, mas com a gratificante sensação de uma solidão acompanhada. No silêncio fecundo da leitura, espreitam-nos as palavras, que soam em diferentes tonalidades e se agitam na construção de um mundo, pelo qual nos evadimos. Já não é necessário esperar por alguém, porque o gesto pertence-nos e depende apenas da nossa vontade. (...)

Na aventura da palavra ouvida, ou lida, treinamos a imaginação, aprendemos a tocar com os olhos o que nos seduz, alimentamos a sensibilidade para o Belo, nele incluindo a Natureza, recolhemos experiências das situações vividas pelas personagens, estreamo-nos na convivência com o mistério, que é preciso desvendar, actos que estimularão a criatividade e ajudarão a despertar a amizade pela ciência e pela arte.

O que sente o cientista perante a Natureza senão espanto e encantamento? Observando e folheando esse grandioso livro, estímulo da sua curiosidade, o cientista procura, como salientou Galileu, aprender a entender a língua, e a conhecer os caracteres em que está escrito (13), no intuito de interpretar com rigor aquilo que parecia impenetrável. Também nós, ouvindo quando crianças as histórias de fadas, desabrochamos quão misterioso, belo e exuberante é o espectáculo da Natureza.

Aprendemos Geografia, acompanhado cavaleiros, príncipes ou futuras princesas, e atravessando com eles aldeias e cidades, rios de corrente calma ou turbulenta, montanhas escarpadas, grutas tenebrosas ou planícies infindas, acabando por adormecer ao relento, sob o luar ou uma cúpula de estrelas; ou olhando, também preocupados, o caudal ameaçador do rio que a chuva torrencial engrossou, mas que o barqueiro ousará passar para salvar a princesa; ou ouvindo o uivo arrepiante e cortante do vento norte, que, condoído, se deitará a dormir para não fazer medo à menina, afligida com as tormentosas botas de ferro; ou assistindo, ainda agradecidos, à bondade da lua cheia que serena a preocupação do cavaleiro perdido, alertando-o para o caminho tortuoso e cheio de profundos abismos, que terá de percorrer antes de amanhecer. A Botânica surge nas ervas milagrosas que uma fada velhinha vai apanhar a lugar distante, e só dela conhecido, com as quais curará quem encontrar em aflição ou a procurar; também no bosque frondoso e enfeitiçado que é preciso atravessar, em busca de um imponente carvalho milenar que guarda o segredo de um tesouro; como ainda no florir deslmbrante de uma macieira, de cusjas flores resultarão belas maçãs, milagrosamente doiradas e com o dom de satisfazer três pedidos. Num esboço de Zoologia, familiarizamo-nos com nomes de pássaros, reconhecendo o canto da cotovia ao amanhecer ou o do rouxinol ao chegar da noite, a que se junta o piar de «mau agoiro» da coruja. Marcamos encontro com a Física e a Química, suspirando pela vinda do sol para derreter a neve que prende a perna da formiguinha, que quer «voltar para a sua vidinha», ou que isolou e aprisionou o rei caçador num velho casebre; ou quando presenciamos, também em aflição, o fogo na floresta e desejamos a salvação dos animais, que fogem assustados e em pânico por causa do fogo esfixiante. Visita-nos a Matemática em alqueires de trigo, arrobas de batatas, dúzias de ovos ou de maçãs mágicas, milhares de moedas de oiro, ou em números mágicos, como o 3, o 7 e o 40. Até a Mitologia nos presenteia a imaginação com montros que, não existindo, existem e persistem no nosso imaginário: dragões, sereias, bichas-de-sete-cabeças.

O Tempo encarregar-se-á de sustentar e fortalecer gradualmente esse sentimento afectivo pela ciência e também pela arte. Por exemplo, duas pequeninas cabaças compradas na Feira de Cintra, em saudade de uma história de infância, lembraram à Ana Luzia dois cisnes, enlaçados amorosamente. Uma construção de magia impressionista, selada na fotografia, que se reproduz. A necessidade da escrita pode igualmente advir do mundo colorido, variado e pelno de sinestesias dos contos de fadas, visualizado em descrições, que aprendemos a amar e a compor, e que suscitaram o intenso desejo de também comtar uma história."



Notas:
(13) Italo Calvino, "O Livro da Natureza em Galileu", in Porquê Ler os Clássicos?

2 comentários:

Licas disse...

Fátima
Muito obrigada mais uma vez pela correcção feita.
Não fico nada aborrecida, mas pelo contrário ...
Gosto de corrigir sempre os meus erros e aprender com eles.
A informação que dei fui buscá-la à internet, mas até é bom que alguém a critique para que eu e os meus leitores fiquemos mais eliciados.
Sempre grata
Isabel

ematejoca disse...

Minha cara Fátima, eu bem gostava, que fizesse reparos na caixa de comentários do "ematejoca azul". Eu copiei da Licas "Ascensão", pois eu nunca sei quando é o "Corpo de Deus" ou "Ascensão". Só sabia, que o Dia do Pai na Alemanha se festeja num feriado 40 dias depois da Páscoa, mas não sabia qual!

Foi um dia muito agradável com toda a família, sendo a Ema a pessoa principal da festa.

Boa noite!

PS: Gosto muito de ler os romances do italiano Italo Calvino.