quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um estudo

Tese de Doutoramento em Estudos da Criança - Área de Conhecimento de Língua Portuguesa
Universidade do Minho
Título: Para a caracterização do contexto de ensino-aprendizagem da literacia no 1º ciclo de escolaridade : das competências dos alunos às concepções e práticas dos professores
Autor: Pereira, Iris Susana Pires
Data: 2008-06-26

Resumo:
No capítulo 1 deste trabalho, discute-se a ideia de que, em contexto escolar, a literacia, entendida como o processo de construção de significados veiculados pela linguagem escrita, é uma prática transversal, mas também plural e situada porquanto implica a utilização de diferentes variedades de linguagem, cada qual definida por um domínio do conhecimento específico. Argumenta-se que, por essa razão, as variedades de linguagem com que se representa o conhecimento escolar são singulares relativamente àqueles que as crianças inicialmente dominam, com as quais representam os significados emergentes dos contextos sócio-culturais quotidianos. Ainda neste capítulo, fundamenta-se a dimensão situada da linguagem da escola através da descrição e análise do funcionamento dos demonstrativos anafóricos, mostrando-se a sua adequação à representação de variáveis de significado realizadas em textos que se lêem e escrevem nas diferentes áreas de conhecimento escolar. No capítulo 2, assume-se a ideia de que a aprendizagem do conhecimento escolar depende da aprendizagem da singularidade dos padrões linguísticos usados para representar esse conhecimento, defendendo-se, por isso, que o objecto da pedagogia da literacia, delimitada ao espaço curricular constituído pela aula de língua, é essa singularidade. Argumenta-se que a implementação de uma pedagogia que tenha por objectivo promover o ensino-aprendizagem da ‘linguagem da escola’ poderá potenciar o sucesso escolar de todos os alunos. Além disso, descreve-se uma proposta de estruturação da pedagogia da literacia em quatro princípios, nomeadamente o de ‘prática situada’, o de ‘ensino explícito’, o de ‘enquadramento crítico’ e o de ‘prática transformada’, que são linguística e psicologicamente fundamentados. No capítulo 3, introduz-se o estudo empírico realizado, que foi, em primeira instância, desencadeado pelas dificuldades em literacia reveladas pelos alunos portugueses. Esse estudo consistiu na caracterização do contexto escolar de ensinoaprendizagem da literacia, já que as dificuldades em literacia se têm vindo a atribuir na literatura relevante à configuração de contextos caracterizados pela existência de uma descontinuidade entre as necessidades de aprendizagem dos alunos, colocadas pela singularidade da linguagem escolar, e o sentido das práticas pedagógicas dos seus professores, que não são as mais adequadas para sanar essa dificuldade linguística. Em consequência, o estudo implicou duas sub-unidades de análise do contexto escolar de ensino-aprendizagem da literacia, cada qual associada a um objectivo específico: (i) a capacidade dos alunos de construírem os significados realizados por estruturas linguísticas tipicamente escolares, com o objectivo de conhecer o grau de dificuldade que mostram nessa actividade, e (ii) a pedagogia da literacia implementada pelos seus professores, com o objectivo de a caracterizar. No estudo, seguiu-se uma estratégia investigativa de ‘múltiplos casos’, mais concretamente de quatro contextos de ensino-aprendizagem da literacia, constituídos por duas turmas de alunos do 3º e duas do 4º ano do 1º ciclo de escolaridade e respectivas professoras. No capítulo 4 deste trabalho, apresentam-se os resultados da caracterização da primeira sub-unidade em análise, realizada com base na análise quantitativa (e qualitativa) de dados recolhidos com a aplicação de uma prova especificamente construída para o efeito, centrada na compreensão dos demonstrativos anafóricos em diferentes textos com representatividade escolar. Esses resultados revelam que a construção dos significados veiculados por essas estruturas causou bastantes dificuldades aos alunos, embora diferenciadas segundo o seu ano de escolaridade. No capítulo 5, apresentam-se os resultados da caracterização da pedagogia da literacia, obtida com base na análise qualitativa de dados recolhidos numa entrevista e em actividades que foram solicitadas aos professores dos mesmos alunos para os textos da prova. Essa análise mostra como a linguagem não é reconhecida como objecto de ensino-aprendizagem e como, consequentemente, não se realiza um trabalho pedagógico adequado para que os alunos ultrapassem as suas dificuldades linguísticas. O último capítulo deste trabalho apresenta a principal conclusão que emerge da convocação dos resultados do estudo de cada uma dessas sub-unidades de análise, nomeadamente a de que os contextos escolares de ensino-aprendizagem da literacia que estudámos se caracterizam, efectivamente, pela existência de uma descontinuidade entre as necessidades que os alunos enfrentam no processo de construção dos significados veiculados pelos textos escritos que circulam na escola e as práticas pedagógicas dos seus professores, e discute algumas das explicações possíveis para este estado de coisas. Argumenta-se, por fim, que estes resultados corroboram empiricamente as proposições teóricas que sustentaram a realização inicial da investigação, pelo que se pode considerar que a principal aportação deste trabalho é a da generalização de um quadro teórico no âmbito da (pedagogia da) literacia, discutindo-se possíveis caminhos de investigação e de intervenção que são desencadeados pela generalização dessa teoria.

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