quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ensaio sobre Educação

Ensaio

Título: O ENSINO BÁSICO VAI DE MAL A PIOR
uma abordagem pedagógica e política

Autor: CARLOS PAIVA
Editora: Editorial Minerva
Ano de Edição: 1ª ed. Outubro de 2008


Excertos:

A agressão no Carolina Michaellis e o «estatuto» da educação
(...)
Comentadores que defendiam uma permissividade colaborante para com actos de indisciplina e de falta de educação saltam, com rapidez e agilidade, para a defesa de um autoritarismo proibicionista em que os telemóveis nem sequer devem entrar nas escolas. Alguns psico-pedagogos perdem-se em emaranhados justificativos, enquanto há interventores políticos que aproveitam o assunto para estabelecer paralelos com a falta de segurança nas ruas.
O tempo passa e depois, como de costume, a notícia deixa de o ser, a discussão esmorece, outros títulos fazem «manchete» e o assunto volta para o limbo do esquecimento. Afinal, casos como este, há-os todos os dias. Alguns, muito mais graves, nunca tiveram direito a meia linha de uma página a cinco colunas de um qualquer jornal local. Durante o ano lectivo de 2006/07 houve, em média, um professor agredido por cada um dos 180 dias de aula.
(...) Pág. 26

O erro reproduz-se
(...)
A origem do erro está na incompreensão que do esforço, da insistência correctamente trabalhada, pode sair o objectivo alcançado, o gosto pelo trabalho e a verdadeira auto-estima não falsificada, a vontade em melhorar e aprender a ser responsável. O erro aceite começa e acaba na desvalorização do trabalho.
A superação do erro passa por uma auto-avaliação responsável, pela interrogação inteligente, pela procura de respostas e pelo sentido crítico, passa necessariamente por um mar de aprendizagens e pela consciência de que as portas que o trabalho – sempre ele – pode abrir, dão para caminhos onde tantas mais portas de outros tantos caminhos há por abrir.
O modelo psico-romântico-construtivista tem erros, mas errada é a própria forma como encara o erro.
(...) Pág. 120

Avaliação: a arma, o medo e a democracia
(...) [sobre o Decreto Regulamentar n.º 2/2008, que trata da Avaliação do Desempenho]
O aparecimento de um apertado esquema de avaliação de professores, que esse decreto tenta concretizar, utiliza o conceito de avaliação de uma maneira totalmente distinta da forma como ele existe integrado no modelo de cariz pedagógico, aplicado aos alunos. É necessário comparar-se a avaliação que se pretende que os professores pratiquem junto dos alunos com aquela que o Ministério PS pretende exercer sobre os professores. Na primeira, pretende-se que ela sirva para caucionar, de forma enganosa, os resultados pretendidos. Na segunda, a avaliação é uma forma de pressão para que os professores não avaliem negativamente os alunos.
(...) Pág.194

A investida de Inverno
(...)
O outro insucesso, o real, o que determina a vida dos alunos, permanecerá escondido, poderá aumentar livremente, fora do controlo da avaliação credível, do bom senso e do interesse nacional. O director vai poder exercer um poder discricionário sobre tudo o que sente, ouve, cheira, prova, vê ou simplesmente intui. O novo regime de autonomia, administração e gestão das escolas acaba com a gestão democrática.
O director vai chegar. Desencantaram-lhe uma vestimenta a preceito a que sacudiram o pó. O novo director vem aí, com um casaco puído e mofento de um velho reitor já morto. O director vem a caminho. Está mesmo quase aí, o Senhor Director. Num ápice surgiu. Ei-lo – aí está:
Projecto de Decreto-Lei sobre o novo regime de autonomia, administração e gestão das escolas, tornado público a 21 de Dezembro de 2007.
O primeiro princípio orientador da totalidade do decreto-lei que «aprova o regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário» é:

«a) Promover o sucesso e prevenir o abandono escolar dos alunos e desenvolver a qualidade do serviço público de educação, em geral, e das aprendizagens e dos resultados escolares, em particular;» (Capítulo I – Disposições Gerais – Artigo 4.º - Princípios orientadores – Ponto 1 alínea a)).

O texto introdutório faz algumas considerações sobre «as necessidades identificadas e os objectivos definidos no programa do governo». O segundo objectivo enunciado – reforçar a liderança – ocupa 22 linhas de texto. Nas oito primeiras, surge 5 vezes a palavra «liderança» ou «lideranças» e uma vez a palavra «autoridade». Assinala-se que esse objectivo se concretiza pela criação do cargo de director, «mas constituindo um órgão unipessoal e não um órgão colegial».
(...) Pág. 232

7. Conclusões
(...)
As razões de ordem pedagógica, embora de forma nunca assumida, foram, progressivamente, perdendo importância face a motivações de ordem política. Os Ministérios da Educação dos vários governos assenhorearam-se do modelo psico-romântico de fachada construtivista, desviaram-no para utilizações partidárias, utilizaram-no e continuam a servir-se dele para angariar votos. A política educativa tornou-se um instrumento de acção política ao serviço da manutenção ou da conquista do poder. O rotativismo que tem caracterizado o nosso regime democrático vulgariza esta utilização, a que nenhum partido é imune. A qualidade do ensino tem sido fortemente prejudicada por factores de ordem política.
(...) Pág. 282

In http://demalapior.no.sapo.pt/ (blog do autor da obra supra)

2 comentários:

Angel of Light disse...

Olá querida!

Vim aqui parar através da nossa querida Elisa...

Sou mãe de três lindas crianças, três príncipes, 9, 7 e 3 anos e, apesar de fazermos um esforço ENORME por tentar mantê-los num colégio particular, tenho sentido e, de certa forma, vivido, o que se está a passar actualmente no nosso país a nível da educação, principalmente no público. A ginástica económica é gigantesca porque são 3 filhos, mas, até conseguirmos, fugiremos do público... com alguma tristeza. O público deveria dar o exemplo... nós pais, de famílias numerosas, e os outros também, deveriamos ter "mais carinho" do estado a nível de educação e é com uma lágrima no olho que olho para tudo o que se está a passar... E quem se prejudicará, no futuro, não são os pais, não são os professores,... mas sim os alunos, as crianças que estão completamente colocadas de lado. Aquilo que não se fizer hoje com as crianças do agora, já não se conseguirá fazer no amanhã. Ser professor deixou de ser uma profissão onde se ensina... crianças, para passar a ser uma profissão onde de avalia... o colega. Mas tenho esperança que tudo dê a volta! O mundo está a mudar... e a educação em Portugal seguirá, por certo, o mesmo caminho.

Até lá continuarei a dar uma boa educação aos meus 3 príncipes porque, de facto, se mantivermos, bem acesa, a Luz que brilha dentro de nós, tudo se tornará mais claro! E eles já perceberam isso... =)

Beijinhos de Amor, Paz e Luz!

Fátima André disse...

Obrigada angel of light pela sua participação neste debate e "combate" que é de todos nós, pais, educadores, professores. Obrigada também pelo seu testemunho de mãe atenta. Gostava de poder discordar de si por outras razões (boas), mas tem toda a razão no quadro que pinta sobre o estado da actual educação. Infelizmente a escola pública corre sérios riscos, não porque não tenha bons professores e até profissionais de excelência, mas porque as políticas educativas que a norteiam estão demasiado "infectadas". Coisas das pseudo-pedagogias que até os teóricos que as ensinam nas universidades, nelas não acreditam. Se acreditassem tinham os filhos na escola pública. Pelo que sei e da realidade académica com a qual lido, poucos são os que são congruentes com o que ensinam. Tenho uma colega, professora Universitária que tem os seus dois filhos no ensino público, defende a escola pública, mas com exigência e o rigor no ensino. Um dos poucos exemplos de teóricos que jogam com a congruência no discurso e na acção. Digamos que defende os valores em que acredita.
Amanhã público uma breve entrevista com esta professora a que me refiro (Doutora Helena Damião), mas tenho aqui no blog vários textos publicados da sua autoria.
Um caloroso abraço de Luz :)