domingo, 7 de setembro de 2008

Hora da Poesia

As luzes da bruma da manhã


"As luzes da bruma da manhã
Há os que não sentem
o apelo do transcendente
que "vivem" num lugar determinado
que não estendem o olhar para o longe
que não procuram "um país inocente".

Trabalham de olhos na terra
e não têm tempo
não sabem o sabor do sol
não conhecem os nomes
que falam de amar
não gritam, não cantam
não se despem nunca.

Não vêem as uvas em cachos verdes
na ramada, a frescura do vento
o espaço dançando aberto e cheio
de perfume de algas e de mel do favo
não vêem as luzes da bruma da manhã
pousadas nas árvores ou a boiar na água
não ouvem a vibração do mar distante
não procuram captar o nada
o centro imóvel do mundo
o secreto absoluto.

Nada sabem de eterno retorno
de formas, de palavras tão leves
que não magoam o silêncio
não se sentem nunca respirar
em uníssono com o Universo.

Cegos, Mudos, Surdos
insensíveis às presenças intocáveis
trabalham de olhos na terra
e vêem apenas os vermes, os buracos
as pedras escuras, as ervas secas
e o que está por fazer."

Zilda Cardoso


Nota: O fio de Ariadne, da escritora Zilda Cardoso, um blog a não perder.
Obrigada Zilda pelas palavras de apreço que me deixou e que me encheram de uma comoção boa.

5 comentários:

IC disse...

Bem ando a precisar de poemas e das mensagens que eles contêm! Gostei de ler este :)
E obrigada pela chamada de atenção para o blogue de Zilda Cardoso. Ando muito circunscrita à blogosfera de professores e devo a mim mesma ultrapassar isso.
Um abraço

Teresa disse...

Quando há poesia sou eu sempre a primeira a chegar. O blogue "O fio de Ariadne" visito-o regularmente.

Bom Domingo!

RENARD disse...

Sem dúvida um talento a ser seguido com atenção. Parabéns à poetisa e a ti Fátima pela sensibilidade que tens para encontrar irmãos bloguistas que valem o nosso tempo e atenção!

Um beijo miga

Kleine Hexe disse...

Gostei muito do poema...diz tanto e "tanto por fazer" - não poderia ser mais verdadeiro.
Obrigada Fátima por partilhares.
Beijinhos Mil =)

1/4 de Fada disse...

Que poema tão rico e tão cheio de sentimento. Obrigada pela partilha, não conhecia a autora, vou passar a ler assiduamente o seu blog.