sexta-feira, 8 de agosto de 2008

As minhas leituras de Verão II

Auto da Alma
, de Gil Vicente

Argumento

“O homem é um composto de duas substâncias – corpo e alma. O corpo parece representar tudo para o homem, que esquece, portanto, quanto respeita ao espírito. Por isso, ele constrói estalagens, onde encontra alimento condigno para as suas exigências corpóreas.

Não resta dúvida, entretanto, que se torna indispensável prover às exigências da alma. Para tanto, Cristo deixou na terra a Igreja, que constituirá pousada-refúgio.

A alma, no intuito de caminhar para a salvação, sente a viva oposição das suas tendências corporais, personificadas no Diabo. Vê-se, desta forma, em luta violenta, solicitada, ora para o Bem, ora para o Mal.” (p.7)


Aqui fica um pedacinho da obra supracitada. Para os interessados que a não tenham em livro, podem aceder a ela na lista infra dos e-books [aqui] e fazer o download (106).

ANJO
Alma humana, formada
De nenhüa cousa feita,
Mui preciosa,
De corrupção separada,
E esmaltada
Naquela frágua perfeita,
Gloriosa!
Planta neste vale posta
Pera dar celestes flores
Olorosas,
E pera serdes tresposta
Em a alta costa
Onde se criam primores
Mais que rosas;
Planta sois e caminheira,
Que, ainda que estais, vos is
Donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
É ser herdeira
Da glória que conseguis:
Andai prestes.
Alma bem-aventurada,
Dos anjos tanto querida,
Não durmais;
Um ponto não esteis parada,
Que a jornada
Muito em breve é fenecida,
Se atentais.

ALMA
Anjo, que sois minha guarda,
Olhai por minha fraqueza
Terreal:
De toda a parte haja resguarda,
Que não arda
A minha preciosa riqueza
Principal.
Cercai-me sempre ó redor
Porque vou mui temerosa
De contenda.
Ó precioso defensor
Meu favor!
Vossa espada lumiosa
Me defenda!
Tende sempre mão em mim,
Porque hei medo de empeçar,
E de cair.

Notas de leitura:
Neste excerto, o Anjo recorda à Alma a sua nobre origem, dignidade e destino. Deste modo, o mundo é apenas um caminho para Deus. Assim como as flores, a alma desdobrar-se-á em virtudes odorosas que lhe darão entrada na verdadeira pátria celeste. Por isso, ela não deve interromper a marcha, pensando que a viagem é curta.

Por seu lado, a alma, convicta da sua fragilidade e consciente das tentações do inimigo, pede a protecção do anjo e luz para o seu entendimento, a fim de que possa resistir a todas as solicitações.

Obra consultada:
Auto da Alma, Gil Vicente. Edição de Manuel dos Santos Alves. Lisboa, 1979.


Se quiser assistir à peça on-line (em vídeo), ou saber mais, aceda [aqui].

4 comentários:

Teresa disse...

Sempre gostei muito de ler o Gil Vicente. Hei-de mais tarde mencionar as minhas leituras de Verão.
Estou a passar duas semanas em Portugal. Nesta altura ´-me impossível ver alguém da nossa tribo.
No Outono penso voltar!

Teresa disse...

Espero, que ainda possa ver este vídeo, quando chegar à Alemanha. Aqui nao tenho tempo. Só vou à internet quando estou na casa da minha filha, em Gaia.
Dentro de uma semana estou em D´dorf.
Abraços tribais!

Fátima André disse...

Viva, Teresa,
que bom saber que está por terras lusas e junto à sua família.
De facto agora não é a melhor altura para reunir a Tribo. A maioria das pessoas está de férias, com as famílias, outras até sairam para o estrangeiro. Quando a Teresa voltar a Portugal, parece-me bem. Depois combinamos com antecedência porque o grupo está a crescer...
Continuação de boas férias!
Um abracinho tribal :)

Teresa disse...

Bem, a maior parte da minha família vive na Alemanha. Aqui, em Portugal, só vive a minha filha mais velha.
Penso voltar no Outono, mas dessa vez com o meu marido.
Quando chegar a Duesseldorf mando-lhe um @mail a explicar tudo.
Saudações de Vila Nova de Gaia!