sábado, 19 de julho de 2008

"A Maldade Humana - Fatalidade ou Educação?"

Para o leitor ganhar “apetite” à leitura da obra infra mencionada (no post anterior) aqui fica uma breve recensão crítica.

A maldade humana
Por Helena Damião (Prof. FPCE.UC)

O livro em destaque chama-nos à atenção, em primeiro lugar, pela magnífica capa da autoria de Ana Boavida: é uma capa que nos conduz ao título (que, num toque de originalidade, consta na lombada e na contracapa) e, a seguir, às suas trezentas e muitas páginas. Pelo menos foi o percurso que eu fiz quando explorei esta obra que reúne algumas das comunicações apresentadas num congresso sobre o tema A maldade humana: fatalidade ou educação, que o Centro de Psicopedagogia da Universidade de Coimbra levou a cabo no ano de 2006.
Sendo difícil imaginar a face da Maldade, esta imagem, pela solidez e despojamento em que assenta e pelo embate que a sua estranheza provoca, permite espreitar essa característica tão profundamente humana e, ao mesmo tempo, tão desconhecida, ao ponto de causar espanto quando se insinua ou se manifesta.
Quanto ao conteúdo do livro: são quinze capítulos assinados por especialistas nacionais e estrangeiros de diversas áreas disciplinares, desde a psicologia, biologia, neurociências, passando pela pedagogia e pela ética. Alguns concentram-se numa reflexão de cariz teórico, outros apresentam e discutem estudos empíricos realizados em diferentes contextos: escolares, familiares, judiciais, sociais, etc.
Para deixar ao leitor uma ideia mais concreta desse conteúdo, escolhi duas passagens de dois capítulos distintos que problematizam de modo particularmente interessante o subtítulo Fatalidade ou Educação: um intitula-se A "normalização da maldade": uma nova perspectiva acerca das raízes psicológicas do ódio colectivo, e foi escrito por Stephen Reicher, da Universidade de St. Andrews, Escócia e S. Alexander Haslam, da Universidade de Exeter, Inglaterra; outro intitula-se Prevenção da delinquência e do comportamento anti-social e foi escrito por David P. Farrington, do Instituto de Criminologia da Universidade de Cambridge, Inglaterra.
“A haver um fenómeno que seja emblemático do século XX, será o da mecanização do assassino em massa. As máquinas que no início do século pareciam assegurar o progresso crescente da espécie humana, no final pareceram simplesmente tornar mais eficiente a nossa capacidade para agravar a profundidade da depravação. Para alguns, esse tipo de assassinato foi a prova de que o atavismo da humanidade era, simultaneamente, mais poderoso e mais saliente do que aquilo que os optimistas poderiam inicialmente supor. Para outros, essas matanças demonstravam os perigos contidos no âmago da própria modernidade (…) Qualquer que seja a posição de cada um de nós relativamente a esse assunto, a verdade é que nenhuma avaliação ponderada da condição humana poderá escamotear o fenómeno da matança, em si mesmo” (Reicher & Haslam, página 31).
“Os estudos de elevada qualidade de avaliação de programas mostram que muitos são eficazes na redução da delinquência e do comportamento anti-social (…). É tempo de desenvolver e amplificar uma estratégia nacional, baseada nas provas empíricas já disponíveis, para a redução do crime e dos problemas sociais a ele associados, incluindo a avaliação rigorosa da situação vivida em cada país (…). Do mesmo modo que a prevenção primária tem sido eficaz na melhoria dos povos, esta pode vir a ser igualmente bem sucedida na redução da delinquência e do comportamento anti-social em todos os países” (Farrington, 353-354).
Se a primeira passagem direcciona-nos o olhar para o passado, numa tentativa de compreendermos a maldade no presente; a segunda direcciona-nos o olhar para o futuro, como modo de a prevenirmos e/ou reduzirmos.
É deste duplo olhar que precisamos na educação pois, apesar de termos perdido a ilusão iluminista de que ela faz desaparecer todos os males do mundo - como fizeram notar em Portugal, Adolfo Coelho ou Guerra Junqueiro -, quem tem responsabilidades educativas não pode deixar de acreditar que ela contribui para resolver ou minorar alguns deles.

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