domingo, 1 de junho de 2008

Hora da Poesia IV


Poema sobre os direitos da criança

1.
A criança
Toda a criança.
Seja de que raça for
Seja negra, branca, vermelha ou amarela,
Seja rapariga ou rapaz.
Fale a língua que falar,
Acredite no que acreditar,
Pense o que pensar,
Tenha nascido seja onde for,
Ela tem direito…

2.
…A ser para o homem a
Razão primeira da sua luta.
O homem vai proteger a criança
Com leis, ternura, cuidados
Que a tornem livre, feliz,
Pois só é livre, feliz
Quem pode deixar crescer
Um corpo são,
Quem pode deixar descobrir
Livremente
O coração
E o pensamento.
Este nascer e crescer e viver assim
Chama-se dignidade.
E em dignidade vamos
Querer que a criança
Nasça
Cresça,
Viva…

3.
E a criança nasce
E deve ter um nome
Que seja o sinal dessa dignidade.
Ao sol chamamos Sol
E à vida chamamos Vida
Uma criança terá o seu nome também.
E ela nasce numa terra determinada
Que a deve proteger.
Chamemos-lhe Pátria a essa aterra,
Mas chamemos-lhe antes Mundo…

4.
…E nesse mundo ela vai crescer:
Já a sua mãe teve o direito
A toda a assistência que assegura um nascer perfeito.
E, depois, a criança nascida,
Depois da hora radial do parto,
A criança deverá receber
Amor,
Alimentação
Casa,
Cuidados médicos,
O amor sereno de mãe e pai.
Rir,
Brincar,
Crescer,
Aprender a ser feliz…

5.
…Mas há crianças que nascem diferentes
E tudo devemos fazer para que isto não aconteça.
Vamos dar a essas crianças um amor maior ainda.

6.
E a criança nasceu
E a desabrochar como
Uma flor
Uma árvore,
Um pássaro,
E
Uma flor,
Uma árvore,
Um pássaro
Precisam de amor – a seiva da terra, a luz do sol.
De quanto amor a criança não precisará?
De quanto amor a criança não precisara?
De quanta segurança?
Os pais e todo o mundo que rodeia a criança
Vão participar na aventura
De uma vida que nasceu.
Maravilhosa aventura!
Mas se a criança não tem família?
Ela tê-la-á sempre: numa sociedade justa
Todos serão sua família.
Nunca mais haverá uma criança só
Infância nunca será solidão.

7.
E a criança vai aprender a crescer.
Todos temos de ajudar!
Todos!
Os pais, a escola, todos nós!
E vamos ajudá-la a descobrir-se a si própria
E aos outros.
Descobrir o seu mundo,
A sua força,
O seu amor,
Ela vai aprender a viver
Com ela própria
E com os outros:
Vai aprender a fraternidade,
A fazer fraternidade
Isto chama-se educar:
Saber isto é aprender a ensinar.

8.
Em situação de perigo
A criança, mais do que nunca,
Está sempre em primeiro lugar…
Será o sol que não se apaga
Com o nosso medo,
Com a nossa indiferença:
A criança apaga, por si só,
Medo e indiferença das nossas frontes…

9.
A criança é um mundo
Precioso
Raro
Que ninguém a roube,
A negoceie,
A explore
Sob qualquer pretexto.
Que ninguém se aproveite
Do trabalho da criança
Para seu próprio proveito.
São livres e frágeis as suas mãos,
Hoje:
Se as não magoarmos
Elas poderão continuar
Livres
E ser a força do mundo
Mesmo que frágeis continuem…

10.
A criança deve ser respeitada
Em suma,
Na dignidade do seu nascer,
Do seu crescer,
Sado seu viver.
Quem amar verdadeiramente a criança
Não poder
Á deixar de ser fraterno:
Uma criança não conhece fronteiras,
Nem raças
Nem classes sociais:
Ela é o sinal mais vivo do amor,
Embora, por vezes, nos possa parecer cruel.
Frágil e forte, ao mesmo tempo,
Ela é sempre a mão da própria vida
Que se nos estende, nos segura
E nos diz:
Sê digno de viver!
Olha em frente!

Matilde Rosa Araújo

6 comentários:

Maria do Carmo Cruz disse...

Fátima, comecei a ler, disse para comigo "Olá, de onde é que eu conheço isto? Vamos ler devagarinho, a ver se me lembro..." e dou-me com a minha Querida Tila. A Tila foi a minha metodóloga Itinerante em 1973/74, quando fiz estágio, porque embora eu seja de Germânicas fiz estágio em Português e Inglês numa Escola Comercial. Deu-me uma nota muito alta, a Tila, mas sei por que foi. O merecimento não foi bem meu. Foi por causa de uma aula que ela veio "apanhar" de surpresa, nada mais nada menos do que sobre Sebastião da Gama.
Havias de ver, ela a falar dele, a rapazes do agora chamado 9º ano (só rapazes), todos com os olhos vidrados de lágrimas ou com elas a correr mesmo. Ainda hoje me comovo a pensar nela e na sua feminilidade. O Livro da Tila! Obrigada por ma teres trazido hoje. Beijo, Carmo

Teresa disse...

Este poema da Matilde Rosa Araújo, Fátima, também nao me é de todo desconhecido. De qualquer maneira, fez muito bem em o ter postado. E tenho pena de nao ter um depoimento tao importante no meu.
Precisamente hoje Dia da Crianca, apesar que todos os dias sao dias das criancas, a Ema, a minha gaivotinha voou para o Porto, onde vai ficar 3 semanas.
Estou a ler aqui no seu blogue "Criancas, o dia é inteiramente vosso", no meu caso eu diria: "Crianca (Ema) os meus dias sao inteiramente teus".

Agora sigo para o Eugénio de Andrade.

Fátima André disse...

Carmo e Teresa, fico muito feliz saber que este poema de Matilde vos trás boas memórias. Do passado ou do presente é sempre bom reviver momentos únicos e irrepetíveis.

Encontrei este poema da Matilde há dois ou três anos numa recolha de material que fiz na net sobre os Direitos Humanos. Infelizmente, por lapso na altura, não coloquei a fonte de onde o tirei. Também não sei a qual obra de Matilde pertence este magnífico poema. Se alguém souber, eu fico muito grata pela informação.
Um abraço a ambas :)

Fátima André disse...

Ainda para a Teresa, quase me esquecia... se gostou muito deste poema pode levá-lo para o seu blog. Esteja inteiramente à vontade. Pode "roubar-mo", eu deixo.
:)

Teresa disse...

Obrigada Fátima, já levei para o meu blogue. Algumas pessoas que leem o seu blogue também leem o mae. Mas como é tao bonito nao faz mal repetir.
O nome da autora também nao me é estranho, mas nao tenho a certeza se estou a confundir.

Agora é que vou para o Eugénio de Andrade.

BC disse...

O POEMA É MUITO BONITO!
Ficou muito bem,neste dia que é das crianças que somos todos nós.
Tenho umas boquitas para alimentar,
que já estão a reclamar.
Até já.
Talvez ainda diga alguma coisa hoje
:):)s