segunda-feira, 23 de junho de 2008

Direito à Igualdade

O texto que se segue é uma (re)publicação, mas emerge aqui para tentar aclarar algumas ideias e inquietações que foram afloradas por uma leitora em reação ao post "A Vocação" onde é relatada a estória de uma pequena águia a quem nunca lhe foi dada a oportunidade de voar de acordo com a sua essência. Bem-haja pelo questionamento muito pertinente. Espero que o texto seja esclarecedor. Fica também o convite para a leitura do livro infra mencionado de Steiner & Ladjali (2005). Ler recensão crítica [aqui].
Construir pontes em educação: da diversidade à igualdade de oportunidades

Em «o canto do pássaro», Anthony de Mello conta-nos a história da pequena águia que havia nascido no meio dos pintainhos e, como eles, aprendeu a depenicar na terra, a bater as asas... Embora por vezes lhe parecesse que também poderia voar alto como as majestosas águias que cruzavam os céus, morreu convencida de que não tinha nascido para as alturas.

Esta é uma belíssima história carregada de emotividade, mas sobretudo, um desafio a todos os professores que lutam pelo direito à igualdade de acesso ao conhecimento, independentemente da raça, cultura, condição social ou religião. Um desafio que irrompe e ao qual urge responder para melhorar a qualidade da educação, apesar dos obstáculos que se firmam no terreno ou provenientes do «destrambelhado edifício do sistema educativo» (Urbano, 2006). Dêmos asas de águia às nossas crianças e ensinemos-lhes a voar para lugares longínquos!

Como disse Fernando Pessoa “Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor”. Digamos que há sempre um Cabo das Tormentas a enfrentar para que o caminho se cumpra. Aqui está presente uma ideia que achamos premente recuperar no contexto educativo: a ideia de esforço. Quantas vezes a nossa preocupação desmedida, pelo medo de ser julgado, o peso da avaliação, a crítica… também nos fez ver monstros imponentes e intransponíveis no lugar de altos rochedos? Pouco importa… é inalterável o passado, mas não a história dos nossos alunos, esta escreve-se com o presente. Importa, por isso, valorizar o esforço para alcançar a meta. Façamo-lo do modo que entendermos mais adequado para cada tempo e situação, mas ensinando os nossos alunos a saborear o encanto do caminho, o presente, ajudando-os a aliviar o esforço da subida. Como na aventura educativa relatada no livro «O elogio da transmissão» de Steiner e Ladjali (2005). Ladjali é professora numa escola suburbana e multiétnica de Paris. Apesar de respeitar o direito às diferenças culturais, étnicas, sociais… ela faz submergir um valor maior, o direito à igualdade de oportunidades na procura do saber, mesmo quando se trata de alunos socialmente desfavorecidos. Parece razoável, mas não é um assunto pacífico. Tratando-se de populações da periferia, pobres, seria mais comum evocar o relativismo cultural e a contextualização das aprendizagens no grupo social. Era bem menos exigente e comum, mas decidiu trabalhar contra a corrente. Segundo ela, o trabalho do professor é mesmo esse e tem um preço: «Tudo o que é excelente é muito difícil…» (Steiner e Ladjali, 2005, 43). E fê-lo por convicção de que «Os alunos merecem tudo, salvo a indiferença» (49). É magnífico o trabalho realizado por esta professora com alunos dos quais pouco se esperava. Não podemos aqui descrevê-lo, mas remetemos para esta fascinante leitura.

Temos de perceber que o saber é fundamental e o saber erudito não é substituível por testonovelas, pelo saber popular (este já os alunos trazem de casa; para quê aprendê-lo?). Há que respeitar a condição do aluno mas não ensinar-lhes de acordo com ela. Isso iria acentuar ainda mais as desigualdades de oportunidades se, por exemplo, fossem desenhados curricula para meninos de bairros de elite e curricula para meninos de bairros desfavorecidos. Aplicar à letra esta medida, como preconiza Damião e Festas (2006), poderá criar situações de grande injustiça acentuando as desigualdades sociais, pois, virtualmente, poder-se-á estar a impedir que algumas crianças cheguem a determinadas aprendizagens de carácter mais erudito que, apesar de não estarem de acordo com a sua condição de nascença, podem ser a sua “vocação”.

Cabe-nos esse papel anónimo e insubstituível: (1) proporcionar aos nossos alunos que a escola deixe marcas de prazer em aprender, despertando neles o impulso da curiosidade, de se transcender; (2) cultivar o elogio do conhecimento pelo esforço. Não que seja mau ou desprezível ser galinha e nem todos conseguirão aprender a voar como águias, mas porque temos o dever de ensinar a voar com perfeição a todos, mesmo àqueles a quem a vida não lhes sorriu à nascença… porque eles também têm esse direito – o direito à igualdade! Quero acreditar como Paulo Freire nesta expressão de amor universal – justiça. Ele sabia bem a importância que o ler e escrever têm para a modificação do ser humano, para a libertação da sua condição social e económica.

Termino com uma frase de Plutarco que tudo diz acerca desta questão: "Se aprender é fazer nascer, impedir de aprender é matar".

Bibliografia:
Damião, H. & Festas, I. (2006). Contextualização e relativização das opções curriculares: impacto nas (des)igualdades de oportunidades. Comunicação ao VII Colóquio sobre Questões Curriculares – III Colóquio Luso-Brasileiro sobre Questões Curriculares – Globalização e (des)igualdades: os desafios curriculares. Braga: Universidade do Minho.
Mello, A. (1995). O canto do pássaro. Lisboa: Paulinas.
Steiner, G. & Ladjali, C. (2005). O elogio da transmissão. O professor e o aluno. Lisboa: Dom Quixote.
Fátima André

In A Página da Educação, nº 168, Junho (2007), p. 45.

6 comentários:

Teresa disse...

Pobre àguia!
Ela nunca consegue passar além do Bojador. Ficou para sempre na cepa torta; quero dizer, a sua condicao nunca melhorou. Achei triste que ela nunca chegasse a saber a verdade. História sem "happyend"!
A Fátima interpreta como professora, eu como leitora de uma história acerca de uma pobre águia que nunca chega a saber a verdade.
A vida dessa águia foi uma mentira.
Que triste! Muito triste!

Fátima André disse...

Oh minha querida Teresa, a história deve ser apenas um desafio para lutarmos sempre pelo inverso! Digo nós, ou seja, todos os adultos que temos responsabilidade na educação dos nossas crianças, adolescentes, jovens. E não incluo só os professores...
:)

BC disse...

Não vou comentar o texto, tenho que o ler com calma,e depois darei a opinião.
Parabéns pela leveza do blog, acho que ficou muito mais claro assim.
HOJE ESTOU COMPLETAMENTE CANSADA.
A operação do meu sogro correu bem
mas são já 83 anos, e daí a preocupação,passei lá parte da tarde, estava com otimo aspecto,depois fui à minhagra para lhe dar um pouco de apoio, estava mu9ito nervosa,e o dia passou-se de cá par lá de lá para cá.
Beijinhos

RENARD disse...

Fátima:

Claro que o conhecimento e a sabedoria é sempre melhor que a ignorância. Contudo tenho uma expressão que emprego com alguma frequência que define, a meu ver a ignorância: ignorante não é que não sabe mas quem não quer saber. Não no sentido de pessoas que sabem e fingem não saber de forma a fugirem às coisas, mas pessoas que repudiam aprender. Porque não lhes interessa; porque já têm muita coisa na cabeça; porque não é a àrea delas; etc... Uma catadupa de desculpas usadas para velar a preguiça...

Um valente abraço

Teresa disse...

Perguntas e mais perguntas!!!

Porque é que gatos pretos dao azar?

Porque raios é que os gatos vao às filhós?

Tenha coragem, Fátima, e responda a estas perguntas directamente nos meus blogues, sorrindo aos meus dois encantadores gatos pretos.

Saudacoes felinas de Düsseldorf!

Fátima André disse...

Cara Teresa,
Não percebo a ligação das suas perguntas com o meu texto.
Também não percebo porque me manda ter coragem.
Mas devo dizer-lhe que a minha resposta é para ambas: NÃO SEI RESPONDER. NÃO SOU NADA DE SUPERSTIÇÕES E OUTRAS CRENDICES.

Saudações Alentejanas :)