sexta-feira, 9 de maio de 2008

Histórias com vida lá dentro

A ÁRVORE GENEROSA

Era uma vez uma árvore que gostava muito de um menino. A criança vinha visitá-la todos os dias. O menino recolhia as folhas da árvore; com elas tecia coroas para brincar ao rei da floresta. Trepava pelo seu tronco e baloiçava agarrado aos seus ramos. Comia dos seus frutos e depois, juntos, árvore e criança, brincavam às escondidas.
Quando estava cansada, a criança adormecia à sombra da árvore, enquanto as folhas lhe cantavam uma canção de embalar.
O menino gostava da árvore com todo o seu pequeno coração. E a árvore era feliz.
Mas o tempo passou e a criança cresceu. Agora era grande, mas a árvore ficava muitas vezes só.

“Quero dinheiro”

Um dia, o menino, já crescido, veio ver a árvore. E esta disse-lhe:
- Aproxima-te, meu menino, trepa pelo me tronco e baloiça nos meus ramos, come dos meus frutos, brinca à minha sombra e sê feliz.
O menino disse:
- Já sou demasiado grande para trepar às árvores e para brincar. Quero comprar coisas e divertir-me. Preciso de dinheiro. Podes dar-me dinheiro?
A árvore respondeu:
- Lamento muito, mas não tenho dinheiro. Tenho apenas flores e frutos. Pega nos meus frutos, meu menino, e vai à cidade vendê-los. Assim terás dinheiro e serás feliz.
Então o menino trepou à árvore, recolheu todos os frutos e levou-os. A árvore sentiu-se feliz.

“Quero uma casa”

Depois um dia o menino voltou. A árvore tremeu toda de alegria e disse:
Aproxima-te, meu menino, trepa pelo meu tronco acima e baloiça nos meus ramos; sê feliz.
Responde o menino, que já era um homem:
- Tenho muito que fazer e não tenho tempo para trepar às árvores. Quero uma casa para me abrigar. Quero uma mulher e quero filhos. Preciso, por conseguinte, de uma casa. Podes dar-me uma casa?
Disse a árvore:
- Não tenho nenhuma casa. A minha casa é a floresta, mas tu podes cortar os meus ramos e construir uma casa. Então serás feliz.
O menino, que já era homem, cortou os ramos e levou-os consigo para construir uma casa. E a árvore sentiu-se feliz.

“Quero um barco para fugir”

Durante muito tempo, o menino não apareceu. Quando voltou, a árvore sentia-se tão feliz que a custo conseguia falar. Murmurou:
- Aproxima-te, meu menino. Vem brincar.
O menino, já idoso, disse.
- Sou demasiado velho e triste para jogar. Quero um barco para fugir para longe daqui. Podes dar-me um barco?
A árvore disse:
- Corta o meu tronco e fax um barco. Assim poderás ir-te embora e ser feliz.
Então o menino, que já era idoso, cortou o tronco e fez o barco para fugir. E a árvore foi feliz… mas não totalmente.

“Quero descansar em Paz”

Muito, muito tempo depois, o menino voltou mais uma vez. Disse a árvore:
- Lamento, meu menino, mas não tenho mais nada para te dar… Já não tenho frutos.
Disse o menino:
- Os meus dentes são muito fracos para comer fruta.
A árvore continuou:
- Já não tenho ramos para baloiçares.
Disse o menino:
- Sou demasiado velho para baloiçar nos teus ramos.
Suspirou a árvore:
- Sinto-me desolada. Gostaria tanto de te dar qualquer coisa… mas não tenho mais nada. Sou um velho cepo. Lamento tanto…
O menino disse:
- Não preciso já de muito. Apenas de um lugar tranquilo onde me possa sentar e descansar. Sinto-me muito cansado.
A árvore, levantando-se quanto podia, disse:
- Muito bem, um velho cepo é o que necessitas para te sentares e repousares. Aproxima-te, meu menino. Senta-te e descansa.
Assim fez o menino. E a árvore sentiu-se muito feliz.

In Histórias com sumo, Pedrosa Ferreira
(criei e adaptei os subtítulos)

Quatro notas para reflexão:
A vida desta árvore é servir.
A doação da sua vida é fonte de felicidade para si e para os outros.
Se a árvore fosse uma pessoa talvez dissessem que ela era doida.
Mas para quem sabe ler com o coração, a conclusão pode não ser essa.

4 comentários:

Raul Martins disse...

E lembrei-me da Carmo, qual árvore que se vai dando uma vida inteira... e agora parte para África para dar mais alguns dos seus ramos.

E lembrei-me de ti Fátima, que algures num comentário escreveste que gostarias de ser missionária e que o és no nosso Portugal... também vais dando os teus ramos...
Enfim, todos nós, taves... um raminho aqui, outro ali..

Um sorriso grande

Fátima André disse...

Um sorriso para ti também, Raul.
Este post é uma espécie de oração. Escolhi esta história para agradecer a Deus o dom da vida da Carmo. Não lho disse a ela (vai ficar a sabê-lo quando ler este comentário). Ela merece Tudo! Depois das palavras enternecedoras que ela nos dirigiu hoje logo pela manhã, este agradecimento é uma apenas gota de água no oceano dela.

Carmo Cruz disse...

Fátima, Fátima, Fátima da Fé nos Homens, que coisa linda, que coisa maravilhosa. Eu não sou assim tão generosa, não, infelizmente tenho muito lastro humano, mas a Árvore é bem um símbolo do que nos poderíamos ser. Falta uma parte final no teu conto: a Árvore é tão generosa que acaba sendo ela que envolve o corpo do Menino quando ele, já Velhinho, parte de vez.
E com ele volta ao princípio das Coisas.
Gostaria de te poder algo em troca desta história mas o Amor verdadeiro, como diz S. Paulo aos Coríntios, não exige nada em troca e tu não a escreveste para receber algo de volta. A não ser o meu Amor de Irmã. Na Humanidade e em Cristo. Que Deus te abençoe.
Irmã

Fátima André disse...

Querida Carmo,
O Amor Universal é contagioso e muito fértil :)
A minha missão é espalhá-lo. Depois, garanto-lhe que não dou nada que não tenha recebido antes. Por isso, veja como a minha generosidade é bem pequenina. O importante é dar o que somos :)
Um grande beijo.
Boa Missão em Angola. Muitos sorrisos para os seus meninos :)