sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Uma opinião sobre as (des)vantagens do acordo ortográfico

Para quê o Acordo Ortográfico?


Por Desidério Murcho

O aspecto mais misterioso do Acordo Ortográfico revela-se nesta pergunta simples que nunca é respondida cabalmente: para que serve o acordo ortográfico? A resposta a que se alude é que serve para unificar as variantes da língua portuguesa. Mas isto é falso por três razões.

Em primeiro lugar, porque não há qualquer necessidade de unificação. Os britânicos escrevem “analyse”, os norte-americanos “analyze” (ver aqui algumas das diferenças ortográficas entre o inglês norte-americano e o britânico). A nenhum americano, inglês ou australiano ocorre unificar ortograficamente a língua inglesa, e ainda menos fazê-lo por via legislativa à Salazar, precisamente porque são gentes que prezam a liberdade e odeiam a interferência arbitrária da legislação na vida das pessoas.

Em segundo lugar, uma língua é muito mais do que a ortografia. É o léxico, a gramática, a fonética, entre outras coisas. Ora, este acordo evidentemente não unifica tal coisa. No Brasil, um fato é o que para nós é um facto, e um fato é no Brasil um terno, que para nós é uma pessoa ternurenta. No Brasil o pequeno-almoço chama-se “café da manhã” e os comboios chamam-se "trens". As diferenças são mais que muitas, e muitas mais haverá em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, etc. O acordo ortográfico não unifica a língua.

Em terceiro lugar, o acordo ortográfico não unifica sequer a ortografia. Continuar-se-á a escrever “fato” no Brasil e “facto” em Portugal; “género”, “António” e “génio” em Portugal e “gênero”, “Antônio” e “gênio” no Brasil.

Poderá acontecer que um alemão ao aprender português pela variante portuguesa tenha dificuldade em compreender um texto brasileiro? Ou vice-versa? Claro que não. Poderá uma besta qualquer das Nações Unidas ficar confundida porque tanto se pode escrever em português “facto” como “fato”? Talvez, dado o tipo de gente que anda nesse tipo de instituições. Só que, coitados, continuarão muito confundidos porque continuará a haver muitas palavras com dupla ortografia.

Então para que serve realmente tal coisa? Queremos aproximar os povos e as nossas variantes da língua comum? Publique-se livros no Brasil com a ortografia portuguesa, e vice-versa. Façam-se dicionários comuns, como o excelente Aurélio, que tem todas as variantes da língua (ou que pelo menos se esforça para as ter). Publiquem-se gramáticas que contenham todas as variações da língua. O mais absurdo da posição dos defensores da legislação ortográfica é que se em vez de andarem a tentar obrigar os outros as escrever como eles querem tivessem escrito dicionários, gramáticas, livros, propondo alterações ortográficas, estas poderiam ser naturalmente adoptadas sem necessidade alguma de legislação. Então para quê a legislação?

Além da idiotice de se pensar salazaristicamente que sem legislação sobre a ortografia cada qual escreve como lhe dá na gana, não vejo qualquer boa razão para esta insistência na legislação ortográfica. E vejo muitas desvantagens.

Além de tornar as pessoas bovinas — agora de repente temos de reaprender a escrever palavras porque uns iluminados que nada têm publicado que seja influente usam o poder político para ter a influência que naturalmente não têm a capacidade intelectual para ter — este acordo tem muitas desvantagens para quem conhece as realidades africanas e brasileiras. Nestes países, uma parte importante das bibliotecas e do ensino baseia-se em livros portugueses com 30 anos ou mais. Quanto mais se muda a ortografia, mais difícil será para essas crianças dominar a ortografia precisamente porque aprendem quase exclusivamente por livros que passam a estar errados -- crianças que não têm dinheiro para ir a correr comprar as últimas novidades com a nova ortografia, não lêem jornais e mal dominam a língua portuguesa.

Quanto mais se mexe artificialmente na ortografia da língua, mais difícil é o domínio da ortografia para as pessoas mais carenciadas. Basta ler os comentários de publicações inglesas ou americanas online para ver que quase não há erros ortográficos, ao passo que nos jornais portugueses de referência, como o Expresso ou o Público, as caixas de comentários estão pejadas de erros ortográficos. Sem dúvida que não são apenas as constantes mudanças legislativas de ortografia que provocam tal atraso, mas sem dúvida também que tais mudanças têm um papel importante a desempenhar aqui. As pessoas aprendem ortografia em grande parte pelo que lêem; se o que lêem for uma selva ortográfica que resulta de inúmeras legislações sucessivas, é natural que tenham mais dificuldades com a ortografia.
O acordo ortográfico não tem qualquer vantagem para os brasileiros, os angolanos, os moçambicanos, os cabo-verdianos, os guineenses ou os portugueses. E tem desvantagens óbvias. Quem ganha com o acordo e o que se ganha com ele? Esta é a questão importante. E só vejo duas respostas.
Primeiro, ganham os intelectuais que fizeram o acordo, que ficam assim na história. Triste maneira de ficar na história, diga-se de passagem: como autores de listas de palavras. Enfim.
Segundo, ganha talvez o Brasil, porque usa o acordo como uma maneira de tentar cativar os mercados africanos, para se abrirem mais às exportações do Brasil e menos às da China. Contudo, não é o acordo em si que facilita tais exportações: é apenas um sinal de aproximação do governo brasileiro que poderá fazer os governos africanos abrir-lhes mais as fronteiras. Não haverá uma maneira mais simples de conseguir esse objectivo? Penso que sim. Acordos comerciais bem pensados e economicamente vantajosos para todos os países que falam português não serão difíceis de conceber e efectivar. Bom, excepto para quem pensa que mudar a ortografia de dois por cento do léxico é um passe de mágica para a afirmação do português no mundo.

In De Rerum Natura
Imagem: © Antero Valério

2 comentários:

SAM disse...

Há alguns aspectos que concordo e outros que não consigo concordar no texto que tenta adequadamente analisar o acordo ortográfico.

Por isso, desde já peço desculpas pela minha escrita, Fátima, que também talvez também venha a postar no blog do autor.

Comecemos do início.
A questão do idioma inglês é tão irrisório para mim, como a questão do idioma espanhol. Nos meios internacionais notamos que existem três perspectivas de intervenção. A estratégia do idioma inglês que pouco parece se importar com quem fala como; uma estratégia que é típica dos que defendem uma certa forma de liberdade (como o texto tão adequadamente menciona), pois até a simples existência de um documento de identificação faz-se algo assustador para muitos cidadãos das culturas ditas anglo-saxónicas; uma estratégia também típica do isolamento e do desinteresse com o que se passa no resto do mundo, de quem nem sequer se consegue unir ao espaço de circulação comum europeu, ou ao espaço de moeda única europeia -- porque então preocupar-se com um espaço idiomático único? Já a estratégia da língua espanhola é brilhante, mas morosa: a cada grande obra que é novamente publicada (o exemplo da edição especial do Quijote foi a mais marcante) todas as Academias de Letras dos países de fala hispana (inclusive das Filipinas!) se unem e deliberam uma nova versão conjunta da obra, unívoca para todos os países que adoptam este idioma que já se assume como universal. A forma estratégica com o idioma português é o de criar um léxico (até certo ponto) unificado, no qual todos, pelo menos, escrevem da mesma forma.

Não há dúvidas que um fato continuará a ser um terno no Brasil; mas também só um falso douto deve acreditar que o terno é o detentor de ternura somente em Portugal! Também no Brasil existem pessoas ternas que vestem um terno. E aqui em Portugal temos factos consumados sobre a qualidade dos fatos. O palavreado não me impede de ter uma forma comum de escrita. Aliás, há expressões que variam de lugar para lugar e de aldeia para aldeia, seja em Portugal ou no Brasil. Não é por isso que no Brasil se falam milhares de idiomas ou em Portugal centenas. As palavras e a sua utilização tem a ver meramente com os aspectos culturais e não com questões idiomáticas.

Concordo com a ideia de que a semântica seja importante. E, mais ainda, a gramática no seu modo geral! Os pronomes como ficarão? Hormônio ou hormona? Câncer ou cancro? Caminhão ou Camião? Quais serão os termos de eleição? Segundo o acordo, da mesma forma que já se pode dizer planejar e planear em Portugal, as duas possibilidades manter-se-ão. A diferença? A diferença é que a nenhuma criança de 12 anos que venha fazer o 6º ano aqui em Portugal, saindo do Brasil, será descontada nota quando escrever "câncer" ou "caminhão".

No que concerne à acentuação, bem, temos que verificar as coisas. Os acentos circunflexos desaparecem com o acordo. A riqueza se perde. Mas, afinal de contas, o Brasil é que sai a perder, pois as letras duplicadas deixam de ter acentuação, Assembleia perde o acento e ainda perdem o trema. Nós, o que perdemos? Um "c" e um "p" que ninguém sequer pronuncia?

Perdemos o "h" mudo, mas eles também. Dói-me só pensar em escrever "omem e mulher" "aver e ter" "Era, esposa de Zeus", mas consigo entender a coerência da decisão: letras mudas desaparecem, fim de papo! (ou será que papo é um termo errado, porque em Portugal temos outra expressão...?).

Quanto "às bestas" que aprendem um idioma, digo que sim: poderão se confundir! O alemão, o português e o árabe são das línguas mais complexas de aprendizagem (repare-se que aprendizado também existe em ambos os países, mas uns optam por utilizar mais um que o outro). Só quem não passou pelo que um imigrante passa é que acha que tudo é fácil. Argumentos bacocos de que eles podem não se confundir são melhores guardados para si mesmos. E só os imigrantes que contactam com uma das variantes é que devem achar que as duas são iguais. O que não me falta são imigrantes à minha volta e quantas vezes ouço-os dizerem que não entendem um texto deste ou daquele lado do Atlântico. Será que todos os estrangeiros nascidos fora das fronteiras da língua portuguesa serão torpes?

O argumento económico também é-me surreal, pois tenho lido incontáveis declarações africanas dando a sua opinião de que se o acordo não entrar em vigor, utilizarão a versão brasileira do idioma. Há quem diga que não. Se se tratasse de uma questão deveras séria, já teríamos instaurado o início de uma guerra civil, aonde o idioma seria a escusa para a contenda. Não deveríamos estar mais preocupados com a unicidade do que com o conflito?

Devo, contudo, dizer que concordo, sem sombra a dúvidas, com os esforços dos nobres pensadores que pretendem fazer gramáticas e dicionários todo-abrangentes, mas, será que terei que concordar em escrever côr ou flôr, como se escrevia há cinquenta anos atrás no Brasil? Será que terei que escrever como Eça de Queiróz (ou Queirós? nem nisso conseguimos ser consensuais!), como Camões ou como os galaico-portugueses que instauravam a independência? A evolução ocorre, quer eu queira quer não, quer nós desejemo-la ou não, ela está aí à porta! Resta saber o que iremos fazer quando ela nos chegar...

Se há problemas com o acordo, deveríamos ter-nos manifestado quando ele era debatido e antes de ser firmado, não agora que ele está para entrar em vigor. Nunca entendi as causas que nos levam, em Portugal, de reclamar sobre o leite derramado (tenho consciência da alteração que fiz ao ditado).
E aqueles que defenderem o processo natural de modificação idiomática, lembrem-se que não há nada de natural quando uma academia de letras e os seus doutos inserem novas palavras no nosso vocabulário. É o mesmíssimo processo, apenas, desta vez, incluiu os políticos e os seus interesses -- sejam estes os mais nobres ou os mais repugnantes (isso em nada muda).

Aliás, ainda digo mais. Se estamos irritados, descontentes, desagradados, que lutemos contra palavras absurdas, obtusas e ridículas inseridas no dicionário de língua portuguesa de Portugal. Alguém me pode explicar como é que "Presidenta" foi lá parar? Daqui a nada eu vou ao "dentisto" e acho que aquela pessoa que passou por mim na rua é uma "indecenta"...

Desculpa, Fátima, por ter feito tão moroso e, porventura, desagradável comentário; mas quando se passa por dificuldades e se sente na pela a inexistência de tal acordo, a defesa a ele se torna algo muito pessoal.

Samuel Costa disse...

Só queria deixar registrado que a sua visão em relação às bibliotecas e acervos de livros no Brasil está bem defasada. Nos últimos anos o governo brasileiro tem investido nos acervos, principalmente, das escolas, dessa forma, a população estudantil brasileira há muitos anos já não é educada com livros ultrapassados, pelo contrário, as escolas públicas têm adquirido bastantes livros bons.
Sem contar que discordo de você quando diz que nenhum país de língua portuguesa é beneficiado com o acordo, para o Brasil esse acordo tem muita importância, uma vez que hoje estamos crescendo de forma muito satisfatória e desejamos nos afirmar no mundo, dessa maneira, documentos da ONU publicados em português é de suma importância para a hegemonia do país, uma vez que somos integrantes signatários e fundadores do órgão internacional e devido à falta de unidade na gramática portuguesa até hoje não há documentos publicados em português, isso sem contar que com a liderança no acordo o Brasil se afirma como voz de comando entre os países de língua portuguesa, um fato inédito até então e de suma importância para a história e o orgulho do Brasil.