terça-feira, 22 de abril de 2008

Transmissão dos Valores... Liberdade, Conhecimento...

Trova do vento que passa



Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novos
e notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre

5 comentários:

Carmo Cruz disse...

Fátima, hoje acordei muito esperançosa, por causa do Verde, porque é o Dia da Árvore, tão bem comemorado pelo Raul.
Mas ao mesmo tempo, a minha Esperança é uma Esperança realista. E se há sempre alguém que resiste (e falo de resistência a tudo o que é negativo), há muitos alguéns que preferem não pensar, para não resistir. A Liberdade nunca é grátis, graças a Deus, e quando um de nós se recusa a pagar a sua parte, somos todos os que ficamos amputados de um pouco dela. E dá-me razão no seu comentário ao cartoon que apresenta mais abaixo. Mas, o desânimo também é vento que passa e logo vem um vento bom, bem dirigido, que nos ajuda a levar a barca da vida a bom porto. Assim o espero, pelo menos. Para mim, para si, para todos. Carmo

marta disse...

olá fátima aqui vai o link onde está a parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=z0aph7l5kW4

procure a parte 2 (http://www.youtube.com/watch?v=H_D_KPyrMdc&feature=related)
que é um fenómeno também. o filho de uma amiga é o coreografo.
abraços
marta

Anónimo disse...

Fátima!
Belo poema. Postei esse poema no meu blog RamiroMarques e coloquei um link para o seu blog. Coragem e nunca desista.
Ramiro

Fátima André disse...

Olá Carmo, olá Marta,
obrigada a ambas.
Abraço.

Fátima André disse...

Obrigada, Ramiro.
é de facto um belíssimo poema. Merece ser trabalhado nas nossas aulas... muito mais valoroso que "testonovelas"...