domingo, 6 de abril de 2008

Professores, novas vítimas de bullying

A agressividade escolar não é um problema exclusivo da realidade portuguesa, mas é um problema significativo e uma realidade vasta que atinge escolas de todo o mundo. Este fenómeno tem ganho visibilidade social crescente, tanto mais que a agressividade tem revelado ser o melhor preditor comportamental de dificuldades de ajustamento futuras. A expressividade é de tal forma alargada que os próprios cartoonistas portugueses (ex. post infra, entre muitos outros) lhe dedicam um espaço de relevo na habitual sátira social. Adicionalmente, o bullying enquanto fenómeno social é um dos comportamentos agressivos mais estudados na literatura actual.

É crescente a importância e a necessidade de investigação nesta área, bem como a partilha de resultados dessa mesma investigação de modo a que seja possível actuar preventivamente em contexto educativo. Começam também a emergir alguns encontros e seminários em meios académicos para debater a temática com objectivo da partilha de perspectivas complementares provenientes de profissionais e investigadores que se dedicam ao estudo do fenómeno Bullying, segundo várias perspectivas. Este fenómeno é mais conhecido entre nós como fenómenos de Violência e Agressividade em contexto Escolar, mas por norma começa a dar os primeiros sinais com situações de indisciplina que se vão acentuado e agravando, quer em contexto de sala de aula, quer em outros espaços escolares.

É de salientar que o fenómeno bullying, não é exclusivo entre pares. Maria Beatriz Pereira, investigadora da Universidade do Minho, presidente da Comissão Directiva e Cientifica de Doutoramento em Estudos da Crianças e autora de várias obras sobre a violência escolar, refere que o bullying, a violência na escola que atingia apenas crianças e jovens, está agora a aterrorizar os professores (Pereira, 2008). É crescente o número de professores que também são vítimas de bullying.

A investigadora, a propósito das agressões mais recentes a professores trazidas a público firma que "Os professores são as novas vítimas do bullying" (Pereira, 2008).

Fátima André

*******
Excerto de uma declaração da investigadora da UM, Maria Beatriz da Silva, à Lusa em 20.3.2008:


Embora sem números oficiais, Maria Beatriz mostra-se "muito preocupada" com a forma como o bullying, a agressão continuada e sem motivo, está a atingir os professores. "Tenho acompanhado casos em que os professores esperam ansiosamente que o ano escolar termine", referiu a investigadora à margem do Fórum Educação para a Saúde, organizado pela Câmara de Famalicão.
No fórum, a docente apresentou a comunicação "O bullying na escola. Que tipo de intervenções?", remetendo-se apenas à violência entre pares, "de crianças e jovens para crianças e jovens".
"Os professores têm dificuldade em controlar os alunos, não conseguem incentivá-los e ficam cada vez mais desmotivados", frisou Maria Beatriz Pereira.
Dos estudos desenvolvidos há, para a investigadora, uma certeza: "quanto maior é o insucesso escolar maior é a incidência de bullying".
As mesmas crianças e jovens que "maldosamente" agridem e maltratam os colegas, no recreio, dentro da sala de aula, "ofendem os professores, chamam-lhes nomes e ameaçam-nos, não com agressões físicas, mas com avisos de que, por exemplo, lhes vão destruir o carro".
"Nos casos que acompanho, os professores são constantemente denegridos, rebaixados e humilhados pelos alunos", referiu a docente da UM.
Como "defesa", admitiu Maria Beatriz Pereira, os professores pouco podem fazer.
"Apresentam queixa contra os estudantes no conselho executivo, as crianças podem ou não ser suspensas, os pais são chamados à escola e pouco mais", disse.
De todas as formas de bullying, as que mais parecem deixar marcas nos professores são, segundo Maria Beatriz Pereira, "o rebaixamento junto de colegas e alunos e as observações maldosas sobre o aspecto físico ou a forma de vestir" dos professores.
"O que caracteriza o bullying é que há sempre um controlo através do medo e isso tanto acontece junto de crianças como de adultos", sustentou.
Desde 1997 que a investigadora do Instituto de Estudos da Criança trabalha sobre a violência escolar. Em 2002 publicou o livro "Para uma escola sem violência. Estudo e prevenção das práticas agressivas entre crianças".
De acordo com os dados então recolhidos, em Portugal pensa-se que "uma em cada cinco crianças e jovens é afectada pelo bullying".
Dos seis mil e duzentos estudantes do 1º, 2º e 3º Ciclo, observados no triénio 1995/97, a equipa de Maria Beatriz Pereira concluiu que o insucesso escolar está "intimamente" ligado ao bullying.
"Quanto maior é o insucesso, maior é a agressividade e a necessidade de maltratar os outros", referiu.
A "única solução" para reduzir os efeitos das agressões físicas e verbais é, para a docente da UM, "a criação, por parte das escolas, de regras rígidas e de punições para quem não as cumprir".
"A comunidade educativa tem que reconhecer a existência do problema, criar um grupo de trabalho com ligação directa à direcção da escola que proceda ao diagnóstico da realidade a partir da qual, uma equipa vai definir as regras de intervenção",
sustentou a investigadora.

EYM/JAM, Lusa
(os negritos no texto são meus)
Imagem: © Antero Valério

Sem comentários: