segunda-feira, 14 de abril de 2008

Plagiar é crime?

Já aqui escrevi sobre o tema e também já remeti para textos de autores como Alice Vieira, Rui Baptista e Elvira Calapez.

Porque volto a trazer a debate o tema do PLÁGIO?

Porque nos últimos dias tenho dado conta de alguns trabalhos meus e de outros autores, publicados na internet sem qualquer referência às fontes ou ao autor. Convém, (re)lembrar que tais práticas revelam atitudes eticamente condenáveis. Não podemos culpabilizar os computadores, o choque tecnológico, ou o Ministério da Educação. Tais práticas já vêm da antiguidade, porém, a educação, particularmente, a educação cívica e moral tem um papel preponderante na formação integral do ser humano. Transmitir valores como a honestidade intelectual é também função da escola.

Elvira Calapez explica as origens do plágio e aponta o caminho para contrariar ou inverter essa tendência – prática também muito em voga nas nossas escolas (em todos os níveis de ensino) e incentivadas por alguns docentes que ingenuamente ou por incompetência profissional não ensinam aos seus alunos métodos de investigação e técnicas de pesquisa, selecção e organização de informação.


Por Elvira Calapez

“When you steal from one author, it’s plagiarism; if you steal from many, it’s research”.

Será mesmo assim? Roubar é um crime. E quando ouvimos falar de roubo, normalmente e de imediato, associamos esse gesto, a dinheiro, a bens materiais, a coisas palpáveis. Talvez não ocorra à maioria das pessoas que também há roubos de pensamentos, ideias, opiniões, palavras, frases, dados, resultados, números, tabelas, etc. sem dar o devido crédito aos autores. Quando isto acontece, o roubo chama-se plágio. Se plagiar é roubar, trata-se de um crime. Antes de mais, esse tipo de fraude é uma atitude moral e eticamente condenável. Pela frequência com que vem ocorrendo, tem sido objecto de vários debates e publicações. Títulos nas revistas americanas como “Plagiarism is worse than mere theft”, “Plagiarism: A Spreading Infection” e “The scourge of plagiarism”, ilustram bem o sentimento que este assunto suscita nos dias que correm.

Todavia, o assunto é bem antigo. A origem da palavra plágio remonta ao início do primeiro século d. C. e são atribuídas a Marcus Valerius Martialis (Marcial), conhecido pela sua poesia de carácter satírico, vulgo epigrama. Lê-se na fonte que o plágio, como epíteto para o roubo das ideias e das palavras de outro escritor, foi inventado pelo poeta romano Marcial. Ao censurar Fidentinus, por este recitar as suas palavras como se fossem dele próprio, Marcial comparou-o à pior coisa que podia – um ladrão de escravos, um plagiario”.

Nasceu assim uma das figuras mais censuradas – o plagiador. Na sua forma mais simples, um plagiador é um kidnapper, um raptor que comete um sequestro intelectual, que escreve algo, que de facto, pertence a outra pessoa. Mas, segundo Randall, já a enciclopédia de Diderot, no século XVIII, oferece uma definição de plagiador semelhante à que vigora hoje: “Um plagiador é um homem que a todo o custo quer ser autor e, não tendo nem génio nem talento, copia não só frases, mas também páginas e passagens inteiras de outros autores e tem a má fé de não os citar; ou aquele que, com pequenas mudanças e adição de pequenas frases, apresenta a produção dos outros como algo que fosse imaginado ou inventado por si; ou ainda aquele que reclama a honra de uma descoberta feita por outro”. Inferimos que estamos perante um plágio intencional. Porém, os nossos pensamentos, ideias, opiniões, linguagem, escrita, comportamentos, são influenciados por outros e, por isso, não raras vezes, escrevemos, de forma não intencional, ideias e pensamentos que já outros transmitiram, mas que nos parecem originais. Nesta situação não é fácil ter consciência que estamos a plagiar, na medida em que expomos, subconscientemente, a informação lida, absorvida e enraizada nas nossas mentes. Logo, não é simples julgar tal actuação.

Pese embora muito do trabalho intelectual assentar nos conhecimentos de outros, como reage a academia quando confrontada com o plágio? Pois, para os académicos, o plágio, é o pior dos comportamentos. É uma decepção para todos os que lêem os textos roubados visto que o autor que plagia ganha crédito através das ideias de outrém, enganando assim os leitores, pelo menos de duas formas: por um lado, impede que eles contactem o original e, por outro, eles poderão apresentar as ideias e as palavras originais fora do contexto, defraudando o sentido da investigação original. Por isso, na academia, o plágio, tal como a fabricação de resultados, é reconhecido como uma forma de comportamento desviante. Richard Smith, antigo editor do British Medical Journal, é muito violento para com os plagiadores, quando escreve: “Where plagiarism is found, the author's previous publications must be examined. The evidence shows that an act of misconduct is usually part of a pattern of behaviour rather than an isolated incident”. Ao longo dos tempos têm sido divulgados vários exemplos de escritores famosos e de alguns cientistas que cometem plágio (e auto-plágio, sendo este uma outra vertente de plágio, que ocorre quando alguém usa um trabalho seu já publicado mas não faz qualquer referência a isso). E porque o plágio cresce, John Maddox, ex-editor da Nature, pergunta: “how can established academics, almost by definition not neuronally deficient, be so artless in their intellectual burglary?”

Sabendo-se que o plágio constitui um problema, porque razão ele ocorre? Entre outros factores, a pressão para publicar, a falta de tempo, da ânsia de ganhar bolsas, prémios e reconhecimento, poderão estar associados “ao aumento da corrupção do empreendimento académico”. Para ganhar fama rapidamente, ou promoção na carreira, alguns preferem escolher a via mais fácil de “cut-and-paste”.

E, porque o plágio existe, só nos resta, então, enfrentá-lo e tentar evitá-lo. Como fazer? De acordo com Balaram, “educar a nova geração pode ser a única vacina disponível para conter a propagação, disseminação do vírus do plágio”. Assim, para não se contagiar os estudantes, é importante que as escolas, as universidades, os professores, os ensinem a combater o plágio. É do conhecimento geral que alguns estudantes, por exemplo sob a pressão do cumprimento de prazos, entregam trabalhos totalmente copiados tirando partido da proliferação dos recursos electrónicos. O que fazer com eles? Simplesmente ensinar-lhes as regras dos métodos de investigação bem como as técnicas de pesquisa e citação: porquê, quando e como citar e usar as fontes e referências.

Muitas universidades americanas têm feito circular informações detalhadas sobre o que é o plágio e como evitá-lo. Um papel fundamental tem sido atribuído às bibliotecas. Agora, como nas bibliotecas aumenta o número de recursos online, com apenas um clique pode aceder-se facilmente a toda a informação. Mas é necessário educar os utilizadores sobre o uso ético dessa informação e os bibliotecários são decerto as pessoas mais adequadas para isso.

In http://dererummundi.blogspot.com/2007/09/sobre-o-plgio.html

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Deixo ainda outras sugestões de leitura anotadas por Glicéria Gil em tempos idos: Turnitin ou Plagiarism que apontam alguns caminhos e meios para detectar o plágio, nomeadamente, saiba que há Software for Detecting Plagiarism. Temos que deixar de ser o país do "deixa andar" e do "não há nada a fazer"... as expressões que costumo ouvir com maior frequência a este respeito. Instituir medidas eficazmente penalizadoras como aliás se faz em outros paises, parece-me o inevitável caminho a encetar, sem esquecer o papel fundamental da educação na formação do carácter, da criança, do jovem...

1 comentário:

Mi Satake disse...

Fatima, assunto super imprtante, esse!
recentemente uma amiga foi plagiada. Experiencia pessima.
Nos movemos pra blogar sobre isso.
Se puder me visite, e aos blogs de mae pra mae q indico na postagem.
De sua opinia, imagino q sera muito valiosa!
Até
Beijos