sábado, 19 de abril de 2008

Hora da Poesia I

A propósito do Valor das Palavras, deixo-vos com um poema de Carmo Cruz, escrito há cerca de 46 anos. A actualidade das palavras é tão real que parece ter sido escrito nos últimos dois, três anos, mas não foi.
Não é meu hábito comentar poesia, mas partilho as minhas escolhas para que podeis desfrutar da profundidade e do prazer do jogo das palavras. A poesia lê-se e saboreia-se no silêncio azul...
O meu bem-haja à Carmo pela sua amabilidade em autorizar a publicação deste poema.

RELATIVIDADE

Eratóstenes, filósofo grego,
tinha certamente imaginação,
uma capacidade grande de sonhar
e foi capaz de calcular o raio da Terra.
E, dizia ele,
tudo se mede, em termos rigorosos –
o tempo, o peso e a distância.
Dizem que as medidas encontradas são um padrão
porque medem com rigor e precisão.
os aparelhos seriam, portanto, perfeitamente objectivos:
um relógio, um metro, uma balança
são objectos perfeitamente democráticos (dizem)
porque medem rigorosamente igual
para pobres e ricos,
ignorantes e intelectuais,
brancos, pretos, amarelos.
Para todos (dizem) um metro é um metro
(tem 100 centímetros)
e uma hora sessenta minutos
e um minuto sessenta segundos.
Mas deve haver outra categoria de pessoas
(na qual me encontro indubitavelmente incluída)
que não são abrangidas por tal condição igualitária.
Desafio qualquer metro, relógio ou balança
a medir o nosso tempo, o peso da tua mão sobre a minha,
a distância de uma simples mesa de trabalho.
Os resultados são os que bem conheço:
há horas com sessenta segundos ou ainda menos
e outras que são dias infindáveis.
A nossa mesa não existe,
ou tem o tamanho de mares sem fim de ausência
e a tua mão só me pesa quando não está sobre a minha.
Será que Eratóstenes, o tal sábio grego,
Que tinha imaginação e era sonhador
Sabia que os padrões não preenchem todas as lacunas?

Carmo Cruz

Sem comentários: