sábado, 19 de abril de 2008

Hora da Poesia II


Tantas palavras por dizer, por escrever,
Tantos sentidos por desmistificar, caminhos por percorrer...
E um pouco mais de poesia para saborear neste fim-de-semana.
Com um particular agradecimento à autora CC.



Eu preciso de palavras novas...

Eu preciso de palavras novas
Porque estas com que falo e comunico
Estão velhas, sujas e cansadas.
Envelheceram na monótona rotina,
Dos desencantos do nosso dia-a-dia
A dizer coisas tão triviais como ontem, hoje e amanhã,
Tão triviais que nem existem sequer, como sempre e nunca,
Pois ontem já foi hoje e amanhã, e vice-versa, é claro.
Estão sujas, poluídas pelas mentiras com que mascaramos
As falsidades das pontes de contacto.
São elas que servem de lianas e seguram as tábuas
Que nos ligam aos outros
Sobre o vazio da Vida.
Só as limpamos dolorosamente
Na nossa mais profunda intimidade,
Dentro de nós mesmos,
Quando já nos sentimos sufocar,
Como peixes em águas contaminadas
Pelos desperdícios necessários,
Mas que nem por isso perdem a sua condição de lixo.
Mesmo que o rio esteja enfeitado
Com as algas prolíficas,
Verdes mas falsas, que não deixam chegar lá baixo,
A luz do sol que vivifica.
Estão cansadas de serem outra coisa, múltiplas quase sempre,
De funcionarem como flores ou outros ornamentos,
A cobrirem sentimentos frios como a indiferença
Ou a preencher os vazios, aqueles espaços incómodos,
Quando o nosso coração está morto
E já não há mais nada para dizer,
E o silêncio grita e diz da nossa morte e da nossa solidão.
Essas palavras que já não dizem nada, recuso-as.
Quero palavras novas, claras e precisas,
Transparentes e límpidas,
Que não precisem de nenhum dicionário,
Valiosas em si mesmas.
Palavras novas, talhadas na Verdade, como um cristal,
Tão nítidas que nunca ofereçam dúvidas
Nem alimentem segundas intenções.
Então, quando eu disser Amigo
ou se disser Amor,
ninguém hesitará, nem precisará de pensar duas vezes,
para perceber que eu estou aqui –e estou, de facto.

Mas se um dia forjar essas palavras novas
Não será tudo ainda mais difícil?

Carmo Cruz

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