terça-feira, 15 de abril de 2008

Amor aos Livros... tem limites

Como alude Alice Vieira, nem todos os livros são bons e nem todas as pessoas que escrevem livros são escritores. Há dias fiz referência a uma dessas pérolas, elas são aos milhares… mas fiquemos com as palavras da escritora que melhor que ninguém denota conhecimento da causa.

Grossistas de palavras

Por Alice Vieira
A CRER NO QUE DISSERAM os jornais, Carolina Salgado declarou ao tribunal ser escritora de profissão.
E, tanto quanto sei, devia estar sob juramento.
E não lhe tremeu a voz.
E não corou.
Suponhamos agora que ela chegava e dizia, por exemplo, que era advogada. Ou juíza. O que é que lhe acontecia?
Porque para todas as profissões se requerem estudos, habilitações, trabalho esforçado, provas dadas. Para todas - menos para a de escritor. Que é, cada vez mais, uma profissão muito mal frequentada…
Ainda não há muito tempo um jornalista da nossa praça, depois de ter publicado um primeiro romance, também declarava que qualquer um podia ser escritor.
Mal acomparado, isto é assim como se uma pessoa que fosse muito habilidosa a coser bainhas se sentisse com todo o direito de coser a barriga de um desgraçado na sala de operações.
Claro que hoje qualquer um pode publicar um livro: ou paga do seu bolso, ou encontra uma editora que vá na conversa. Até porque os motivos que levam à escrita cada vez são mais estranhos, e o sucesso cada vez mais rápido, sob os holofotes das câmaras de televisão e das capas das revistas.
Emagreci trinta quilos? Escrevo um livro.
Mas logo a seguir engordei vinte quilos, e o meu homem bate-me todos os dias? Escrevo um livro.
Tramei o namorado que por acaso era do jet-set? Escrevo um livro.
Apareci duas vezes numa telenovela e dei três autógrafos? Escrevo um livro.
Desapareceu-me a bagagem no voo de Cancun? Escrevo um livro.
Descobri que o meu namorado é um crápula e me engana com a sobrinha da porteira que tem menos 20 anos do que ele? Escrevo um livro.
Digamos que é assim uma réplica com vagas pretensões literárias da frase que repetia aquela boneca à entrada da tenda de uma astróloga na velha Feira Popular: “um escudo, um escudo, que a Dora diz tudo!”…
É claro que os livros aguentam algumas semanas nos escaparates - enquanto o público se lembra das caras de quem os escreveu, ou chora pelas suas desgraças. Depois esquece tudo, até porque entretanto já há outros desgraçados a aparecer, e é preciso sofrer por outras tragédias - e os livros somem. Será que hoje ainda alguém se lembra do título do livro que escreveu aquele Mário, concorrente de um dos Big Brother, que depois até esteve preso (não, não foi por causa de ter assassinado o português…)?
Publicar um livro, por si só, não faz de ninguém um escritor.
Aqui no meu bairro houve em tempos uma agência turística. Fraca, sem rasgo, aguentou muito pouco tempo. Mas o dono, honestamente, intitulava-se “grossista de viagens”.
Aí está: “grossista de palavras” talvez não fosse má designação para esses que de vez em quando publicam umas coisas que, à primeira vista – e porque somos um país de míopes — até parecem livros.
Mas ainda o pior de tudo é pensarmos que, para haver livros tem de haver papel; e para haver papel tem de haver árvores.
É então que recordo, com saudade, o meu amigo José Palla e Carmo quando dizia: “meu Deus, a quantidade de árvores que é preciso deitar abaixo para se fazer papel de parvo…”
«JN» de 13 Abr 08

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