quinta-feira, 6 de março de 2008

Duas notas sobre a Grande Entrevista com a MLR, hoje


Uma positiva (do meu ponto de vista e transcrevo mais ou menos as palavras da Srª ministra da tutela da educação):

MLR – “Os professores têm motivos para estarem insatisfeitos… são mais alunos, são alunos mais difíceis, mais cursos, mais horas de trabalho na escola, escola a tempo inteiro…”
– Reconhece o nosso esforço, o nosso empenho (nota +)

Uma negativa:

MLR – “Os professores estão mal informados sobre o processo de avaliação…”

Eu respondo: Esta mexeu comigo e com muitos milhares de professores que têm pós-graduações, mestrados e doutoramentos na área das Ciências da Educação, pagos do seu bolso e sem qualquer incentivo da tutela. A Srª ministra é doutorada em Sociologia (não lhe tiro o mérito do saber, na sua área), mas vem dizer-me que eu não estou informada em matéria de avaliação? Eu que tenho Mestrado em Ciências da Educação, especialidade de Teoria e Desenvolvimento Curricular e sou Doutoranda em Ciências da Educação, especialidade de Avaliação em Educação (até ponho a negrito caso a Srª ministra ou alguém do ME venha espreitar o meu blog)… falou dos blogues… Ora essa? Até o Sr. Secretário de Estado Valter Lemos tem menos habilitações do que eu… e nós é que somos os (des)informados?

Mais uma vez senti-me tocada na minha dignidade… acho que os professores não merecem ser tão enxovalhados.

5 comentários:

Rui Baptista disse...

Prezada Fátima:

Li o seu post de um equilíbrio louvável em todos os sentidos e em que manifesta a sua discordância em matéria processual de avaliação proposta pelo ministério. Ou seja, se bem entendi, para si, as melhores medidas se mal aplicadas tornam-se em péssimas medidas.

Quer isto dizer, segundo julgo, também, que aceitar a tese de que os professores são todos iguais, não vinga em sua opinião. Eu vou mais longe. É no, mínimo, vexatório para os bons professores (que os há) depararem-se com maus professores (que os há, também) a seu lado ou até a ultrapassá-los na carreira docente que tinha em atenção (quase) apenas o anos de serviço docente.

Sindicatos há que alegam que há professores titulares menos capacitados do que aqueles que o não são por serem preteridos numa grelha de avaliação repleta de defeitos. Em que ficamos? Até atingir a titularidade os professores são todos iguais, todos bons. A partir daí, e só a partir daí, é que passa a haver distinção que separa os bons, para utilizar um eufemismo, dos menos bons? Não haverá aqui falta daquilo que Antero teve como “soberaníssimo bom senso?”

Bem sei que o movimento actual é propício a que se façam rufar os tambores e se desfralde a bandeira de um descontentamento que grassa maioritariamente entre os que parecem estar contra todas as formas de avaliação porque se sentem cómodos e protegidos entre uma progressão quase automática, quase diria, "ad libitum".

Numa altura em que a estatística é chamada para tudo não seria conveniente saber o número de professores (num universo propício a isso) que antes do actual congelamento das carreiras não progrediram por falta de informação satisfatória?

SAM disse...

Não tenho a mínima consciência do que a ministra disse sobre a questão da informação, mas gostaria de ser informado da frase dela na íntegra pois, estava a pensar, Fátima, ela não quererá ter dito que vocês, os professores, não estão cientes da legislação e da sua aplicação aquando da avaliação?
Não sei. É só uma ideia de quem nem ouviu ou leu a entrevista...

Fátima André disse...

Caro Rui
Pois não, como em todas as profissões há pessoas que desempenham o seu trabalho com profissionalismo e são profissionais de excelência e há outros que o não são e nunca serão, talvez por falta de vocação e por outros motivos que conhecemos… muitos caíram na profissão porque não tinham outras saídas, pela massificação do ensino e a oferta de trabalho nesta área que abundou durante largo tempo…
Concordo com a indignação dos professores (bons profissionais) que se viram ultrapassados na carreira por professores com menos habilitações e que não têm qualquer perfil para os cargos que têm agora que desempenhar. Logo o concurso de Professores Titulares foi muito injusto, porque penalizou muita gente que estava destacado em outros serviços e de grande valor, professores que estavam a fazer mestrados e doutoramentos com licenças para o efeito… pessoas muito mais qualificadas… e a maior parte delas não ascendeu à categoria de Titular. Eu até defendo a carreira por categorias mas também defendo a equidade…
Numa comparação com o Ensino Superior, (que o Rui conhece melhor do que eu poderá confirmar ou infirmar o que digo… vou exagerar um pouquinho no exemplo para se perceber melhor): por exemplo, era a mesma coisa ter um Licenciado a ascender à categoria de Catedrático só pelos anos de serviço, sem nunca ter feito outra formação especializada (mestrado, doutoramento…), sem nunca ter feito uma comunicação, etc. Seria muito injusto e muito mau para a qualidade do ensino que meia dúzia de prof. nestas condições ocupassem todos os lugares de Catedrático e os seus colegas com doutoramento, só porque tinham menos anos de serviço e não havia vagas… passavam uma vida académica a ser auxiliar dos seus colegas catedráticos (licenciados)… era muito injusto, não é verdade?
Como o Rui diz “as melhores medidas se mal aplicadas tornam-se em péssimas medidas”, é isso mesmo que eu penso, uma boa medida pode tornar-se um desastre. Nem todas as medidas desta tutela são más de per se, o que acontece é que, todo o processo normativo-legal é paradoxal e desconexo da realidade das escolas, das suas necessidades, inclusive da formação de professores especializados em avaliação… se o ME fala em rigor… rigor exige conhecimento. O processo é tão injusto que temos professores com formação pós-graduada em avaliação que nem são professores titulares e vão ser avaliados pelos seus pares que nem um mail sabem mandar. O ME ‘passa a bola’ às escolas dizendo que estas têm autonomia para resolver estes os problemas pela delegação de competências… nós que estamos nas escolas sabemos que não é verdade o que a Srª Ministra disse ontem e por várias vezes (não há nas escolas professores titulares de outra áreas para delegar funções). Dou um exemplo (o meu caso): eu vou ter que avaliar docentes de 4 áreas científicas diferentes da minha e não tenho em quem delegar competências (apenas num caso seria possível fazê-lo). Reconheço que tenho competências se supervisão pedagógica, mas o mesmo já não posso dizer em relação às áreas científicas diferentes da minha… e tenho que ter? NÃO! Eu nem posso concorrer para dar aulas nesses grupos disciplinares (é porque o ME não me reconhece competência científica para tal e, muito bem digo eu, porque não sou licenciada nessas áreas). Então e agora que sou professora Titular passei a ser reconhecida com mérito para avaliar esses meus colegas de áreas diferentes da minha? É injusto, não é? E se um colega meu estiver a ensinar conteúdos científicos errados? Eu vou lá dar por isso? Isso não importa para o ME? O que importa é o pseudo-sucesso dos alunos?
Por isso diga-me, como é que este processo de avaliação pode promover o mérito e a excelência? Nunca. Muitos dizem que a ministra mente… pois mente e sabe mentir porque consegue passar para a opinião pública o que não é a realidade das escolas.
Este processo de avaliação está doente desde a sua origem. Ou seja, o trabalho de conceptualização do processo de avaliação não foi feito e não está feito. Não se começa o processo nas escolas a construir instrumentos, os instrumentos é o fim e não o princípio (o mesmo é querer começar a construir uma casa pelo telhado).
Desculpe, alonguei-me na prosa… isto de escrever ao sabor das teclas é no que dá.

Fátima André disse...

SAM,

Respondo-lhe como terminei o comentário anterior… pois estão, os professores estão mal informados, não é sobre a avaliação é sobre este processo completamente destrambelhado que todos os dias é uma surpresa nas escolas com alterações, prorrogações de prazos, circulares com esclarecimentos confusos, respostas dos serviços do DGRHE, a pedidos de esclarecimento das escolas, que são paradoxais e alguns até ilegais (basta consultar o Fórum do DGRHE) para ver, até arrepia. Sabe porque é que isto acontece? Porque lá pelas bandas do ME também não sabem como fazer… meteram-se numa embrulhada da qual não sabem a solução. Deviam ter começado por uma experiência (em algumas escolas-piloto e avaliar a experiência antes de a generalizar, melhorando, aperfeiçoando...). Este é outro problema, não se fazem avaliações de medidas, anda-se constantemente a reformar sem se saber o que está mal, onde é que está o erro… assim, como é que se pode saber o que há a melhorar?
A avaliação de profissionais é uma máquina muito complexa e não se pode impor brutalmente. A investigação não corrobora estas práticas que se querem implementar, saltando-se etapas fundamentais. Por exemplo, a conceptualização do processo da avaliação não foi feita e não está feita. Não se começa o processo nas escolas a construir instrumentos, os instrumentos é o fim e não o princípio (o mesmo é querer começar a construir uma casa pelo telhado). Como é que a Srª ministra quer os professores informados? Mas informados de quê? Não se pode exigir o que não se dá, não é verdade? Os professores conhecem as leis, estão entupidos de uma panóplia de leis, decretos, circulares e afins, o que os professores não sabem é como pôr de pé uma casa invertendo o processo de construção da mesma, mas o ME também não sabe… a desorientação é muito farta lá pelos corredores da 5 de Outubro.

Rui Baptista disse...

Prezada Fátima:

100% de acordo consigo, pois é esta a percentagem total: o processo de avaliação para uma progressão justa na carreira está inquinado desde o início. Ou seja, como disse no meu comentário inicial "as melhores ideias se mal aplicadas tornam-se em péssimas ideias". Este o nó Górdio da questão.

Com isso não se pense que sou apolegista da canção de António Mourão, proíbida após o 25 de Abril: "Ó tempo volta para trás!". E com isso se deixe tudo como estava.

Tenho dito, e repito, que os blogues têm a grande virtude democrática de não cortarem o "pio" ninguém, desde que os aegumentos sejam feitos com uma dose de civismo (por pequena que seja). Nos jornais, as ideias contrárias ou morrem no tinteiro ou são decepadas quando a direcção do jornal bem entende.

Grato pelo seu comentário que esclareceu algumas ideias do meu comentário que possam não ter chegado aos leitores por culpa minha.Finalmente, o que me apavora é o facto de a avaliação poder ser levada a efeito por professores sem qualquer competência para tão difícil e espinhosa missão e em que o compadrio pode ser moeda de troca de favores tão em voga na sociedade portuguesa. Infelizmente, e para desgraça nacional.