terça-feira, 4 de março de 2008

Descuidar a memória é um erro

A propósito do meu texto Apologia da memória, encontrei um pequeno vídeo, uma reportagem da RTP que alerta para a necessidade de exercitar a memória e para os riscos de o não fazermos. Vale a pena ver e ouvir. Os exemplos dados reportam-se a coisas simples e vivências do quotidiado pouco significativas, no entanto, se fizermos uma transposição para uma escala maior de saberes e conhecimentos que deveríam ser objecto das nossas aprendizagens, o caso torna-se bem mais complexo. Os estudos de neuro-ciências dizem exactamente isto: Se não estimularmos devidamente certas aptidões das crianças, elas nunca recuperarão. A memória é uma delas.


Ver Vídeo RTP (2.2.2008) - "Memória é cada vez menos exercitada"


“A maior parte das pessoas está a exercitar cada vez menos a memória. A culpa é de dispositivos electrónicos como as agendas de telemóvel, por exemplo, que fazem com que a maior parte das pessoas não fixe os números que usa todos os dias.”

Será só culpa dos dispositivos electrónicos???

Eu estou em crer que não. Do meu ponto de vista é uma questão de Educação. A culpa é mais dos sistemas de ensino e das políticas educativas que não clarificam o lugar da memória no processo de ensino/aprendizagem. Aliás, como já tive oportunidade de o dizer anteriormente, o valor da memória tem sido menosprezado nas orientações curriculares mais recentes por se identificar a memorização com um ensino técnico, uniforme e igual para todos… o que tem sido um erro. Perdeu-se o justo equilíbrio. Memorizar é uma técnica de estudo entre muitas outras, mas também ela necessária. A nossa memória é como o atleta, se não a mantivermos em forma, ela definha. É necessário exercitá-la. Não me venham dizer que basta adaptarmo-nos aos tempos modernos e que as tecnologias resolvem todos os problemas do ensino, porque não resolvem. Falo assim porque me considero uma pesssoa inovadora, adepta das TIC e faço uso delas no processo de ensino-aprendizagem... se lhe reconheço inúmeras vantagem, também conheço as desvantagens e alguns dos inúmeros perigos que espreitam.
Um sinal dos tempos.... ao qual é preciso estar atento!

7 comentários:

Anónimo disse...

Olá Fátima. Tenho visitado várias vezes o teu blog, mas só hoje exercitei a minha memória e com a ajuda dos materiais do prof. ramiro Marques, concluí que fátima André foi afinal minha colega de Mestrado. Continuação de um bom trabalho, são os votos de uma alentejana do litoral.
Bjs, até breve!

Fátima André disse...

Obrigada, de coração pelas visitas e pelas leituras.
Beijos aí para o litoral alentejano :)

Fátima André disse...

Obrigada, de coração pelas visitas e pelas leituras.
Beijos aí para o litoral alentejano :)

João Soares disse...

Parabéns pelo seu blogue. Espero uma visita sua ao BioTerra.
Num acto de intercâmbio, o Revisitar a Educação já consta do meu Dossier Educação.
Saudações

Anónimo disse...

Olá, Fátima. Já corrigi o link. Sabe o que é? Falta de vista e cansaço.
Ramiro

Rui Baptista disse...

Cara Fátima: Com grande oportunidade, versa um tema que me é grato. Infelizmente, na recordação de alunos do tempo da nossa escolaridade que papagueavam nos exames orais ou escritas, sem terem compreendido, a matéria dos livros e sebentas, com vírgulas, pontos e vírgulas e pontos (na gíria académica, os chamados marrões), veio, em força, o princípio de que a memória pode ser um sinal de falta de inteligência (conceito abstracto, que abarca uma panóplia imensa de “formas” de aptidões para a matemática, para as letras, e, mesmo, para a prática desportiva que exige “skill’s” próprios: a chamada inteligência psicomotora).

Todas estas formas de inteligência fazem parte do nosso código genético com zonas corticais específicas que, devido, à plasticidade do cérebro podem ser melhoradas até um certo ponto. Como diz um reputado estudioso das neurociências, Richard Thompson, “o cérebro humano consta aproximadamente de 12 biliões de neurónios e o número de interconexões entre eles é superior ao das partículas atómicas que constituem o universo inteiro”. Impressionante, não? Isto mais se complica quando temos em atenção o papel dos neurotransmissores nessas interconexões. Os neurotransmissores são substâncias químicas de uma importância capital: muitas doenças mentais ou de degenerescência cerebral estão dependentes de um equilíbrio perfeito da sua produção, como a serotonina, por exemplo.

O ensino moderno descurou, lamentavelmente, o papel importantíssimo da memória no desenvolvimento da aprendizagem das crianças, através da pouca (ou nenhuma) importância dada à tabuada e ao cálculo mental, por exemplo, substituído por simples maquinetes que fazem as contas por elas. A memória é como uma biblioteca a que se recorre ou uma fonte de dados computorizada para o raciocínio que se depende, como a boca para o pão, de associação de ideias.

A Cibernética, que para Platão significava apenas “a arte de conduzir um navio”, foi recuperada por Wiener (1948) para nomear “o antigo governo de uma máquina, com certa autonomia e capacidade de iniciativa e sua aplicação ao estudo do sistema nervoso”. Quase podemos dizer que a cibernética criou pernas para andar embora numa progressão que nos levará a caminhos que fogem à nossa compreensão actual.

Esta uma pequena achega à sua preciosa chamada de atenção para o importante papel da memória, e tão descurado actualmente, nas aprendizagens escolares das crianças por mais”inteligentes” que sejam.

E já que falei do pão para a boca,
estas apenas migalhas de um tema que pode ser que venha a ampliar num futuro post, quando o mar encarpelado da discussão sobre as reformas do sistema educativo amainar, para o bem dos alunos, dos professores e da educação portuguesa.

Fátima André disse...

Caro Rui Baptista,

Muito obrigada pelo precioso contributo do seu post. Aliás, eu até gostaria de afixar este seu contributo na página principal. Se concordar e aceitar o desafio, proponho que este seja um post convidado. Se pretender melhorar ou acrescentar algum dado pode fazê-lo e enviar-me o texto para (com uma sugestão de título):

revisitaraeducacao@gmail.com