segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Sobre os Clássicos da Literatura I

Apesar da retórica da tutela, e da mais que evidente necessidade de desenvolvimento de competências de Literacia, a literatura mais erudita não é no presente encarada como fundamental para o desenvolvimento de competências. Basta ter presente as orientações curriculares para o Ensino Básico em que o que interessa e prevalece é a contextualização sócio-cultural dos saberes e das aprendizagens, logo, para quê estudar autores clássicos se estão distantes no tempo e da realidade contextual dos alunos? E de que serve aprender poesia se não tem qualquer utilidade imediata, nem se vislumbra o desenvolvimento de competências “em uso”?

Vamos aqui publicar um conjunto de textos (publicados em simultâneo no De Rerum Natura), dos quais o que se segue é o primeiro, da autoria de Maria Helena Damião (colaboradora habitual deste blogue) e Maria Regina Rocha. As autoras explicam de forma clara e objectiva a importância da Literatura Clássica no desenvolvimento de competências de literacia no Ensino Básico. Assim, procuram fundamentar o seu posicionamento, por um lado, com base no que diz a investigação científica nesta área, por outro, porque a tradição educativa ocidental o justifica e ainda porque é uma função da Escola transmitir a herança civilizacional e cultural às novas gerações.


Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!

A propósito da “Colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças”, uma publicação conjunta do semanário Sol e das Quasi Edições.
O título deste texto, praticamente decalcado de uma famosa canção do álbum The Wall dos Pink Floyd, pretende denunciar a tendência de alguns intelectuais se intrometerem entre as crianças e os livros, porque supõem que as crianças de hoje não gostam de ler ou que, de facto, não lêem.

Antes de mais, esta suposição é muitíssimo discutível, pois não temos dados precisos sobre os gostos e a quantidade de leitura das crianças de hoje. Por outro lado, não temos, mesmo, dados sobre os gostos e a quantidade de leitura das crianças de outros tempos, de modo que não podemos proceder a qualquer comparação objectiva entre gerações.

Ainda que sem fundamento científico, a dita suposição tem justificado o recurso a uma estratégia que se vai instalado, progressiva e confortavelmente, entre nós: em vez de se passarem para as mãos das crianças obras originais, passam-se-lhes extractos breves e adaptações ligeiras das mesmas, em que se nota um cuidado cirúrgico em extrair ou substituir toda e qualquer palavra ou frase supostamente mais difícil, para que as crianças não sintam nenhuma dificuldade ao ler os textos e, assim, não se “desmotivem”. Para tornar esses extractos e adaptações ainda mais atractivos, rodeiam-se de amplas e garridas ilustrações.

Se nos manuais escolares de Língua Portuguesa do Ensino Básico esta estratégia é uma constante, porque não estendê-la a outras iniciativas para captar a atenção dos pequenos leitores, de modo que um dia sejam grandes leitores?
Esta deve ter sido a pergunta que o semanário Sol e as Quasi Edições fizeram e que desencadeou uma parceria entre ambos para adaptar textos de alguns dos nossos melhores autores. Trata-se da “Colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças”, sendo os clássicos em causa os seguintes:

Sermão de Santo António aos Peixes, de Padre António Vieira;
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente;
Frei Luís de Sousa e Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett;
A Morgadinha dos Canaviais e Os Fidalgos da Casa Mourisca, de Júlio Dinis;
Amor de Perdição e A Queda de um Anjo, de Camilo Castelo Branco;
Os Maias, A Cidade e as Serras e A Relíquia, de Eça de Queirós;
O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa.

Não se trata de clássicos, no sentido específico do termo, mas de autores ou obras cujo valor é reconhecido por todos. Os livros que até ao momento saíram são muito fininhos, com caracteres muito grandes, palavras destacadas, frases dispersas por linhas irregulares, ilustrações que ocupam páginas inteiras, remetendo o texto para um lugar secundário. E que texto? Não o texto esperado, o do grande escritor, mas um outro texto, o do autor da adaptação ou do resumo, que nem adaptação chega a ser.

Facilmente se retira a seguinte conclusão: os autores responsáveis por estas adaptações, que são escritores e professores universitários, alguns deles com uma forte influência na opinião pública em matéria de cultura e de educação, consideram que para as meninas e os meninos se prenderem à leitura dos clássicos, o melhor é poupá-los à leitura dos clássicos.Antes de tudo, o procedimento em causa não está isento de uma reflexão ética: que legitimidade tem um escritor, por muito mérito que lhe seja atribuído, de mexer na obra de outro escritor? Ainda que daí resultassem ganhos importantes em termos de gosto e competência na leitura das crianças, não se pode negligenciar o princípio de que nem todos os meios justificam os fins, por muito louváveis que estes se afigurem.

No caso concreto, estamos em crer que esta questão nem se chega a pôr, pois não há qualquer ganho, mas o contrário. Com base em dados da investigação pedagógica podemos afirmar, com segurança, que independentemente do nível socioeconómico, cultural, étnico ou outro aspecto distintivo, as crianças:
- adquirem competências na leitura e gosto por ler se os adultos que as acompanham lhes proporcionarem, desde idades precoces, bons textos e as ensinarem, por um lado, a inferir a informação neles implícita e, por outro, a apreciar os próprios textos;
- não se desmotivam quando encontram palavras desconhecidas ou frases estranhas nem quando se confrontam com textos extensos sem imagens, desde que os adultos estejam atentos e consigam gerir o grau de dificuldade que se lhe deve proporcionar.

Enfim, as crianças compreenderão e prender-se-ão aos clássicos se tiverem contacto com eles.
Outro aspecto a destacar é o seguinte: as obras dos grandes escritores, agora adaptadas, são literatura, são criação, são obra de arte. E a obra de arte deve ser inviolável.

Não passa pela cabeça de ninguém, por exemplo, macular um quadro de um grande pintor, retirando-lhe elementos, esmaecendo cores ou transformando algumas das figuras ou paisagens retratadas, para que uma criança o interprete melhor. Do mesmo modo, na obra literária tal não pode ser feito, sob pena de estarmos a estragar o que é belo, a ultrajar o autor e a enganar o leitor, que pensa que está a ler um clássico e, está, afinal, perante um produto medíocre, que, naturalmente, o fará detestar a literatura, por pensar ser literatura aquilo que lhe apresentam como tal.

Efectivamente, como era previsível, os livros da dita colecção já divulgados são exemplo de produtos medíocres, um atentado, uma afronta às obras dos clássicos.Mesmo uma leitura superficial permite, de imediato, verificar que, na adaptação do Auto da Barca do Inferno, o texto vicentino é substituído por um outro texto em verso, com supressão de cenas, alteração do conteúdo essencial de outras, acrescentos abusivos, sendo mantidos termos hoje classificados de calão e introduzidos outros do mesmo teor... E a obra vicentina é, no próprio texto, denominada “entremês”, assim mesmo, com o erro ortográfico. Ora, classificar de entremez o Auto da Barca do Inferno é insultar Gil Vicente.

Quanto à adaptação de Amor de Perdição, que dizer de passagens como “Domingos Botelho Meneses, apesar de ser mesmo muito horroroso, ao ponto de assustar o medo e pôr a noite a fugir a sete pés, era um homem inteligente”, “quando chegaram a Vila Real, D. Rita pôs-se logo a mandar vir com o marido”, “os pais estavam muito chateados com ele”. Camilo Castelo Branco nunca teria imaginado que pudessem introduzir tais expressões em obra sua!

A pior destas três primeiras adaptações é a de Os Maias. Nela desaparece o estilo do escritor, desaparece a crítica social, desaparecem as cenas da crónica de costumes, desaparece a simbologia, desaparece a reflexão sobre o homem e o destino e fica uma historinha sobre o incesto entre dois irmãos, o adultério, relações pautadas pela falsidade, Ega assim caracterizado: “estudava pouco, mas era muito esperto, apaixonava-se com frequência e arranjava sempre festas para se divertir”... Edificante para as crianças!... Isto para não falar dos erros de pontuação (por exemplo, vírgula entre o sujeito e o predicado e entre o predicado e o complemento directo), do deficiente emprego do particípio passado (“não tinha aceite o casamento”), dos constantes erros na utilização dos tempos verbais (por exemplo, “Ega veio ao seu encontro, desesperado, e contou-lhe que aconteceu o pior”; “Entretanto, acabou por saber que Castro Gomes foi para o Brasil”), de erros de regência (“exprimiu todos os seus ciúmes para com Carlos”), de repetições e construções frásicas arrepiantes (“Ega contou-lhe a forma como esse livro iria contar toda a história da humanidade”; “Carlos decidiu partir numa longa viagem, onde visitou grande parte do mundo”; “voltou então a reencontrar amigos”)... Ah, e da transformação de um americano em eléctrico! Na época retratada n’Os Maias ainda não havia eléctricos em Lisboa...

As crianças perguntar-se-ão: mas... são estas as obras dos grandes escritores portugueses? Os grandes autores escrevem assim?

É preciso dizer claramente que não, que os grandes escritores portugueses não escrevem assim, que estes textos apenas usurparam os títulos de renome, e que vale a pena ler os clássicos, mas os clássicos, e não isto!

É preciso considerar, ainda, que as más adaptações são prejudiciais. Se um texto de menor qualidade não afecta uma criança que já é uma boa leitora e que lerá esse e outros, sendo mais imune aos efeitos nefastos daquilo que não presta, já um mau texto na mão de uma criança que não tem muito gosto pela leitura fará com que ela se desinteresse de vez.

E também se deverá referir que nem todas as obras são adequadas a todos os níveis etários, quer pela extensão, quer pela temática, quer pela construção de universos adultos que as crianças ainda desconhecem. Assim, será bom que as obras sejam lidas na idade própria, em que se poderá apreciar toda a sua riqueza.
Posto isto, entendemos que as adaptações dos clássicos que desencadearam o presente texto constituem mais um factor a concorrer para o empobrecimento da competência linguística e literária das crianças. E, em última instância, para que elas se afastem dos melhores livros, pois não são estes que lhes são proporcionados, mas, sim, maus sucedâneos.

Maria Helena Damião e Maria Regina Rocha

Nota: Pela pertinência e actualidade do assunto, terá este texto continuação.

Imagem retirada de:
http://www.digestivocultural.com/upload/fabiosilvestrecardoso/classicos.jpg

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