segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Investigação do erro no desempenho profissional


A propósito do último artigo de Miguel A. Santos Guerra Voy a pasar lista cronológicamente, a que aludi no meu post Disparates em educação... ignorância, erros ou maldade?, recupero o resumo de uma comunicação de Maria Helena Damião ao Congresso “Educação e Democracia”, que decorreu na Universidade de Aveiro (2007). Esta Professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra é a Investigadora que, em Portugal, mais tem aprofundado o conhecimento neste domínio do Erro no Desempenho Profissional, na área da Educação[1].

Resumo da comunicação – Metodologia de investigação do erro no desempenho profissional:

O erro de desempenho de profissionais que exercem funções de grande responsabilidade técnica, social, ética (como médicos, engenheiros, pilotos de aviação) tem sido, nas últimas décadas, objecto privilegiado de estudo no âmbito da Psicologia Cognitiva. Neste quadro, os investigadores têm utilizado uma diversidade de metodologias que, na segunda metade dos anos noventa do século passado, James Reason ordenou em cinco alíneas, a saber:
(1) métodos naturalistas, utilizados na identificação, descrição, análise e classificação de erros na sua ocorrência real. Recorrendo-se, muito frequentemente, à auto-observação, procura-se estabelecer padrões de erro. Dado que o investigador tem pouco ou nenhum controlo sobre as circunstâncias em que os erros ocorrem, as explicações científicas a que se pode chegar possuem uma validade limitada;
(2) questionários que, no geral, consistem na elaboração de descrições de diferentes tipos de erro, solicitando-se aos sujeitos que se pronunciem acerca da frequência com que ocorrem no seu desempenho. Permitem estes métodos conhecer, com um rigor aceitável, diferenças individuais quanto à predisposição para certos erros, assim como inventariar mecanismos de controlo que lhes estão associados mas é importante não esquecer que estão muito dependentes das impressões subjectivas dos sujeitos, as quais podem introduzir distorções graves no conhecimento;
(3) estudos laboratoriais, que permitem investigações experimentais. Apesar de constituírem uma metodologia adequada para estudar erros muito específicos, exigem um controlo preciso dos factores neles intervenientes, o que só se consegue de modo artificial, deslocando estes fenómenos das situações em que normalmente ocorrem;
(4) estudos de simulação, que constituem uma vertente recente da investigação. Com apoio do computador é possível criar em laboratório características da realidade e da decisão em tarefas complexas, nas quais se introduzem certos tipos de erro, mas padecem das mesmas limitações do método anterior;
(5) estudos de casos, geralmente utilizados para analisar erros reais que assumem dimensões catastróficas, com a intenção de despistar os diversos factores causais neles intervenientes. Apoia-se, em grande medida, na recolha de relatos das pessoas directamente envolvidas nos erros, os quais, por essa razão devem ser tratados com alguma reserva, pois podem ser incorrectos ou incompletos.

A proponente da comunicação, além de apresentar e explorar estas metodologias, reflecte sobre as estratégias e instrumentos que tem utilizado na investigação do erro do desempenho docente (mais precisamente das atitudes dos professores face ao erro de ensino), a qual envolve a utilização de uma Escala de Atitudes e uma Entrevista de Explicitação.

Nota: Como já aqui o dissemos anteriormente, a circunstância de detectar erros nas práticas dos colegas, é um processo complexo que desencadeia um dilema nem sempre fácil de gerir pelos profissionais da educação que não estão habituados a que outros colegas critiquem o seu trabalho, as suas práticas. No entanto estas práticas (de Investigação e de Avaliação) são fundamentais por três grandes razões, segundo Damião & Fragata (2006): (1) para prevenir erros (Pré-acção); (2) para detectar e remediar erros (Acção); (3) para recuperar erros (Pós-acção).

[1] Para saber mais sobre o tema consultar:
Damião, M. H. (2001). O erro no ensino: conceptualização e estudo empírico. Tese de Doutoramento apresentada à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
Damião, M. H. & Fragata, J. (2006). O erro e o mal. In Actas do IX Congresso Interdisciplinar e Multidisciplinar – A Maldade Humana: Fatalidade ou Educação? Coimbra: Universidade de Coimbra.

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