sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Apologia da memória

A propósito do texto anterior que faz sobressair a importância da aprendizagem por modelação, recupero um texto meu de 2007 (adaptado) em que procuro firmar uma outra dimensão do ensino que também tem sido menosprezada pelas actuais políticas educativas –, a memória. Sobre o tema poderá ler para aprofundar Memória e carga cognitiva, um texto de Idalina Jorge.


Por Fátima André*
«Hoje, a nossa escolaridade é de amnésia planificada» (Steiner e Ladjali)

Há quem defenda que qualquer conteúdo, qualquer saber é justificável no âmbito do ensino por competências, ou até mesmo que se abdique dos conteúdos e dos saberes mais eruditos; no entanto, não me parece razoável ensinar sem conteúdos ou que quaisquer conteúdos, conhecimentos, justifiquem o ensino por competências. Isto não significa que não se ensinem saberes considerados populares na escola. Há saberes populares que têm valor e devem ser ensinados na escola, assim como há saberes eruditos que têm valor e devem ser ensinados na escola. O que importa é o valor dos saberes. É menos relevante o que se chama às intenções pedagógicas, se objectivos se competências, o que é importante é que se tenha claro, para onde queremos conduzir os alunos em termos cognitivos e afectivos.

O desenvolvimento integral dos alunos passa por uma escolha criteriosa de conteúdos e valores a ensinar na escola. Estes devem ser devidamente ponderados e devem ser escolhidos entre os que considerarmos melhores, com mais valor; organizando o ensino e planificando de forma coerente atentando as intenções de desenvolvimento dos alunos.

Defender que o aluno é capaz de procurar, descobrir o conhecimento e que o professor deve ser apenas um guia, um orientador, é uma ideia falaciosa. Não podemos pedir a uma criança no estádio das operações concretas que reconstitua todo o conhecimento que a Humanidade demorou uns milhares de anos a construir. Assim como qualquer aluno do 1º Ciclo ao Ensino Superior não poderá nunca descobrir por si só todo o conhecimento. Secundo a ideia que já apresentei em outros lugares –, é preciso assumir que o professor tem que ensinar, instruir, transmitir conhecimentos, direccionar os interesses dos alunos, levar os alunos a assumirem valores universais… e desenvolver competências dos alunos, porque se não o fizer é a inteligência e o afecto dos alunos que ficam comprometidos e, de seguida, a sociedade. Deve fazer tudo isto com as estratégias de que hoje dispomos e não com as estratégias de há quarenta, trinta, vinte anos atrás... Não podemos é negligenciar a memória[1]. Não exercitá-la, é um erro gravíssimo que se faz notar em relação à aprendizagem da Matemática, da Língua Portuguesa, da nossa memória histórica, cultural, literária… que, sem grandes sobressaltos intelectuais, caíram nas malhas do relativismo cultural (todas as aprendizagens têm o mesmo valor, o que importa são as competências). Não é verdade, não têm o mesmo valor!

Para perceber esta falácia, basta ter presente a lógica do “saber em acção ou em uso”, da “mobilização de competências no quotidiano”, que se tem firmado nos sistemas educativos ocidentais nos finais do séc.XX e dealbar do séc.XXI sobre pretextos politicamente correctos como o da democratização, da igualdade de oportunidades, pretendendo preparar os alunos para uma lógica utilitarista e imediatista de resolução de problemas, de acordo com as vivências e contextos sociais dos alunos. Nesta lógica, autores eruditos como Homero, Camões, Kant, Einstein… estão longe de responder aos interesses imediatistas dos alunos. Seguindo a mesma lógica, entre muitas interpelações noto uma para reflexão: Para que serve a poesia?

É importante incutir nas crianças o valor dos saberes. Martín Gordilho[2] relembra que «Educar para conhecer deveria ser também educar para desejar conhecer. Recuperar o prazer de descobrir e aprender é vital no âmbito educativo». Em alguns textos e comunicações[3] tenho procurado firmar esta necessidade de se recuperar a dimensão não instrumental do conhecimento, ou seja, de incutir nos alunos o prazer de conhecer como motivo de felicidade. Uma dimensão que só alcançaremos ensinando a amar e aprendendo a amar. Também o amor, nem sempre espontâneo, exige sacrifício, esforço, treino… para não definhar e tornar-se fecundo e belo!

Em suma, entre muitos outros, o valor da memória tem sido menosprezado nas orientações curriculares mais recentes por se identificar a memorização com um ensino técnico, uniforme, igual para todos… embora seja um erro ver apenas o lado menos venturoso deste, desacreditando de imediato o enorme potencial de cada criança apto a desabrochar nos primeiros anos de escolaridade (se for devidamente estimulado). Ou seja, a nossa memória é como o atleta, se não a mantivermos em forma, ela definha. Os estudos de neuro-ciências dizem exactamente isto: Se não estimularmos devidamente certas aptidões das crianças, elas nunca recuperarão. Dá que pensar, não é!

* Mestre em Ciências da Educação – Teoria e Desenvolvimento Curricular
Doutoranda em Ciências da Educação – Avaliação em Educação
Professora da EBI do Carregado

Notas e Referências:
[1] Neste particular, os estudos sobre o desenvolvimento dizem-nos que de pouco valeria a nossa carga genética se não fosse a estimulação do meio.
[2] Martín Gordilho, M. (2006). Conocer, manejar, valorar, participar… in Revista Iberoamericana de Educación, nº 42, pp. 69-83.
[3] André, F. (2007a). Construir pontes em educação, da diversidade à igualdade de oportunidades, in A Página da Educação nº 168, Junho, p. 45.
André, F. (2007b). O amor à cultura… cultiva-se.
André, F. (2007c). Metamorfoses em educação e o elogio do conhecimento.
André, F. (2007d). Ensino orientado por competências e/ou por conteúdos?, in A Página da Educação nº 170, Agosto/Setembro, p. 43.

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