sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Grande Irmão está a ver-te

Depois de terminarmos o ano civil de 2007 e entrarmos ao mesmo ritmo no de 2008 atafulhados da já habitual panóplia de documentos legislativos e afins, com indigestíveis medidas e orientações provenientes da Tutela da Educação, talvez seja oportuno um momento de reflexão.
O povo diz que a história se repete. Terá o seu quê de verdade. Vejamos uma análise mais realista do que pessimista: o BIG BROTHER a que George Orwell alude no seu livro “1984” passou a fazer parte da vulgaridade quotidiana, das nossas escolas, mas não só. Já aqui falámos anteriormente da videovigilância que está em crescente apoteose. E ao que parece, a maioria dos cidadãos, bate palmas. Coisa estranha!
E a instituição da Avaliação de Desempenho Docente, na modalidade em que vai ser implementada, não será um controlo desmedido, irrealístico, punitivo? Em que dignifica a classe docente ou o ensino? Que benefícios poderá trazer para a melhoria do desempenho profissional? Ou para o sucesso dos alunos? Sinceramente, não os consigo vislumbrar… pode ser que daqui a uns tempos mude de opinião… Eis a minha esperança!

Não tenho qualquer dúvida que a Avaliação do Desempenho Docente é uma necessidade e remeto para leituras já aqui afixadas anteriormente Avaliação do desempenho docente I e Avaliação do desempenho docente II, que apresentam propostas muito mais coerentes e equitativas do que as impostas pela Tutela.

Deixo-vos com um excerto de uma das melhores alegorias de todos os tempos criada para criticar uma fase dura que marcou a história mundial – “1984”. Ela é a antípoda de todos os anseios democráticos.


«Lá em baixo, na rua, o vento sacudia o cartaz descolado, e a palavra aparecia e desaparecia caprichosamente. ENGSOC. Os princípios sagrados do ENGSOC. Novilíngua, duplopensar, a mutabilidade do passado. Winston sentiu-se como se errasse pelas florestas do fundo do mar, perdido num mundo em que o monstro era ele próprio. Estava só. O passado estava morto, o futuro afigurava-se inimaginável. Que certeza podia ter de que um único ser humano hoje vivo estivesse do seu lado? E como saber se o domínio do Partido não duraria para sempre? À guisa de resposta, vieram-lhe ao espírito as três palavras de ordem inscritas na fachada branca do Ministério da Verdade:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA.

Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Também aí, em pequenas letras nítidas, estavam inscritas as mesmas palavras de ordem e, na outra face, a efígie do Grande Irmão. Até na moeda os olhos perseguiam uma pessoa. Nas moedas, nos selos, nas capas dos livros, no invólucro dos maços de cigarros – em toda a parte. Sempre aqueles olhos a fitar-nos e aquela voz a envolver-nos. Na vigília ou no sono, a trabalhar ou a comer, em casa ou na rua, no banho ou na cama - não havia fuga possível. Nada nos pertencia, excepto os poucos centímetros cúbicos dentro da nossa cabeça.

O sol avançara no céu, e as inúmeras janelas do Ministério da Verdade, já sem luz a fazê-las brilhar, surgiam soturnas como as seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston estremeceu ante a enorme forma piramidal. Era demasiado sólida, não podia ser abalada. Nem mil mísseis a deitariam ao chão. De novo perguntou-se a si mesmo para quem estava a escrever o diário. Para o futuro, para o passado – para uma era provavelmente imaginária. E diante dele erguia-se, não a morte, mas o aniquilamento.»

Extraído de:
Orwell, G. (2007; ed. orig. 1949). Mil novecentos e oitenta e quatro. Lisboa: Edições Antígona. (pp. 32-33).

Ps: Um livro que continua muito actual e que vale a pena (re)ler.

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