terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O fascínio pela aparência pode não dar bons resultados

Ontem (re)li um texto que corre já algum tempo via e-mail e também na blogosfera e que faço questão de afixar também de seguida, não para o elogiar (como à primeira vista somos tentados), mas para emitir um juízo de valor sobre o seu conteúdo, mensagem e os perigos que ela transporta.

“De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo. Sohw de bloa.”

Este é apenas um exemplo, mas circulam muitos outros do mesmo género.
Para termos consciência de que não é assim tão simples e bela a “bagunçada total”, vamos lá fazer um outro exercício e ler ou tentar ler o texto que se segue, desta vez um conteúdo científico:

“Dnatrue a ddacéa suneitge, pemrictaante nunéigm loveu os qatnua de luz a siréo, pleo moens até Derembzo de 1922, arulta em que siargurm os rodelustas da erêiepncixa de Atruhr Copotmn, que ilacpimvam iveanlittenveme a iponteçarretã de que, na ironteçacã com os ertlecões, a raçaidão se catompvora cmoo se fsose um fixee de qnatua, dotrisces, com ergeina e metomno (ou qdandaitue de mtmnveoio) bem dondeifis, itso é, cmoo pulcaratís. O nmoe fãoto praa esse tpio de pacaíltrus fio sigudreo por Geriblt Leiws em 1926.” (excerto de um texto com informação científica, retirado do De Rerum Natura e (re)escrito por um leitor)

Fica a interpelação: Lê-se com a mesma facilidade?

Assim à 1ª vista (e só no 1º caso) até parece uma coisa fantástica, fascinante, mas será mesmo? Mas vamos lá pensar melhor. O excerto do 2º texto que afixei (supra) podia muito bem ser parte de uma resposta de um aluno a uma das questões por nós formulada sobre um conteúdo a avaliar nos testes de avaliação da nossa disciplina. Seria mesmo fácil ler? E corrigir? E se tratasse de ler um texto de 50 páginas? E se todos os alunos escrevessem assim? E se…

Mas o problema é bem mais profundo e prende-se com os níveis de iliteracia de leitura e compreensão que temos em Portugal. E não falo só no ensino básico, embora o grande problema é aqui que reside, este já se estende e, em crescente ascensão, à Faculdade. A ela chega um assustador número de jovens que não têm conhecimentos, nem competências básicas, de leitura, escrita, compreensão... e por isso é que elas são básicas, ou seja, fundamentais.

O que me parece mais grave é que as mais recentes e “inovadoras” medidas curriculares e organizacionais em nada contribuem para esbater problemas que se prendem com o abrupto “analfabetismo cultural e humanista” em pleno Séc. XXI, o que é ou deverá ser motivo de muita preocupação.

Dizer que tanto faz ler da direita para a esquerda, debaixo para cima, trocar ou alterar a ordem das letras e números… é menosprezar o valor da língua, do legado cultural que levou séculos a construir, e, naturalmente, do próprio conhecimento.

Temos que inverter esta marcha porque caminharmos a passos largos para um “novo” abismo e que será o regresso à barbárie. A asneirada é pegada, e os erros das medidas (mais recentes) anunciadas como fantásticas havemos de pagá-los bem caros. E são os nossos filhos, netos… que as esperam. Não tenhamos medo de ensinar os valores da excelência, da exigência, do trabalho, da dedicação, do esforço, da importância da identidade de um povo, da cultura, da tolerância, da diversidade e da complexidade e da (re)aprendizagem e valoração da experiência e do respeito pelo papel e função dos mais velhos… enfim… e por aí fora.

Em suma só posso concluir que discordo inteiramente do “tanto faz”… pela porta da relativização dos valores supracitados e outros valores universais, entram muitos outros males. Não podemos permiti-lo. Pelo contrário, como educadores (educadores de infância, professores, pais e demais parceiros) temos o dever moral de contribuir co-responsavelmente para inverter o processo e labutar por um mundo melhor para a humanidade. Ele será melhor se pessoas como os nossos filhos e os nossos alunos forem portadores de aprendizagens pautadas por valores absolutos, Valores Universais.

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