quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Cumpre a escola, hoje, a sua função?

A propósito das imagens afixadas no último post, sobre costumes e, no seguimento da temática dos últimos posts aqui afixados, sobre a igualdade de oportunidades, recupero um texto de Maria Helena Damião[a], publicado no Diário de Coimbra (2006). Dele, uma interpelação me fica: Cumpre a Escola, hoje, a sua função?

“Que eu (nunca) seja chamada/o à escola”

Mais do que “uma” sentença parental proferida no início de cada ano lectivo, a frase que dá título a este texto era, no tempo em que eu andei na escola que agora se chama Básica, “a” sentença. Apesar do seu sentido não ser explícito, toda a gente percebia o que os pais queriam dizer com ela: “se causares problemas (de comportamento, bem entendido) e a escola me chamar, terás um castigo certo e sério à tua espera em casa”.

Na verdade, até há poucos anos, a generalidade das escolas não tinha as famílias por “parceiros educativos”. Na minha escola primária algumas mães (não me lembro de nenhum pai) acompanhavam a filha ou o filho no primeiro dia de aulas e no exame da 4.ª classe. Fora destas ocasiões apenas um problema grave faria a professora chamar os encarregados de educação; no Ciclo Preparatório a sua presença era residual; e nos Cursos Geral e Complementar dos Liceus, era mesmo excepcional. Claro que a minha experiência pessoal, semelhante à do nosso professor-poeta Sebastião da Gama (Cf. Diário, página 194), não aspira a ser universal, mas ilustra uma política educativa que agora julgamos desadequada e à qual contrapomos a de participação activa da família na escola. Tal participação, parecendo mais razoável, não está no entanto, isenta de questões, talvez porque ainda não se encontre devidamente definida. Não me detenho nesse assunto, apenas quero deixar um bom exemplo de comunicação entre professores e pais.

Trata-se do exemplo de Cécile Ladjali, uma professora de francês em escolas suburbanas e multiétnicas de Paris, onde, em geral, ninguém deseja ser colocado. Ela pensa que os seus alunos, quase todos socialmente desfavorecidos, devem aprender a pensar por si próprios (até aqui, tudo bem...), sendo, para isso, necessário contactar com a literatura e iniciar-se na criação literária. Com esta premissa arriscou ser considerada elitista, pois, quando se trata de populações das periferias e, muito importante, pobres, é comum evoca-se o relativismo cultural e a contextualização das aprendizagens no grupo social. Ladjali, apesar de estar consciente disso, passou à acção, conseguindo que muitos (não todos) dos irrequietos adolescentes que lhe calharam, lessem Goethe, Proust e Wilde, e escrevessem, num clima de grande exigência, sonetos e uma peça de teatro. Os trabalhos foram dignamente apresentados ao público: os sonetos em forma de livro, Murmures; a peça, Tohu-Bohu, encenada e representada. Entre o público a que foram apresentados estavam alguns pais que puderam perceber o que a escola pode fazer de melhor: oferecer aos seus filhos outros horizontes, de modo que eles possam escolher o seu destino. “Espero ser chamado/a à escola”, poderia ser a afirmação desses pais.

Nota: Esta aventura educativa está relatada no livro Elogio da Transmissão: o professor e o aluno, de C. Ladjali e de G. Steiner, publicado pela Dom Quixote, em 2005.

[a] Maria Helena Damião
Docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

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