segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

"A compreensão na leitura"

Tal como prometido no post anterior, aqui estão algumas notas sobre o estudo de investigação a que se refere a notícia da última edição do Jornal SOL (5.1.2008). Vale a pena ler.

Por João Boavida

Professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

(Publicado no Diário AS BEIRAS em 20/11/07)


A Compreensão na Leitura: análise de manuais do 4.º ano de escolaridade é o título de um trabalho que resultou de uma investigação levada a cabo na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, que todos os professores e autores de manuais de Língua Portuguesa deviam ler e interiorizar. Trata-se de uma dissertação de Mestrado em Ciências da Educação que merece referência pela actualidade e importância do tema, a qualidade da investigação e a pertinência das conclusões. O trabalho, realizado por Regina Rocha e orientado pelas Doutoras Maria Helena Damião e Maria Isabel Festas, docentes da referida Faculdade, consiste na análise de doze manuais de Língua Portuguesa (mais de 94% do total em uso) com exploração de novecentos textos e mais de seis mil perguntas neles incluídas.

Por que falo neste trabalho? Porque é exemplo de uma investigação sobre o importantíssimo assunto da compreensão da leitura, feita com exigência científica e metodologia adequada. Acresce que a autora não precisou de estudos caros, é uma “simples” investigação de pós-graduação, mas com resultados muito claros sobre os manuais que temos e os cuidados que devíamos ter na sua concepção e produção. E com sugestões sobre o que fazer para ter leitores interessados, capazes de obter as informações que os textos proporcionam e de os compreender, de usufruir da sua qualidade e beleza, quando as possuem, e de saber rejeitá-los quando as não têm.

Considerando que Regina Rocha é uma professora com longa experiência e muitos trabalhos no domínio do ensino do Português, garante a ligação entre a investigação universitária e os problemas do ensino. Por outro lado, o trabalho, muito bem orientado por duas professoras da Faculdade, é um exemplo, entre muitos outros, de como a investigação em Educação, desde que criteriosa e metodologicamente correcta, pode dar indicações preciosas para a melhoria do nosso ensino. É preciso é que os professores e o Ministério da Educação conheçam estas investigações, saibam interpretá-las e não se limitem a umas tantas ideias apanhadas no ar e algumas teorias mal assimiladas e pior divulgadas, ou seja, que não se confundam, como é frequente, estudos sérios com ideologias sociopolíticas sem fundamento científico.

De maneira muito sintética, eis alguns dados que o estudo revela. Os manuais de Língua Portuguesa do 4.º ano de escolaridade têm um número limitado de textos e pouca diversidade de autores. Não há um cânone de bons autores comum a todos os manuais e, por vezes, não se indicam os autores dos textos e, pior, cortam-se e adaptam-se textos, sem se perceber que se estão a destruir os próprios textos e a reduzir, ou até anular a seu poder formativo. Os diferentes tipos de textos nem sempre vão ao encontro das orientações programáticas e faltam textos de natureza informativa. Quanto às propostas de exploração, tendem a centrar-se nas perguntas sobre vocabulário e no reconhecimento literal, sendo muito poucas as situações em que se levam os alunos a fazer inferências, e a detectar a ideia principal. A leitura crítica e a interpretação da linguagem figurativa são muito reduzidas, não sendo visível uma orientação em função daquilo que se quer que o aluno aprenda, etc. O trabalho termina com sugestões de pensamento e acção para professores, autores de manuais escolares e Ministério. Transcrevo esta: “a competência de compreensão na leitura por parte dos nossos alunos condiciona toda a sua aprendizagem, pelo que terá de ser encarada pelos responsáveis pelo ensino (o Ministério da Educação e os professores) como uma exigência feita à Escola.”

Lição moral: as navegações não devem ser feitas sem bússola e ao sabor de ventos errantes, como pensam, uns, por inocência e outros, por conveniência, mas seguindo as indicações da meteorologia e das artes de navegar.

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