sábado, 8 de dezembro de 2007

O universal e a diversidade

Excerto da Conferência de abertura da 29ª Reunião Anual da ANPEd, realizada em Caxambu, MG, 2006, proferida por Renato Ortiz (Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas)

Língua: Português do Brasil

O termo universal é polissêmico, o uso que dele fazemos remete a diferentes tradições de pensamento. Uma primeira acepção vincula-se à herança do Iluminismo. Universal define uma qualidade da “natureza humana”. Os pensadores dos séculos XVII e XVIII divergiam na sua avaliação a respeito da sociedade, da passagem do estado selvagem para a vida coletiva, das formas de governo dos povos (democracia, despotismo, monarquia), da hierarquia das raças e da origem da linguagem. No entanto, eles partiam de um mesmo princípio: o homem. Esse é um ser objetivamente dado, raiz de toda sociedade, independentemente da forma como ela se autogoverna ou se estrutura. Ser racional, capaz de sair do estado da natureza por meio de um contrato social no qual o bem comum seria superior à vontade individual desregrada. O humanismo das Luzes funda-se nessa categoria transcendente e abstrata, ela permite as generalizações filosóficas sobre um conjunto diverso (historicamente) e homogêneo (filosoficamente), passível de ser compreendido e ordenado segundo a razão: a humanidade.

Foucault (2002) acredita que esse seria um dos pilares da epistéme moderna que se consolida no final do século XVIII. Existiria assim uma história universal; ela é teleológica para Hegel, um aperfeiçoamento contínuo para Condorcet; malgrado as diferentes abordagens, permanece um núcleo inalterado, o substrato de toda e qualquer universalidade. Este é o sentido do texto de Kant (1991): O que é o Iluminismo?. Sua resposta à pergunta é clara: é a saída do homem para fora do estado de tutela pelo qual ele mesmo é responsável. Postula-se portanto a existência de um homem guiado pela razão (ele é capaz de sair do estado de tutela) e um conjunto de valores pelos quais ele age no mundo: espírito de liberdade, uso público da razão, responsabilidade. “Natureza humana” associa-se, assim, a metavalores cuja realização seria evidentemente necessária. Quando Habermas escreve que “a modernidade é um projeto inacabado”, ele pressupõe a manifestação desses valores universais; eles seriam transcendentais e anteriores à sua efetivação histórica, e em princípio fundariam e legitimariam a existência das sociedades modernas. A mesma premissa encontra-se em autores como Karl Apel, que considera imprescindível a existência de uma ética universal no contexto da globalização. (…)

(ler o texto integral – publicado na Revista Brasileira de Educação v. 12 n. 34 jan./abr. 2007)
Referências Bibliográficas do texto:
FOUCAULT, Michel (2002). As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes.
KANT, Emmanuel (1991). Qu’est-ce que les lumières. Paris: Flammarion.

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