sábado, 8 de dezembro de 2007

Anotações pessoais sobre o Universal



“Ad maioras natus sum!” – Nasci para coisas maiores! (máxima medieval)

«Hoje, a nossa escolaridade é de amnésia planificada» (Steiner e Ladjali, 2005,46).


Metamorfoses em Educação e o Elogio do Conhecimento*

O grande abismo que separa estas duas máximas, diríamos ironicamente, a máxima e a mínima, não se prende, tão-somente, com o tempo que as separa, é bem mais complexo. Sendo que o optimismo premeia a primeira, e o colapso, a segunda.

Se é verdade que os tempos mudaram, os heróis, os ideais… não é menos verdade que há valores que a humanidade conquistou (democracia, igualdade, justiça, tolerância…) e que a Declaração Universal dos Direitos do Homem autentica como, preciosos, absolutos. Um tesouro a preservar! Licurgo, legislador grego, diria que o segredo reside, simplesmente, na educação. Porém, se a instituição família não passar esses valores e se a instituição escola também o não fizer, então, o futuro da humanidade estará comprometido.

Numa leitura atenta aos documentos curriculares mais recentes, muito sucintamente, vejamos as ideias repassadas: (1) todos os valores são relativos, construídos, subjectivos, equivalentes; (2) os alunos possuem capacidade de auto-orientação no plano axiológico; (3) a escola não pode impor valores particulares, deve respeitar a liberdade de escolha (Cf. LBSE-Lei nº 49/2005 e DL nº 6/2001).

Pactuar com ideias peregrinas como estas de que: as crianças e os adolescentes devem escolher os seus próprios valores; o que importa são as competências e não o saber (sobretudo o saber mais erudito); o professor não deve ensinar, deve ser um mero facilitador… é falacioso e só pode conduzir ao abismo.

Esta não é uma questão pacífica no debate sobre a educação e não está resolvida, mas não ensinar, recusar ensinar, mesmo que seja com boas intenções, é à luz dos conhecimentos actuais, uma falta gravíssima. Sendo responsabilizada com frequência por contribuir para baixar o nível educativo e diminuir a exigência e o rigor que são colocados aos alunos (Morais, 2006).

O culto da sabedoria, ainda que em desuso, fustigado ou incompreendido pela tutela, bem visível nas orientações curriculares, é ainda o melhor caminho para melhorar o mundo. Condição se ne qua non, o resultado é a sua degradação, ou seja, «Mais do que pobres, tornamo-nos inférteis» (Couto, 2005,11). Este escritor identifica como a principal razão do maior empobrecimento de um país os seguintes factores: (1) falta de ideias, (2) erosão da criatividade e (3) ausência de debate produtivo. Koninch (2003) ajuda-nos a compreender a origem destes problemas, identificando duas novas formas de ignorância diametralmente opostas: (1) que abre e liberta; (2) que aprisiona e mata. A primeira, «motor de todos os progressos do saber» (p.9), identifica-se com a postura de quantos se preocupam verdadeiramente com a educação e o conhecimento, a segunda faz viver na ilusão de que se sabe quando, na verdade não se sabe.

Steiner e Ladjali (2005) fazem sentir o perigo de vivermos nessa ilusão (como a escola pode reproduzir e consolidar clivagens sociais): seguir abordagens literalmente não directivas, centradas no aluno, privilegiar o relativismo cultural, axiológico ou a contextualização da aprendizagem no grupo social, só leva à ignorância, à (i)literacia, à escolaridade de amnésia planificada e, naturalmente, ao acentuar das desigualdades de oportunidades.

É preciso (re)tomar o brilho e o encanto de ensinar e aprender, integrar o saber, a eficácia, a excelência… cultivar o elogio do conhecimento. Como? Despertando nos alunos a curiosidade intelectual, o interesse em aprender, inculcando hábitos de disciplina e de esforço.

Não há mal nenhum em transmitir conhecimentos, em direccionar os interesses dos alunos, ou em levar os alunos a assumirem valores universais. O que importa é que isso se faça da maneira que hoje entendemos por adequada, com as estratégias de que hoje dispomos e não com as estratégias de há quarenta ou trinta anos atrás. Não podemos é cair no ridículo e sintomático laxismo a que, por exemplo o ensino do Português e a aprendizagem dos textos literários chegou: «Onde deveria haver sensibilidade, finura e inteligência na compreensão da literatura, há apenas testes de resposta múltipla completamente absurdos» (Coelho, in Público, 9 Maio, 2006). Uma realidade uma vez mais confirmada nas recentes Provas de Aferição de Língua Portuguesa do Ensino Básico e no Exame Nacional de Língua Portuguesa do 9º ano. Claro está, sendo o currículo contextualizado a expressão do desejo educativo da comunidade a que os alunos pertencem, assim, não haverá literatura que resista!

Referências:
Couto, M. (2005). Pensatempos. Lisboa: Editorial Caminho.
De Koninck, T. (2003). A nova ignorância e o problema da cultura. Lisboa: Edições 70.
Morais, A. M. (2006). A educação que não temos… in Público, 7 Janeiro.
Steiner, G. & Ladjali, C. (2005). O elogio da transmissão, o professor e o aluno. Lisboa: Dom Quixote.

Lei nº 49/2005 - Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE).
Decreto-Lei nº 6/2001 - Reorganização Curricular do Ensino Básico.

* Fátima André, Junho de 2007

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