sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Métodos activos

(Re)lendo o texto da Professora Isabel Festas*ENL (estudar nos livros) e PUP (pensar um pouco), seleccionei alguns excertos para aqui podermos reflectir:

"Estando na ordem do dia o apelo à adopção de métodos activos, como suporte de uma aprendizagem que não se limite à reprodução de conhecimentos, parece-nos de toda a pertinência chamar a atenção para o papel que a leitura e o estudo de textos podem desempenhar neste contexto.»

Começo desde logo por me interpelar, haverá aprendizagem de outra forma que seja feita de forma inactiva ou não cognitiva?

Pois, acho que não pode, mas é comum, apesar de errado, falar-se de métodos activos em oposição aos tradicionais e o que eu acho é que essa oposição não tem sentido e não é sustentável. Os métodos ditos tradicionais podem ser activos, no sentido em que põem os alunos a pensar de maneira estruturada. Ou seja, não basta termos quadros interactivos para que os alunos aprendam...

A questão cognitiva está muito arredada das discussões pedagógicas (apesar de muitos investigadores, pedagogos, acharem que não há outra maneira de aprender que não seja cognitiva), talvez tenha que ser (re)definida, (re)significada, e não abandonada.

Não será que esta coisa nova que chamamos de inovação (métodos activos), não é bem antiga?

Por exemplo, fala-se muito na necessidade de atender ao contexto social, afectivo, relacional, cultural étnico do aluno... mas, da cognição não se fala. O resultado é o mesmo, (com contextualização social ou não), a aprendizagem não se completa se o aluno se recusar a colaborar nesse processo complexo (e não são raros os casos que temos nas nossas salas de aula), por isso, que adianta andarmos a intrometer-nos na privacidade dos alunos?

Para o tema supradito recomendo a leitura de três textos, muito recentes, da autoria de Maria Helena Damião**: “O quotidiano e a vivência dos alunos”; “Bons manuais de Educação para a Cidadania” e “Planta da sua casa ou da sua escola?”.

A aprendizagem, como diz a Prof. Isabel Festas, e penso que muito bem, é digamos um processo interactivo faseado em que vai ocorrendo a transformação da informação, seja ela transmitida pelo professor ou recolhida e tratada pelo aluno sob a orientação do professor.

Um pouco mais adiante a Prof. Isabel escreve: «Afastando-nos de uma perspectiva que considera como activos aqueles métodos centrados na iniciativa dos alunos, nas suas capacidades de procura e na sua motivação intrínseca para aprender, consideramos que uma aprendizagem activa depende, essencialmente, da actividade cognitiva de quem aprende.»

Parece-me utópico que se possa pensar que algum método sozinho seja bom ou eficaz. Ainda que os alunos façam pesquisas, recolham informação... o ensino ou a aprendizagem não se pode resumir a essa actividade. Existe a ideia de que só se deve ensinar o que os alunos quiserem apreender. É com isso que não concordo. No entanto, não vejo mal nenhum que os alunos possam estar motivados intrinsecamente para determinados temas, não podemos é também resumir o ensino a temas dos interesses dos alunos...

A motivação tem um papel importante na aprendizagem... mas a motivação também pode ser criada... podemos conduzir os alunos e levá-los a interessarem-se por outras coisas... na Psicologia utiliza-se a terminologia de motivação externa e internalizada... por isso, o papel da escola, do professor, é determinante ou pode ser nas aprendizagens dos alunos. A escola pode e deve ser uma coisa bonita e aprazível para os alunos e o papel dos professores e da escola, também passa por aí fazer a "magia" do aprender a gostar de aprender. Um bom professor, um bom pedagogo consegue prender a atenção dos alunos, consegue motivá-los para aprender (independentemente dos métodos que utiliza), até para coisas que à partida parecem muito "chatas de aprender" como a física ou a matemática. Veja-se o exemplo do Prof. Carlos Fiolhais, um dos nossos melhores divulgador de Ciência em Portugal, ele prende a atenção pela comunicação do conhecimento. Aqui é que eu acho que falhamos muito. Um professor, de qualquer nível de ensino, tem que ter uma competência de excelência na área da comunicação do conhecimento.

Os formadores de formadores (nas Universidades e nas ESE) não se podem preocupar somente com aspectos pedagógicos, métodos, estratégias... isso, aprende-se e aperfeiçoa-se ao longo da vida… a transmissão com rigor do conhecimento científico é bem mais importante...

Não querendo culpabilizar nem os profs do Básico, nem os do Secundário, nem os do Superior… é bom que nos vamos interpelando onde está o erro… e é bom que estejamos conscientes de que todos os níveis estão relacionados... por isso é que um sistema de ensino é um sistema.
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* Professora Associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
** Professora Auxiliar da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

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