sábado, 17 de novembro de 2007

Grandes vultos da Literatura Portuguesa II

"Um marco de incontestável importância na literatura portuguesa"

Por Mariana Pinheiro, In Público, 17.11.2007
O Memorial do Convento marca um antes e um depois no panorama literário português. É celebrado pela visão que tem do mundo e pela forma como o descreve

"Ler Saramago é extremamente sedutor porque exige ao leitor um papel activo. O Memorial do Convento prima por conseguir fazer uma aliança entre a História, as fontes oficiosas (documentos sem acreditação histórica) e a ficção. É uma obra que fala connosco. Abre uma série de potencialidades", diz Ana Paula Arnaut, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que hoje fará, em Mafra, a comunicação Memorial do Convento: a História reinventada, num colóquio integrado nas comemorações do aniversário do livro.

Relativamente à introdução da obra no programa da disciplina de Português no ensino secundário, a especialista refere que, por fim, se reconheceu "o mérito ao grande escritor José Saramago". No entanto, adianta que à primeira vista pode não ser uma obra fácil de estudar, mas que todos os obstáculos à sua compreensão podem ser ultrapassados se os professores se prepararem e criarem condições para uma aprendizagem mais entusiasta.

"Criou-se um efeito de auréola em torno de José Saramago e do Memorial do Convento. Ele escreve de maneira diferente. Pode não fazer pontuação de uma forma canónica, mas ela está lá."

Ana Paula Arnaut defende ainda que "a produção literária de José Saramago constitui um marco de incontestável importância na literatura portuguesa". Acrescenta que as principais linhas temáticas que percorrem o conjunto da obra de Saramago dão a conhecer um autor cujas preocupações sociais e políticas apontam para a defesa dos mais fracos e desfavorecidos e para a denúncia de sistemáticas violações dos Direitos do Homem.

Como exemplo, temos a História do Cerco de Lisboa e o Memorial do Convento, onde o escritor reescreve a História portuguesa através dos mais fracos e dos mais pobres. Remete também para uma crítica à crescente irracionalidade de um mundo que parece ignorar toda a espécie de valores éticos e humanitários, temáticas presentes em obras como Ensaio sobre a Cegueira ou Ensaio sobre a Lucidez, onde Saramago se debruça sobre várias espécies de terrorismo moral e físico. A religião, a igreja e seus representantes ou, ainda, o modo como a instituição religiosa tem vindo a exercer o seu poder não escapam também ao olhar e à crítica do prémio Nobel.

"Gosto da maneira como Saramago escreve, como utiliza a linguagem para recriar os mundos, e gosto da visão desses mundos, mesmo que apocalípticos", diz a docente. Também José Manuel Mendes, presidente da direcção da Associação Portugueses de Escritores, tece comentários à obra que celebra hoje um quarto de século. "O Memorial do Convento afirmou-se com uma identidade fortíssima que marcou os anos vindouros na literatura portuguesa. Tornou-se numa virtude incomparável. Inaugurou novos caminhos e acentuou a inovação. A escrita de José Saramago é de uma grande fluidez e não apenas vanguardista do ponto de vista técnico-formal", comenta.

Nota:
Para ler e saber mais sobre o autor e as suas obras, aqui na Editorial Caminho e particularmente sobre o “Memorial do Convento” [aqui].

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