quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A escola não consegue cumprir a sua função

A escola não consegue cumprir a sua função… como não se define o que se quer da escola, não se consegue cumprir e exige-se muito… a falta de estabilidade de regras e legislação que não seja contraditória… estas foram algumas das expressões frequentemente a debate na Conferência da Gulbenkian cujo tema em debate se centrou na problemática do Sucesso versus Insucesso.

A propósito destas preocupações encontrei um excerto de uma interessante reflexão do alemão Dietrich Schwanitz, dos finais do séc. XX. Não sendo um texto que se refira directamente à realidade Portuguesa, mas sim à realidade Alemã, o certo é que ela é um retrato, diria, quase perfeito da nossa própria realidade. Aqui fica.

Por Maria Helena Damião

As três irmãs górgones

Começo por lançar um desafio ao leitor, que se traduz em duas perguntas:

- Quem escreveu o texto que a seguir se transcreve?
- A que realidade educativa se reporta?

“O ensino transformou-se no reino das trevas. No seu interior evaporaram-se as ideias sobre o que devemos, afinal, aprender. Uma reflexão séria, apoiada numa base científica sólida, sobre os objectivos do ensino, é algo que não se vislumbra acontecer em parte alguma. Em vez disso pontificam as suas duas irmãs – a grande insegurança e a grande confusão.

Experimentam-se continuadamente modelos novos. A escola regressou ao princípio da economia directa. O desconhecimento da língua e da literatura nacionais pode ser compensado por educação física, e as lacunas em matemática por religião e moral (…). Tudo isto fez da escola um mercado, onde se negoceiam notas e onde os alunos regateiam com os professores pontos decimais. O facto de tudo poder ser combinado com tudo, de tudo ser permutável e passível de ser compensado, conduziu à consagração da terceira irmã górgone: a grande aleatoriedade.

O seu domínio fez com que se esfumasse a ideia do valor cultural impermutável a cada disciplina, dependente do respectivo conteúdo. O princípio fundamental de qualquer ordenamento hierárquico dos diversos conteúdos do saber foi posto de parte: a distinção entre o acessório e o fundamental (…)

(…) as escolas padecem de uma contradição atormentadora: é suposto os alunos aprenderem o mesmo em todo o lado para assegurar que as habilitações escolares – com destaque para as de acesso ao ensino superior – tenham um nível ao menos aproximadamente homogéneo. No entanto, cada (…) define a sua própria política escolar (…)

Perante estes deprimentes resultados, os representantes da burocracia cultural recorrem a um meio de eficácia comprovada (…) na manutenção de ficções, na negação da realidade e no esforço de ignorar as evidências. Os ministros foram, neste caso, ao ponto de manter em segredo investigações científicas que comparavam entre si o aproveitamento escolar dos vários tipos de escola (…) em poucas áreas se mente tanto na política educacional e escolar.

Para mais, o problema de toda esta concepção reside num erro simples que qualquer criança saberia apontar com a mesma facilidade que a nudez do rei: a igualdade de oportunidades no início da competição escolar é confundida com a desejada igualdade dos resultados no seu final (…)

Nesta situação os ministros (…), cujos representantes mal devem conhecer a situação nas escolas por experiência própria retiraram aos professores a maior parte dos meios disciplinares, de modo que agora existe uma desigualdade de armas absoluta. Castigos, como repreensões, admoestações, notificação aos pais e – no caso de faltas graves – a ameaça de exclusão ou a exclusão efectiva da escola encontram-se tão cerceadas por regulamentos, requerimentos, votações e reuniões escolares que qualquer professor prefere prescindir delas: com todo este aparato, ele castigar-se-ia sobretudo a si próprio. Como os alunos estão a par disso, ainda fazem troça dele.

Ora, como os professores são oficialmente culpados pelos seus próprios problemas, são empurrados para a via da mentira; fazem segredo das suas próprias dificuldades. Um discurso público (troca de pensamentos e opiniões) em que os seus problemas pudessem ser descritos não existe. Deste modo quebra-se a solidariedade entre os professores, que passam a concorrer uns com os outros com uma mentirosa política de imagem pública. Fingem-se bem sucedidos e fazem de conta que não têm problemas. Na realidade, muitos de entre eles encontram-se profundamente desmoralizados (…).

Em resumo, as escolas estão num estado tão lastimável que a miséria permanece completamente desconhecida, visto a sua dimensão ser inconcebível.Isto não significa que não existam, aqui e acolá, escolas funcionais, directores empenhados e professores bem sucedidos, assim como alunos medianamente felizes. Talvez até existam bastantes. Mas escolas assim já não são a regra, passando as outras por excepções (…)”.

Voltando às perguntas que dirigi ao leitor no início do texto, dou, agora, as respostas.
- Não, não é português o autor destas palavras. É o alemão Dietrich Schwanitz (1940-2004) (na fotografia ao lado).

- Não, não é Portugal a realidade educativa em causa. É a alemã, de finais do passado século XX, da actualidade, portanto.

Com este exercício quererei eu fazer passar a ideia de que a realidade educativa portuguesa não está, afinal, tão debilitada quanto algumas vozes fazer crer? Que está, digamos assim, de acordo com outras realidades educativas que nos superam em estudos credenciados de avaliação internacional (por exemplo, no Trends in International Mathematics and Science Study, 2003; no Programme for International Student Assessment, 2000, 2003 e 2006; e no Progress in International Reading Literacy Study, 2001, 2006)?

Não, não quero dizer isso. O que quero dizer é que, no presente, existem problemas que, com maior ou menor incidência, afectam diversos sistemas de ensino ocidentais. E alguns desses problemas nem sequer são novos, atravessam os tempos desde a Antiguidade. Mas não justifica o que acabei de escrever, que nada se faça para os resolver ou minimizar.

Termino, pois, com um toque de optimismo que a História da Educação autoriza e que antevejo nas palavras, que alguns dirão pessimistas, de Schwanitz: “O mito e a cosmologia ensinam-nos: quando o desenvolvimento bate no fundo, é tempo de arrepiarmos caminho. A noite mais longa é, ao mesmo tempo, o solstício; após a descida ao inferno segue-se a ressurreição. Por isso são horas de acabarmos com as três irmãs que são a grande insegurança, a grande confusão e a grande aleatoriedade. Uma das górgones mitológicas é a Medusa, cujo olhar é mortífero; se a confrontarmos com um espelho, ela mata-se a si própria. Comecemos, pois, por aí.”

Referência da obra citada:
- Schwanitz, D. (2004). Cultura: Tudo o que é preciso saber. Lisboa: Dom Quixote, páginas 25-30.

Imagens:
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