domingo, 18 de novembro de 2007

A Bíblia come-se (Parte 3 e 4)


(continuação)


Por Alexandra Lucas Coelho, In Público, 17.11.2007

No princípio era a palavra. Palavras soltas, nomes de coisas que se comem, que Tolentino Mendonça e Ilda David" recolheram na Bíblia. Depois veio um cozinheiro, Albano Lourenço, e criou 41 receitas. Aconteceu então um primeiro almoço. Vamos comer a Bíblia.

(…)

3. Entra o cozinheiro
Miguel Júdice - filho de José Miguel Júdice, e responsável pela rede de hotéis e restaurantes associados à Quinta das Lágrimas, incluindo o restaurante Terreiro do Paço -, refere-se a José Tolentino Mendonça como "um amigo da família", que celebrou casamentos e baptizados no espaço da quinta que o mito de Pedro e Inês tornou célebre.
Foi justamente num baptizado, em 2006, que Tolentino conheceu Albano Lourenço, chefe de cozinha da Quinta das Lágrimas, e um dos portugueses com uma estrela Michelin.
"Tinham-me dito que o padre Tolentino era um entendido em gastronomia bíblica, e antes eu nem sabia que havia alguém a falar desse assunto!", lembra ao P2 o chefe Albano. "A conversa foi evoluindo e o padre Tolentino perguntou-me se eu não faria um jantar bíblico para amigos. Eu disse que já não lia a Bìblia há muito tempo e que ele tinha que me ajudar.
"Esse jantar acabou por não se fazer. "Ia eu um dia a caminho de Vilamoura e telefonam-me", conta o chefe Albano.
Quem estava a ligar era Miguel Júdice.
""Albano", disse ele. "Afinal já não é um jantar, é um livro."" Que surgira, entretanto, em conversa entre a Quinta das Lágrimas e a Assírio & Alvim.
Tratava-se de um verdadeiro génesis gastronómico - no princípio era a palavra.
Palavras soltas, nomes de coisas que se comem, era o que havia e a partir daí havia que criar tudo.
Albano Lourenço nem hesitou.
"Deram-me textos bíblicos, frases", explica, e começa a folhear os seus rascunhos, maços de passagens escolhidas por Tolentino Mendonça e Ilda David": "Um cordeiro que tem de ser um macho de um ano" ou "e naquela noite comerão a carne assada ao forno com pão ázimo e ervas amargosas", coisas assim soltas, do Antigo e do Novo Testamento. "Eram centenas de palavras, desde os frutos secos aos normais, às ervas aromáticas, e a partir daí comecei a fazer associações.
"Por exemplo, lia "das entranhas tudo comerão", em relação ao cabrito. "E então fiz o bucho de cabrito com mel.
"Uma das 41 receitas que pode ser encontrada neste livro.
E a celebrada - no almoço dos 25 comensais, anteontem - sopa de lentilhas com azeitonas? "Estamos a falar de uma época em que o azeite dava para comer e para iluminar, e as lentilhas são a leguminosa da altura."O pregado com figos, cuja receita, tal como a da sopa da lentilhas, também aqui publicamos, nasceu igualmente destes limites criativos no acompanhamento do peixe. "Eles comiam basicamente pão e fruta. Não ia usar batata e arroz, como o milho, vêm mais tarde, então o figo combina muitíssimo bem com esta qualidade de peixe. Não quis um prato muito gordo. O figo foi cozinhado só em vinho, e o aipo ajuda a tirar o açucarado do figo." Quanto ao pregado, "é um peixe firme e forte, aguenta bastante bem este processo de ser salteado dois minutos em azeite bem quente, primeiro sobre a pele".
Anotem.
Mas entre as seis receitas que daqui a pouco vão desfilar sobre a mesa há uma com batatas.
Foi a que Albano Lourenço guardou para evocar a tradição cristã portuguesa, e a sua própria memória de menino, em Seixo de Mira, perto de Coimbra. "Quando morreu a minha avó, eu todo surpreendido via os parentes a entrarem com a canja de galinha, o bacalhau e as filhozes de abóbora. E achei que era giro ter no livro algo só da nossa tradição.
" É assim que esse bacalhau, chamado dos mortos, ou das almas, tem rodelas de batatas, e lá estão, também no livro, a canja e as filhozes.
Concebida a criação, o chefe Albano não descansou. No fim da primeira semana de Agosto, cozinhou, com a sua equipa da Quinta das Lágrimas, as 41 receitas em dois dias, e todos os pratos andaram a viajar entre a cozinha e o jardim, sob as instruções do fotógrafo Valter Vinagre, que não queria uma mera produção em cima da mesa. Foram "quilómetros" de um lado para o outro, recorda o chefe Albano.
E surpresas? "O engraçado é que eu olhava para a cor dos pratos e a sensação que tinha era de estar em Jerusalém. Tinham todos a mesma cor, uma cor de areia, de deserto.
"De resto, não havia ingredientes que nunca tivesse usado, incluindo alguns já não muito comuns na cozinha portuguesa, como a rama do aipo ou o rábano.
Procurou que todos os ingredientes nas receitas estivessem acessíveis e quis manter a simplicidade (como no ramalhete de peixes espetados em pau de oliveira, por exemplo, na capa do P2).
Filho de uma terra que deu 17 padres a Portugal - incluindo alguns da sua própria família, como teve ocasião de dizer durante o almoço -, o chefe Albano foi conversando muito com o seu tio padre Aníbal Castelhano, enquanto concebia o receituário.
É que há aqui matéria de controvérsia, alerta. Se a Bíblia fala em brasas, porque é que não está brasas na receita? Simples: "Porque as pessoas não têm brasas nos apartamentos.
"E tendo chegado a estas 41 receitas, já tem muitas mais na cabeça. "Pode haver uma continuação.
" Adiante-se: se aqui, de caça, só usou codornizes, tem vários outros bichos à escolha. É verdade que não será fácil arranjar texugo, mas talvez o texugo de então não seja o texugo de hoje, ressalva. Havia que investigar.

4. Primeiro almoço
E aí vem então o queijo polvilhado de pimenta-rosa, quase imponderável de tão suave, a que se segue o já falado bacalhau das almas, também em aperitivo.
Como entrada, a sopa de lentilhas pousa na mesa, espumosa e verdadeiramente cor-de-deserto, com as azeitonas pretas às rodelas postas na hora. Uma sensação, a ser confirmada quase unanimemente quando todos se levantarem da mesa.
A posta de pregado chega firme como prometido, e o cruzamento dos figos com o aipo (e ainda azeitona) pede silêncio, e depois que se espalhe a boa-nova.
Para sobremesa, apresentam-se os pequenos fritos em forma de losango chamados coscoreis, estaladiços e não demasiado doces, logo coadjuvados por café com sonhos de abóbora, os tais que o chefe Albano foi buscar à sua infância.
Nisto passaram quase três horas, e sem peso no estômago, como um bouquet de sabores, leve e substancial. Joachim Koerper, chefe do Eleven - também ligado à Quinta das Lágrimas - levanta-se sem poupar elogios ao seu camarada. "Uma coisa fantástica, que não é fácil. Chapeau!" Diz que "o creme de lentilhas estava óptimo", o "bacalhau soberbo", que "o ponto de cozedura do pregado, não se pode fazer melhor", e salienta "a forma como se casa com os figos". Posto isto, "há que dizer: bravo!" e sente-se "muito agradecido".
Ilda David", que não só fez com Tolentino a recolha dos ingredientes como assistiu à épica sessão de fotografias na Quinta das Lágrimas, entre cozinha e jardim, tem dificuldade em eleger um entre os seis pratos provados. "A sopa de lentilhas...", acaba por dizer. "Mas o peixe também é fantástico, o aipo com o doce do figo..."
E José Tolentino Mendonça, que não esteve na Quinta das Lágrimas durante as fotografias e acaba, por assim dizer, de comer a Bíblia pela primeira vez? "A surpresa foi perceber como está perto de alimentos que estão no nosso quotidiano, como fazer receitas a partir da Bíblia não exige a transformação da nossa cozinha.
" Também hesita em escolher, mas... "Talvez aquela sopa de lentilhas tivesse sido um momento mais intenso. As lentilhas estão muito presentes na Bíblia, era um alimento quotidiano mas ao mesmo tempo apetecido. Esaú troca o seu direito de progenitura por um prato de lentilhas." Daí nasceu um ditado. "E há um sabor evidentemente antigo na degustação dessa sopa, alguma coisa de um tempo primeiro.
"Nesse tempo, há um momento, que Tolentino cita em epígrafe no prefácio deste livro de receitas, em que literalmente se come a Bíblia.
É uma frase do Apocalipse: "E fui-me ao Anjo, dizendo-lhe: Dá-me o livrinho. E ele me disse: Toma-o, e come-o." Assim seja.

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