sábado, 17 de novembro de 2007

"A Bíblia come-se" (Parte 1 e 2)



Por Alexandra Lucas Coelho, In Público, 17.11.2007

No princípio era a palavra. Palavras soltas, nomes de coisas que se comem, que Tolentino Mendonça e Ilda David" recolheram na Bíblia. Depois veio um cozinheiro, Albano Lourenço, e criou 41 receitas. Aconteceu então um primeiro almoço. Vamos comer a Bíblia.

Para uma refeição bíblica
O P2 propõe cinco pratos: a entrada, o prato de peixe e a sobremesa do almoço de apresentação do livro, e dois pratos de carne alternativos, uma vitela sugerida por Albano Lourenço, o autor das receitas, e um cabrito sugerido por José Tolentino Mendonça, que escreveu o prefácio.

1. O livro está na mesa
Não é metáfora, é literal. José Tolentino Mendonça acaba de o dizer, à mesa: "A Bíblia é um livro que se come." E poucas pessoas em Portugal o poderão dizer com a naturalidade deste padre poeta que tomou a refeição bíblica para matéria de doutoramento e agora está rodeado de 25 comensais que vão, sim, literalmente comprovar como a Bíblia se dá a comer.
Desde a maçã do paraíso ao corpo da comunhão, comer tem um lugar central no texto bíblico, nota Tolentino, e Cristo é aquele que "ou está a dirigir-se para uma refeição, ou está numa refeição, ou vem a chegar de uma refeição", até à última ceia.
Nesta quinta-feira, 14 de Novembro, trata-se antes de uma espécie de primeiro almoço para quase todos os presentes, incluindo Tolentino. Há um ano conversou com um cozinheiro e agora, na sala interior do restaurante Terreiro do Paço, em Lisboa, o resultado - um livro - está na mesa.
Não é metáfora, é literal. A Bíblia Contada pelos Sabores - Receitas de Albano Lourenço na Quinta das Lágrimas, livro que a Assírio & Alvim publicou há dias e já deu como esgotado em armazém.
Entre os anfitriões do projecto (Manuel Rosa, editor, e Miguel Júdice, proprietário da Quinta das Lágrimas) e os autores (Albano Lourenço, receitas, Tolentino Mendonça, prefácio, e Valter Vinagre, fotografias), jornalistas, críticos, chefes de cozinha e outros convivas à volta da enorme mesa rectangular vão folheando as 41 receitas enquanto não entra o "Queijo de cabra com rábano e amêndoas", aperitivo de abertura polvilhado de pimenta-rosa, que em tempos bíblicos já havia (se não rosa, pimenta).

2. Deus e os tachos
A mesa "é um excelente espelho", diz Tolentino Mendonça ao P2. "Em torno da comida se descobre muito em profundidade o que são as indagações humanas, rituais e interditos. A mesa é um lugar de narrativas, cada comensal estabelece um pacto narrativo. É um lugar de escuta e de palavra, e a comida que se partilha é também a maior parte das vezes metafórica de outros alimentos.
"Na "macropaisagem" que era a sua tese académica, a princípio, "havia um interesse grande pela refeição como contexto da revelação das identidades, como à mesa Cristo jogou a revelação de si próprio, exprimiu a sua impertinência, a sua originalidade".
E quando a "macropaisagem" se comprimiu numa "micropaisagem", ou seja, depois da tese final, manteve-se "um interesse pela nomeação dos alimentos, por perceber como os sabores contam também alguma coisa do homem e de Deus".
Até aí, Tolentino, digamos, estava à mesa.
E então houve um momento em que recuou à cozinha. "Quando temos um interesse, funciona como um catalisador, vai aborvendo coisas, e a frase de Santa Teresa de Ávila ["Entendei que até mesmo na cozinha, entre as caçarolas, anda o Senhor"] foi muito importante.
"Quando a leu, Tolentino fez um "exercício de recuo" por compreender que "na cozinha, e não apenas na mesa, também está presente a dimensão revelatória" - ou seja, que "a cozinha é um lugar de teofanias".Assim, há cerca de dois anos, quando trabalhava na edição da Bíblia ilustrada com a pintora Ilda David" - entretanto publicada na Assírio & Alvim -, começou a esboçar-se uma preparação para este livro de receitas."Demos por nós a fazer algumas listas de coisas que interessam a ambos, como sonhos, plantas para um herbário, e também banquetes e manjares, do mais frugal ao mais sumptuoso.
"O pão - que começou por ser ázimo (sem fermento), tal como na receita que abre o livro - "será claramente" o alimento mais citado em toda a Bíblia.
O mel é "omnipresente", "aparece no primeiro como no último livro da Bíblia" e também o leite "desempenha um papel importante", à semelhança das "carnes suculentas", que eram "sobretudo de ovelha".
Mas há várias outras carnes consentidas - incluindo texugo - como se pode verificar pelas citações bíblicas no prefácio: "Estes são os animais que comereis; o boi, o gado miúdo das ovelhas, e o gado miúdo das cabras. O cervo, e o corço, e o búfalo, e o cabrão montês, e o texugo, e o boi silvestre, e a gama.
"Já o porco, "imundo vos será" (no Velho Testamento).
Quanto a peixes, muitos - "tudo o que tem barbatanas e escamas nas águas, nos mares e nos rios, aquilo comereis", cita Tolentino, e tudo o que não tem barbatanas e escamas "vos será abominação".
Licença para toda a ave "limpa", e interditas estas: águia, açor, esmerilhão, abutre, pega, milhano, corvo, avestruz, mocho, cuco, gavião...
Frutas várias, frescas e secas, da romã aos figos (e de ambos encontramos apetecíveis exemplos no receituário agora publicado, como adiante se provará).
Ervas, tantas, amargosas e aromáticas, veja-se por exemplo "o Cântico dos Cânticos".
Já o vinho, "bebido a seu tempo e moderadamente", "é como a vida para os homens...", "foi criado para alegria dos homens", "alegria do coração e júbilo da alma", conforme algumas passagens bíblicas - sem esquecer aquela, insistente, que propõe um banquete com "convite de cevados, convite de vinhos puros, de tutanos gordos, e de vinhos puros, bem purificados".
Uma amostra de como se pode ver o "texto sagrado judaico-cristão como um esplêndido catálogo de receitas" - com bastante margem para criação, visto que receitas mesmo, gramas disto e litros daquilo, não há.
No prefácio, Tolentino refere o antropólogo Claude Lévi-Strauss (O Cru e o Cozido), para associar o cru ao homem recolector, no estado natural, e o cozido a "uma transformação humana", "à passagem da natureza para a cultura". A cozinha é prometeica, faz uso do fogo que o homem roubou aos deuses, e representa não apenas o momento em que o homem reivindica a "condição de senhor de si", como o próprio conhecimento do humano. "Quando se chega a perceber a lógica e o conteúdo da alimentação, a ordem que regula a cozinha e a mesa (o que se come, como se come, com quem se come, a lógica dos diversos lugares e funções à mesa...) alcança-se um saber antropológico decisivo.
"É neste contexto que se pode compreender a centralidade da comida e da refeição na Bíblia.
Já o objectivo da "grande marcha de Moisés com o povo, do Mar Vermelho ao rio Jordão" era "comer e regozijar-se diante de Deus".
No Velho Testamento - que contém instruções minuciosas quanto aos alimentos e à forma de os usar, e de onde provêm códigos básicos do judaísmo, como não misturar carne com leite -, "a cozinha e mesa eram entendidas como lugares preferenciais para estender a pureza ritual fora do templo", escreve Tolentino. "A preocupação com a pureza não era simplesmente um cuidado higiénico. Provinha do estabelecimento de uma fronteira (religiosa, moral...) nítida entre a ordem e a desordem, o ser e o não ser, a forma e a ausência dela, a vida e a morte.
"O Novo Testamento - na leitura cristã de Tolentino - é o tempo onde caem muitos interditos. As regras de pureza e os códigos de honra "vão ser abalados pelo desenvolvimento das comunidades cristãs, que absorvem, numa prática fraterna, gentes e costumes das mais variadas procedências".Ao ponto de a mesa e a refeição se tornarem "por excelência o sítio da universalidade e da utopia cristãs".

(…)

Continua amanhã, para não apanharmos hoje uma dispepsia... e porque amanhã é o Dia do Senhor precisamos de Novo e Bom Alimento para revigorar as nossas energias e ânimo para a semana de intenso trabalho que se avizinha :-)

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