segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Educação para os Afectos I

A Educação dos Afectos, a Educação para os Afectos, as Emoções… constituem também uma parte significativa e contínua do ser professor na actualidade, como nos lembra Christopher Day em "A Paixão pelo Ensino". Aqui fica mais um contributo sobre esta temática.

"Uma Educação para os Afectos – O Professor à Descoberta de Si Próprio"

Por Míriam Rodrigues Aço

A preocupação com o perfil emocional e a consequente competência afectiva do professor é, hoje, um tema transversal referido em diferentes estudos sobre o perfil docente ou sobre o processo ensino-aprendizagem aparecendo enquadrado, numa Educação para os Afectos, em autores como Paulo Freire, Britt-Mari Barth, Gottman, Isabel Rosa, Miguel Guerra, entre outros.

Apesar de tratado de forma diferente pelos vários autores, este tema estrutura-se, de facto, como uma espécie de padrão transversal onde encontramos, de comum em todos eles, a consideração de que uma Educação para os Afectos leva o professor à consciencialização dos seus próprios suportes afectivos e emocionais, tornando-o mais preparado para entender e promover as suas motivações intrínsecas, o seu auto–conceito e a correspondente aceitação pessoal dos seus próprios valores e identidade. E que pode levá-lo, também, a aceitar a importância que um enquadramento afectivo e uma orientação emocional podem ter na criação de interacções e redes relacionais que, em contexto de sala de aula, se tornem estratégias facilitadoras de motivação e de qualificação dos processos de aprendizagem.

Se procurássemos estabelecer, partindo das diferentes contribuições pedagógicas referidas, uma espécie de quadro estruturante que no âmbito de uma Educação para os Afectos se constituísse como uma Pedagogia do Afecto, encontraríamos, como pressupostos essenciais, a afirmação de que o acto educativo é um acto ético e de que precisamos de saber compreender as razões que assistem às nossas escolhas, mesmo que para isso tenhamos que fazer, como nos diz Miguel Guerra, uma "arqueologia dos sentimentos" ou como afirma Paulo Freire, quando diz que "ensinar implica querer bem aos alunos, porque no fim de contas é o amor que confere valor aos demais saberes" e que vai, afinal, ao encontro da afirmação de Gottman que nos permite concluir que "o sucesso do ensino não está nas teorias complexas mas na consciência dos nossos sentimentos".

Afinal, o que a Pedagogia do Afecto pretende é levar o sujeito/professor a uma compreensão de si próprio de um modo globalizante e à aceitação pessoal do ser e do dever ser como critérios paritários da existência, podendo constituir um momento formativo essencial na descoberta de uma interioridade renovada, que possibilite ao professor um perfil em permanente acomodação, face às exigências de uma cada vez maior autenticidade e disponibilidade psico-afectiva, que lhe permitirá saber gerir e aceitar as diferentes interacções afectivas e emocionais e tomar ao mesmo tempo consciência do modo como os sentimentos e as emoções determinam as opções, as escolhas e as construções, no domínio das praxis intelectual ou atitudinal, no seu quotidiano profissional.

Formar para os afectos é, afinal, dar espaço às emoções, permitir que delas se fale, que sejam vividas como memórias a depurar no processo de auto-conhecimento e de auto-realização que está na base de toda a cognição do sucesso. O perfil desejável do professor, nesta sociedade que, à conta da revolução informacional, apela cada vez mais "à interconectividade, ao sentimento da abrangência e complexidade" (Carvalho, Adalberto, 1999) deve passar, necessariamente, por um aperfeiçoamento pessoal onde os compromissos existenciais, a eticidade das escolhas, as formas de vivenciar os afectos, a própria tensão criativa das experiências emocionais, possam ser trabalhadas num processo formativo onde se treinam competências já adquiridas e onde se adquirem novas competências, direccionadas para a tomada de consciência progressiva do papel que as emoções e os afectos desempenham, na construção equilibrada dos ambientes propiciadores de uma aprendizagem de sucesso.

Dar suporte teórico às vivências emocionais, apresentar paradigmas processuais que permitem trabalhar as emoções, partilhar experiências vivenciadas na sala de aula e dar-lhes o enquadramento interpretativo, irá constituir, certamente, também, uma importante mais valia na própria auto-valoração pessoal. Afinal, enquanto professores, somos pessoas por inteiro e vivenciamos, nos espaços pedagógicos da nossa profissão, um mundo de emoções e afectos que cresce também à medida das nossas próprias apetências e é por isso que se torna essencial saber despertar, de um modo claro e consistente, essas mesmas apetências, e torná-las criadoras de interacção. E torna-se igualmente essencial ter a consciência plena de que é neste viver de afectos, de sonhos partilhados, de tramas construídas, de palavras e silêncios, que acontecem os saberes e que aí nos encontramos, enquanto professores, responsáveis e interactivos, neste acto criador.

In correio da educação, nº 308 de 8 de Outubro de 2007

Sem comentários: