segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Educação para os Afectos II



Mais um contributo para a reflexão sobre os desafios que se colocam ao professor de hoje no âmbito da A Educação dos Afectos.

"Afectos, prática reflexiva, disponibilidade psico-afectiva - Os desafios do professor de hoje"

Por Míriam Aço

Somos professores num tempo de mudança: mudanças vividas por decisões ministeriais; mudanças sentidas na mobilidade dos próprios fenómenos sociais, resultantes de novos mapas culturais e novos agentes de socialização; mudanças experimentadas na nossa própria identidade, pessoal e profissional, perante os desafios da comunicação, à distância de um qualquer comando digital, e que fazem estremecer o que havíamos pensado como verdade segura e intocada da nossa profissão, a nossa formação académica e científica, que nos realizava como transmissores qualificados de conteúdos, aceites, sem discussão, como autênticos conhecimentos e saberes.

Sentimos hoje que esta competência, trazida pela nossa formação superior, tocada levemente por uma Pedagogia que, na maior parte dos casos, foi aprendida no estágio, como matéria a assimilar e a aplicar no registo das aulas observadas, aparecendo, quase sempre, ainda direccionada para uma Didáctica de objectivos e produtos e não de processos e desempenhos, não nos preparou para a escola de hoje.

Temos consciência de que o perfil de competências que é exigido, pela própria prática docente e os seus múltiplos contextos, ao professor, no seu dia-a-dia, é um leque abrangente de variáveis onde a competência sócio-emocional desempenha um papel essencial já que é através dela que o professor poderá construir espaços de interacção consistentes, tornando-se, ao mesmo tempo, capaz de gerir as distâncias entre o sucesso de uma prática pedagógica idealizada e a sua prática docente quotidiana. Todavia temos, também, a noção de que falamos de uma competência muito abrangente, do ponto de vista dos comportamentos esperados, mas que é conceptualmente difusa e quase equívoca, principalmente se continuarmos a pautar o nosso modelo de professor por um referente unívoco, seja ele o modelo tradicional de "transmissor de conteúdos" ou a versão pós-moderna de "gestor de recursos e aprendizagens". O que pretendemos, afinal, dizer é que, nesta sociedade em que a complexidade se instalou como paradigma e natureza intrínseca, espera-se do professor que seja um fiel e rigoroso repositório de conteúdos, mas que seja também assertivo, flexível, bom gestor de emoções, possuidor de auto-estima e de auto- conhecimento, capaz de criar redes relacionais promotoras de motivação e empenho; mas espera-se, também, que seja ele quem, entre criatividade pessoal e uma boa dose de intuição, vá trabalhando e dando forma a estas novas competências, deixadas um pouco ao acaso nas linhas mestras da formação de professores.

Uma Educação para os Afectos, direccionada para o significado das interacções emocionais na prática docente, poderia ajudar o professor na descoberta daquilo que, em termos de interioridade e identidade pessoal, pode ser capitalizável, como mais-valia essencial, para uma prática inovadora e de sucesso, fazendo-o aceitar o papel dos afectos, a normalidade dos sentimentos contraditórios no exercício da função docente, a necessidade de clarificar os momentos de tensão, tornando-os, se possível, criativos; e dando-lhe, para além disto, a dimensão clara do seu compromisso existencial, nesta assumpção do acto educativo como espaço de afectos.

Afinal, trabalhar os afectos, a inteligência emocional, o desenvolvimento da auto-valoração é, certamente, uma experiência pessoal significativa; mas é, também, uma experiência efectiva de comunicação, afectividade e adesão, se for vivenciada na sala de aula e se o professor for fazendo a transição destas experiências individuais para possíveis modelos de acção educativa, sustentados por uma Pedagogia do Afecto e da Compreensão.

In correio da educação, nº 309 de 15 de Outubro de 2007

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